
Hoje, 4 de outubro, a Igreja recorda São Francisco de Assis. (Em 2026 a data cai num domingo, que tem precedência no Calendário Romano; o santo, porém, é o mesmo.) Na noite anterior, sábado, 3 de outubro de 1226, ele morreu no chão nu da Porciúncula. Celano diz que “recebeu a morte cantando”. E o que cantava era um poema que ele mesmo compusera na doença, quase cego, e do qual o Papa Francisco tirou o título da encíclica Laudato si’, de 2015.
Um poema em língua do povo
O Cântico das Criaturas, ou Cântico do Irmão Sol, foi escrito em umbro, o falar de Assis, e não em latim. Costuma-se apontá-lo como a primeira obra da literatura italiana com autor conhecido. O manuscrito mais antigo, do século XIII, é o Códice 338 da biblioteca do Sacro Convento de Assis, cujo título diz: “Aqui começam os louvores das criaturas, que fez o bem-aventurado Francisco, em louvor e honra de Deus, estando doente em São Damião.”
Foi ali, numa cabana ao lado do convento de Santa Clara, com os olhos quase perdidos, que ele o compôs. As fontes divergem quanto à data, entre o fim de 1224 e 1225. Celano registra que, depois de uma consolação recebida na doença, Francisco “compôs alguns louvores das criaturas” (2 Cel 213).
- Três tempos. O louvor às criaturas nasceu em São Damião. A estrofe do perdão veio depois, quando o bispo Guido e o podestà Oportulo se desentenderam e Francisco mandou cantá-la diante dos dois. A da Irmã Morte foi acrescentada poucos dias antes do fim.
- Irmãos e irmãs. Sol, Lua, Vento, Água, Fogo, Terra: todos parentes, porque todos vêm do mesmo Pai.
- Louvar “por”. O per do texto pode significar “por causa de”, “por meio de” ou “da parte de”; os estudiosos discutem, e o “por” do português guarda a mesma ambiguidade.
O Trânsito, 3 de outubro de 1226
Sentindo a morte perto, Francisco pediu para ser levado à Porciúncula, a capelinha de Santa Maria dos Anjos, onde tudo começara. Ali, conta Celano, ele se fez deitar nu sobre a terra nua, para lutar nu, na hora extrema, contra o inimigo, e disse aos frades: “Fiz o que me cabia; o que vos cabe, que Cristo vos ensine.” (2 Cel 214). Pediu que lhe lessem o Evangelho de São João e entoou o Salmo 141: Voce mea ad Dominum clamavi, “com a minha voz clamei ao Senhor”. Morreu ao anoitecer, com cerca de quarenta e quatro anos (o ano do nascimento, 1181 ou 1182, é incerto).
Nos últimos dias, segundo Celano, dizia: “Seja bem-vinda, minha irmã Morte”; e ao médico: “Anuncia-me com coragem, irmão médico, a morte próxima, que será para mim a porta da vida” (2 Cel 217). Segundo a tradição franciscana, pediu aos companheiros Ângelo e Leão que lhe cantassem o Cântico.
A imagem que abre esta página é de Giotto, na capela Bardi de Santa Croce, em Florença; a data é discutida, entre 1317 e cerca de 1333. No alto, a alma sobe ao céu entre anjos.
Os claros de reboco nu, no meio da cena, não são defeito da fotografia: a capela foi caiada no século XVIII, o afresco só foi redescoberto em 1851 e a limpeza arrancou trechos que se perderam de vez.
No dia 4 o corpo foi levado em procissão a Assis e ficou provisoriamente na igreja de São Jorge. Foi ali que, em 16 de julho de 1228, o papa Gregório IX o canonizou, menos de dois anos depois da morte, e lançou em seguida a pedra fundamental da basílica de São Francisco.
Duas coisas muito repetidas em nome dele não vêm dele. A frase “Pregai o Evangelho em todo o tempo e, se necessário, usai palavras” não se acha nos seus escritos nem nas biografias antigas; o mais próximo é a Regra não bulada: “todos os frades preguem com as obras”. E a “Oração pela paz” (“Senhor, fazei-me instrumento da vossa paz”) saiu anônima numa revista francesa em 1912; só depois passou a ser atribuída a ele.
“Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas.”— São Francisco, Cântico das Criaturas (Códice 338 de Assis; tradução do umbro)
“Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor.”— São Francisco, Cântico das Criaturas (Códice 338 de Assis; tradução do umbro)
“Fiz o que me cabia; o que vos cabe, que Cristo vos ensine.”— palavras de São Francisco aos frades, segundo Tomás de Celano, Memoriale (2 Cel 214)
As orações
O Cântico é a oração deste dia: o texto umbro do Códice 338 (grafia do códice, pontuação moderna), com tradução para o português. Depois, uma oração breve que a tradição atribui a Francisco diante do crucifixo de São Damião, por volta de 1205; chegou-nos por testemunhos tardios (esta versão italiana é de um códice do século XV) e os editores divergem quanto à autoria.
Altissimu onnipotente bon signore, tue so’ le laude, la gloria e l’honore et onne benedictione.
Ad te solo, altissimo, se konfano, et nullu homo ene dignu te mentovare.
Laudato sie, mi signore, cum tucte le tue creature, spetialmente messor lo frate sole, lo qual è iorno et allumini noi per loi. Et ellu è bellu e radiante cum grande splendore: de te, altissimo, porta significatione.
Laudato si’, mi signore, per sora luna e le stelle: in celu l’ai formate clarite et pretiose et belle.
Laudato si’, mi signore, per frate vento et per aere et nubilo et sereno et onne tempo, per lo quale a le tue creature dai sustentamento.
Laudato si’, mi signore, per sor aqua, la quale è multo utile et humile et pretiosa et casta.
Laudato si’, mi signore, per frate focu, per lo quale ennallumini la nocte, ed ello è bello et iocundo et robustoso et forte.
Laudato si’, mi signore, per sora nostra matre terra, la quale ne sustenta et governa, et produce diversi fructi con coloriti flori et herba.
Laudato si’, mi signore, per quelli ke perdonano per lo tuo amore, et sostengo infirmitate et tribulatione. Beati quelli ke l’sosterrano in pace, ka da te, altissimo, sirano incoronati.
Laudato si’, mi signore, per sora nostra morte corporale, da la quale nullu homo vivente po skappare. Guai acquelli ke morrano ne le peccata mortali, beati quelli ke trovarà ne le tue santissime voluntati, ka la morte secunda nol farrà male.
Laudate et benedicete mi signore, et rengratiate et serviate li cum grande humilitate.
Altíssimo, onipotente, bom Senhor, teus são o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.
Só a ti, Altíssimo, convêm, e nenhum homem é digno de te nomear.
Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor irmão Sol, que é o dia, e por meio dele nos iluminas. E ele é belo e radiante, com grande esplendor: de ti, Altíssimo, traz o sinal.
Louvado sejas, meu Senhor, por irmã Lua e pelas estrelas: no céu as formaste claras, preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor, por irmão Vento, e pelo ar, e pelo nublado, e pelo sereno, e por todo tempo, pelo qual às tuas criaturas dás sustento.
Louvado sejas, meu Senhor, por irmã Água, que é muito útil, humilde, preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor, por irmão Fogo, pelo qual iluminas a noite; e ele é belo, alegre, robusto e forte.
Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a mãe Terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos, com flores coloridas e erva.
Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor e suportam enfermidade e tribulação. Bem-aventurados os que as suportarem em paz, porque por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a Morte corporal, da qual homem algum vivente pode escapar. Ai daqueles que morrerem em pecado mortal; bem-aventurados os que ela achar nas tuas santíssimas vontades, porque a segunda morte não lhes fará mal.
Louvai e bendizei o meu Senhor, e dai-lhe graças, e servi-o com grande humildade.
…
O alto et glorioso dio, illumina el core mio. Damme fede dericta, speranza certa, carité perfecta, humilità profonda. Senno e cognoscemento che io servi li toi commandamenti.
Ó Deus alto e glorioso, ilumina o meu coração. Dá-me fé reta, esperança certa, caridade perfeita, humildade profunda. Senso e conhecimento, para que eu cumpra os teus mandamentos.
Amém.
Sancte Francisce, ora pro nobis. São Francisco, rogai por nós — e ensinai-nos a louvar até quando cantar custa.
- Os estigmas no Monte Alverne — o texto de setembro sobre São Francisco.
- Novena a São Francisco — nove dias de oração.
- Santa Faustina Kowalska — amanhã, dia 5.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.

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