
Hoje, 12 de outubro, o Brasil celebra a solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do país. Tudo começou com uma encomenda de peixe para um banquete: em outubro de 1717, três pescadores desceram o rio Paraíba do Sul sem pegar nada, e a primeira coisa que a rede trouxe foi o corpo de uma imagem de Nossa Senhora sem a cabeça.
Peixe para o governador
Em meados de outubro de 1717, chegou a Guaratinguetá a notícia de que o governador da capitania de São Paulo e Minas, D. Pedro de Almeida e Portugal, o futuro conde de Assumar, passaria pela vila a caminho de Vila Rica, hoje Ouro Preto. Segundo o Santuário Nacional, ele esteve na região de 17 a 30 de outubro. A Câmara chamou os pescadores do rio para providenciar peixe para o banquete, mesmo fora da época boa da pesca. Muitos desistiram pelo caminho; três insistiram: Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves.
Desceram o rio sem nada. No porto de Itaguaçu, João Alves lançou a rede e trouxe o corpo de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, sem a cabeça; lançou-a de novo, mais abaixo, e veio a cabeça, que se encaixava na imagem. Depois disso, a pesca foi tão farta que os três, com medo de virar as canoas, recolheram-se para casa. Antes de levar o peixe ao banquete, entregaram os pedaços a Silvana da Rocha, mulher de Domingos, irmã de Filipe e mãe de João, que os uniu com cera e pôs a imagem num pequeno altar, na casa da família.
Os documentos da época são escassos: o pároco de Guaratinguetá fez um relatório do achado oito anos depois, e o texto que a tradição guarda é o do Livro Tombo da paróquia, escrito em 1757 pelo vigário João de Morais e Aguiar. Foram os pescadores, diz a tradição, que passaram a chamar a imagem de Nossa Senhora da Conceição “Aparecida” das águas do Paraíba.
A imagem
É uma imagem pequena, de terracota, com trinta e nove centímetros de altura contando o pedestal, de estilo seiscentista, feita com argila da região de Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo. Representa a Imaculada Conceição. Ao sair do rio, estava sem as cores originais, e o tom escuro de hoje se explica, segundo o Santuário, pelos anos no lodo e depois pela fumaça das velas. O autor não é conhecido: alguns estudiosos a atribuem, por semelhança de estilo, ao monge beneditino frei Agostinho de Jesus (c. 1600–1661), que trabalhou em Santana de Parnaíba, mas não há documento que o comprove.
A imagem foi encontrada em dois pedaços e unida com cera na casa de Silvana da Rocha. Em 16 de maio de 1978, sofreu um atentado e ficou reduzida a cento e sessenta e cinco fragmentos. Foi reconstituída pela restauradora Maria Helena Chartuni, então no Museu de Arte de São Paulo, e voltou ao seu nicho.
Duas vezes a imagem foi remontada, e duas vezes voltou a ser venerada.
De oratório a Santuário Nacional
Filipe Pedroso guardou a imagem em casa por quase quinze anos, e a vizinhança se reunia para rezar o terço e a ladainha. Em 1732, o filho dele, Atanásio, construiu um oratório aberto ao público. Em 1743, o vigário de Guaratinguetá, padre José Alves Vilela, pediu ao bispo do Rio de Janeiro a aprovação do culto, e a primeira igreja, no Morro dos Coqueiros, foi inaugurada em 26 de julho de 1745: nasciam ali o santuário e o povoado. A Basílica Velha foi entregue aos fiéis em 24 de junho de 1888. Em 8 de setembro de 1904, a imagem foi coroada, com a coroa de ouro e o manto azul doados pela princesa Isabel.
Em 16 de julho de 1930, Pio XI, atendendo ao pedido dos bispos brasileiros feito depois do Congresso Mariano de 1929, assinou o decreto que a declarava padroeira principal do Brasil. A proclamação solene foi no Rio de Janeiro, em 31 de maio de 1931, diante de cerca de um milhão de pessoas. A Basílica Nova, com planta em cruz grega, começou a ser construída em 1955; João Paulo II a consagrou em 4 de julho de 1980, na primeira visita ao Brasil, e em 1984 a CNBB a declarou Santuário Nacional. Desde a lei de 30 de junho de 1980, o 12 de outubro é feriado nacional.
