Retrato a óleo de Frei Galvão, frade franciscano de hábito escuro e cordão, sentado à mesa
Retrato de Frei Galvão, pintor desconhecido (c. 1850) — Museu de Arte Sacra de São Paulo. Domínio público.

Hoje, 25 de outubro, a Igreja no Brasil celebra a memória de Santo Antônio de Sant’Anna Galvão — para os brasileiros, simplesmente Frei Galvão, o primeiro santo nascido no Brasil. Ele levou vinte e oito anos para construir um convento e uma igreja em São Paulo, e está sepultado diante do altar-mor dessa mesma igreja, onde o povo continua a procurá-lo.

Guaratinguetá, 1739

Antônio Galvão de França nasceu em 1739, em Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, numa família religiosa e de posses. O pai, português, era comerciante e terceiro franciscano; a mãe, Isabel Leite de Barros, teve onze filhos e morreu em 1755. A Santa Sé registra que, depois da morte dela, não se achou nenhuma roupa sua em casa: tinha dado tudo aos pobres.

Aos treze anos foi enviado ao seminário dos jesuítas de Belém, na Vila de Cachoeira, na Bahia. Com a perseguição aos jesuítas, o pai o aconselhou a seguir a vocação entre os franciscanos. Em 15 de abril de 1760 ele entrou no noviciado do Convento de São Boaventura, em Macacu (Rio de Janeiro); fez a profissão solene em 16 de abril de 1761, jurando defender a Imaculada Conceição de Nossa Senhora, doutrina que então ainda gerava controvérsia; e foi ordenado sacerdote em 11 de julho de 1762. Enviado ao convento de São Francisco, em São Paulo, foi nomeado em 1768 pregador, confessor e porteiro — um posto importante, observa a Santa Sé.

“Filho e escravo perpétuo” de Maria

Em 9 de novembro de 1766, segundo o Mosteiro da Luz, Frei Galvão consagrou-se à Virgem Imaculada como “filho e escravo perpétuo”, num documento assinado com o próprio sangue. Bento XVI recordou a expressão na canonização e citou também a cédula em que ele consagrou a castidade: “tirai-me antes a vida que ofender o vosso bendito Filho, meu Senhor”. O texto integral dessas cédulas não consta das fontes consultadas para esta página; por isso, aqui vai só o trecho que o Papa citou.

A Luz: o convento que ele construiu

Em 1769 e 1770, Frei Galvão foi confessor do Recolhimento de Santa Teresa, em São Paulo. Ali conheceu a Irmã Helena Maria do Espírito Santo, que dizia ter visões em que Jesus lhe pedia a fundação de um novo recolhimento. Como confessor, ele examinou essas mensagens e consultou outras pessoas, que as reconheceram como autênticas. Em 2 de fevereiro de 1774 nasceu o Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência, hoje o Mosteiro da Luz.

Helena morreu em 23 de fevereiro de 1775, e ele assumiu a direção da jovem comunidade. Um novo governador mandou fechá-la; as irmãs obedeceram, mas não saíram, e a pressão do povo e os esforços do bispo logo a reabriram. Tempos depois, o próprio frade foi exilado por defender um soldado condenado à morte, e o povo também conseguiu desfazer essa ordem. A igreja foi dedicada em 15 de agosto de 1802. Frei Galvão escreveu os Estatutos das recolhidas, um guia de vida interior, e morreu na Luz em 23 de dezembro de 1822.

Um mosteiro de barro

O Mosteiro da Luz foi projetado e construído por Frei Galvão em taipa, a técnica de argila que marcou as construções coloniais paulistas. É tombado pelo Iphan, pelo Condephaat e pelo Conpresp e abriga o convento das Irmãs Concepcionistas, a igreja de Nossa Senhora da Luz e, desde 1969, o Museu de Arte Sacra de São Paulo.

Ele morreu antes de vê-lo pronto: faltavam as duas torres da igreja, como sugere o risco que deixou na parede de uma cela. Em 2008, o Crea-SP lhe concedeu o título honorífico de engenheiro e arquiteto, e o Brasil o tem como padroeiro dos construtores.