Aparecida hoje
- O maior santuário mariano do mundo, como o Santuário o descreve: a basílica cabe até quarenta e cinco mil peregrinos, e milhões visitam a cada ano.
- Solenidade no Brasil. Como padroeira principal do país, a data é solenidade e feriado; a CNBB convida os fiéis a participar da Eucaristia.
- A Sala das Promessas. Já em 1745 a igreja tinha uma sala para os objetos de promessa: os ex-votos de gente simples que veio agradecer.
- O Documento de Aparecida. A V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe reuniu-se no Santuário de 13 a 31 de maio de 2007, aberta por Bento XVI, com o tema “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida”.
“João Alves, lançando a rede de arrasto, tirou o corpo da Senhora sem cabeça; e lançando mais abaixo outra vez a rede, tirou a cabeça da mesma Senhora, não se sabendo nunca quem ali a lançasse.”— Livro Tombo da paróquia de Santo Antônio de Guaratinguetá, 1757, na transcrição do Santuário Nacional
“Senhora Aparecida, o Brasil é vosso! Rainha do Brasil, abençoai a nossa gente. Paz ao nosso povo! Salvação para a nossa Pátria!”— Dom Sebastião Leme, no ato de consagração do Brasil a Nossa Senhora Aparecida, Rio de Janeiro, 31 de maio de 1931 (segundo o Santuário Nacional)
“Porque olhou para a humildade da sua serva: pois eis que, daqui em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada.”— Lucas 1,48 (Magnificat)
As orações
O canto de Maria, o Magnificat, é a oração de quem também recebeu o que não esperava, e a Salve-Rainha é a que os brasileiros rezam ao fim do terço.
Magnificat anima mea Dominum, et exsultavit spiritus meus in Deo salutari meo. Quia respexit humilitatem ancillae suae: ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes, quia fecit mihi magna qui potens est, et sanctum nomen eius, et misericordia eius a progenie in progenies timentibus eum. Fecit potentiam in brachio suo, dispersit superbos mente cordis sui. Deposuit potentes de sede, et exaltavit humiles. Esurientes implevit bonis, et divites dimisit inanes. Suscepit Israel puerum suum, recordatus misericordiae suae, sicut locutus est ad patres nostros, Abraham et semini eius in saecula.
A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito exultou em Deus, meu Salvador; porque olhou para a humildade da sua serva: pois eis que, daqui em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada; porque fez em mim grandes coisas aquele que é poderoso, e santo é o seu nome; e a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre os que o temem. Manifestou o poder do seu braço; dispersou os soberbos no pensamento do seu coração. Depôs os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos. Acolheu Israel, seu servo, lembrando-se da sua misericórdia, como falou a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre.
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. — Vulgata; tradução do latim: nossa
Salve, Regina, mater misericordiae; vita, dulcedo et spes nostra, salve. Ad te clamamus, exsules filii Hevae. Ad te suspiramus, gementes et flentes in hac lacrimarum valle. Eia ergo, advocata nostra, illos tuos misericordes oculos ad nos converte. Et Iesum, benedictum fructum ventris tui, nobis post hoc exsilium ostende. O clemens, O pia, O dulcis Virgo Maria.
Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve! A vós bradamos, os degredados filhos de Eva; a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei; e depois deste desterro mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre, ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria.
Amém.
Sancta Maria, mater Dei, ora pro nobis. Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós — e por este povo que lança a rede sem saber o que vai subir.
- Nossa Senhora do Rosário — Lepanto e as Ave-Marias, no dia 7.
- Novena a Nossa Senhora do Rosário — nove dias com o terço.
- Nossa Senhora de Fátima — o milagre do sol, no dia 13.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.

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