As pílulas: uma antífona em papel

Conta o Mosteiro da Luz que um moço com fortes dores de cálculos renais pediu a Frei Galvão que o abençoasse. O frade escreveu num papelzinho o verso do breviário “Post partum, Virgo, inviolata permansisti: Dei Genitrix, intercede pro nobis” e mandou o rapaz engolir o papel, enrolado como uma pílula. O moço obedeceu, confiando em Nossa Senhora, e expeliu as pedras sem dificuldade. Pouco depois, um homem pediu ajuda para a mulher, em parto de risco; Frei Galvão lhe deu as mesmas pílulas de papel, e ela deu à luz sem problemas. Foi essa a origem das pílulas, segundo a tradição do mosteiro.

Hoje as Irmãs Concepcionistas as preparam, com oração, dentro do mosteiro, e as distribuem gratuitamente. O capelão, padre José Arnaldo, é claro: “As Pílulas de Frei Galvão não são remédio como os da farmácia. São, sim, remédio para a alma e o corpo para todo o fiel cristão que tem fé”. E pede que se reze também pelos médicos que cuidam dos doentes. A prática do mosteiro é uma novena de nove dias à Santíssima Trindade, tomando uma pílula no primeiro dia, outra no quinto e outra no último.

Foram dois casos ligados às pílulas que abriram o caminho dos altares, conforme o mosteiro: a cura de Daniela Cristina da Silva, de quatro anos, com hepatite fulminante em 1990 (milagre da beatificação, reconhecido em 6 de abril de 1998), e o nascimento de Enzo, em 11 de dezembro de 1999, de uma mãe que não conseguia levar a gravidez a termo (milagre da canonização, decreto de 16 de dezembro de 2006).

11 de maio de 2007: o Campo de Marte

Duas datas costumam se misturar. 25 de outubro é o dia da beatificação, presidida por João Paulo II na Praça de São Pedro, em 1998, e é o dia da memória no Brasil. A canonização foi na sexta-feira, 11 de maio de 2007, no aeroporto Campo de Marte, em São Paulo, presidida por Bento XVI, diante de cerca de um milhão e duzentos mil fiéis, segundo o jornal O São Paulo. A viagem do Papa ao Brasil tinha como motivo a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em Aparecida, cidade próxima da terra natal do novo santo; na homilia, Bento XVI chegou a evocar a Senhora Aparecida.

O Papa o chamou “o Santo de Guaratinguetá” e saudou as monjas da Luz, que irradiam a espiritualidade do “primeiro brasileiro elevado à glória dos altares”.

  • Escravo de Maria. A devoção à Imaculada, em que se dizia “filho e escravo perpétuo”, atravessa a vida inteira dele.
  • Adorador da Eucaristia. Bento XVI o descreveu como “fervoroso adorador da Eucaristia”, em atitude constante de adoração.
  • Confessor e pacificador. “Conselheiro de fama, pacificador das almas e das famílias”, muito procurado no confessionário.
  • Homem de paz e de caridade. Assim a Câmara do Senado de São Paulo o definiu, no fim do século XVIII.
“Tirai-me antes a vida que ofender o vosso bendito Filho, meu Senhor.”— Frei Galvão, cédula de consagração da castidade, citada por Bento XVI na homilia de 11 de maio de 2007
“Rezai para que Deus Nosso Senhor levante os pecadores com o seu potente braço do abismo miserável das culpas em que se encontram.”— Frei Galvão, segundo o testemunho da Irmã Helena Maria, citado por Bento XVI na mesma homilia
“Homem de paz e de caridade.”— Câmara do Senado de São Paulo, fim do século XVIII, citada por Bento XVI na mesma homilia

As orações

A oração que não pode faltar é a das pílulas: um verso do Ofício de Nossa Senhora, tradicional e anônimo, que Frei Galvão escrevia no papel. Não é uma fórmula mágica, e sim uma antífona: um canto de louvor à Mãe de Deus, que se reza com a fé de quem pede a intercessão dela.

Antífona do Ofício de Nossa Senhora · a oração das pílulas · tradicional
Latim

Post partum, Virgo, invioláta permansisti: Dei Genítrix, intercéde pro nobis.

Português

Depois do parto, ó Virgem, permaneceste inviolada: Mãe de Deus, intercedei por nós.

— verso do Ofício da Santíssima Virgem, como Frei Galvão o escrevia

O Mosteiro da Luz também publica uma oração ao Santo e uma novena à Santíssima Trindade, que aqui não são reproduzidas por serem de redação recente.

Sancte Antoni a Sancta Anna Galvão, ora pro nobis. Santo Antônio de Sant’Anna Galvão, rogai por nós — e alcançai-nos a paz e a caridade que o povo de São Paulo reconheceu em vós.

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