Santa Clara de Assis aparece sobre o mar em raios de ouro para salvar um navio em naufrágio, painel de Giovanni di Paolo
Santa Clara salva os náufragos, Giovanni di Paolo (c. 1455). Os marinheiros a invocaram no meio da tempestade; o pintor a mostra chegando em raios de ouro. Domínio público.

No dia 9 de agosto de 1253 chegou a San Damiano uma bula assinada em Assis. Clara, de cama havia anos, pediu que lhe pusessem o pergaminho nas mãos e o beijou. Tinha brigado quarenta anos por aquele documento. Teve quarenta e oito horas para vê-lo assinado: morreu no dia 11. O que estava escrito ali era a primeira Regra religiosa redigida por uma mulher na história da Igreja — e o que ela pedia, com uma teimosia que atravessou três pontificados, era o direito de não ter absolutamente nada.

A porta dos mortos

Chiara Offreduccio nasceu em Assis em 1194, filha de uma família com brasão, terras e um casamento já combinado. A mãe, Ortolana, tinha ido a pé até a Terra Santa, a Roma e a Santiago — numa época em que isso significava meses de estrada e um risco real de não voltar. A filha herdou a inquietação.

Tinha dezoito anos quando ouviu Francisco pregar na quaresma de 1212. Não pediu conselho: decidiu.

Na noite do Domingo de Ramos de 1212, saiu de casa pela porta dos mortos — a portinhola que nas casas nobres só se abria para tirar caixões. Ninguém escolhe essa porta por acaso. Atravessou o campo escuro até a Porciúncula, onde Francisco e os frades a esperavam com tochas. Ali trocou o vestido de festa por uma túnica áspera e Francisco lhe cortou os cabelos.

A família veio buscá-la à força. Clara agarrou-se ao altar e puxou o véu para trás, mostrando a cabeça raspada. Não havia mais casamento possível — nenhuma negociação desfaz uma tonsura. Dezesseis dias depois, a irmã Inês foi atrás dela. Depois a irmã Beatriz. Por fim, viúva, a própria Ortolana entrou no mosteiro onde as três filhas já viviam.

San Damiano: quarenta anos em um só lugar

Francisco a instalou em San Damiano, a igrejinha em ruínas que ele mesmo tinha reconstruído pedra por pedra, e onde o crucifixo lhe havia falado. Clara entrou ali aos dezenove anos e não saiu mais: quarenta e um anos no mesmo endereço, boa parte deles doente, muitos deles sem conseguir levantar da cama.

É preciso deixar isso assentar antes de continuar. Tudo o que vem a seguir — as bulas arrancadas de três papas, as cartas que atravessaram a Europa até a Boêmia, os soldados que recuaram — foi feito por uma mulher que passou quatro décadas dentro de um quarteirão.

Santa Clara de Assis com o hábito e o lírio, afresco de Simone Martini na Basílica Inferior de Assis
Santa Clara, afresco de Simone Martini (c. 1317), Basílica Inferior de São Francisco, Assis — pintado por quem ainda podia ter conversado com quem a conheceu. Domínio público.

Formou-se em torno dela a comunidade das Damas Pobres, que a história chamaria de Clarissas. E foi em San Damiano que, na primavera de 1225, Francisco — quase cego, com dores atrozes nos olhos — passou cerca de cinquenta dias numa cabana de esteira, cuidado por Clara e pelas irmãs. Foi ali, naquelas semanas, que ele compôs o Cântico das Criaturas. O poema mais antigo da literatura italiana nasceu numa horta emprestada por ela.

O privilégio de não ter nada

Aqui está o nervo desta vida, e a razão pela qual chamá-la de discípula de Francisco é pouco.

A Igreja daquele tempo não deixava mulheres de clausura viverem sem renda, e por um motivo prático: frades mendicantes pedem esmola na rua, monjas enclausuradas não podem. A solução padrão era dotar o mosteiro com terras — segurança, previsibilidade, um patrimônio que sustentasse a comunidade por gerações. Toda fundadora aceitava. Clara não aceitou.

Ela queria para as suas irmãs exatamente a mesma pobreza que Francisco queria para os frades: nada de terras, nada de rendas, nada de reservas. Viver do que chegasse no dia. E passou a vida inteira defendendo isso contra papas que gostavam dela e queriam protegê-la de si mesma.

  • 1216 — a tradição data daqui o Privilégio da Pobreza, obtido de Inocêncio III: o direito de não possuir nada. É um documento estranhíssimo — um privilégio papal para não ter.
  • 1228 — Gregório IX, que a estimava sinceramente, tenta dispensá-la do voto de pobreza absoluta. Clara responde que, se ele pode absolvê-la dos pecados, deste voto ela não quer ser absolvida. O papa recua e confirma o privilégio por escrito.
  • 1253 — Inocêncio IV aprova a Regra que ela mesma redigiu, em vez de lhe impor uma escrita por homens, como se fizera duas vezes antes. É a primeira Regra religiosa composta por uma mulher na história da Igreja.
O que ela fez questão de deixar escrito

“As irmãs nada se apropriem, nem casa, nem lugar, nem coisa alguma; e, como peregrinas e forasteiras neste mundo, servindo ao Senhor em pobreza e humildade, enviem confiantemente a pedir esmola.”

Repare no argumento: não é pobreza como economia doméstica, é pobreza como condição de peregrino. Quem não tem casa aqui anda mais leve. A frase inteira está construída para que ninguém, depois dela, pudesse suavizar o texto.

A princesa que dispensou um imperador

Em Praga, uma menina chamada Inês da Boêmia, filha do rei Otacar I, foi prometida em casamento desde criança a meio catálogo de nobres europeus. O último pretendente foi o mais poderoso de todos: o imperador Frederico II. Inês recusou, apelou ao papa e, em 1234, entrou no mosteiro de clarissas que ela mesma tinha mandado construir.

Contam que o imperador, quando soube, comentou que se ela o tivesse trocado por um homem mortal, ele teria respondido com a espada — mas que não podia ofender-se por ela ter preferido o Rei do Céu.

Clara e Inês nunca se viram. A Boêmia fica a mais de mil quilômetros de Assis, e nenhuma das duas podia viajar. O que existe entre elas são quatro cartas, escritas ao longo de vinte anos, e são o melhor texto que Clara nos deixou. Não são cartas de direção espiritual no tom professoral; são cartas de uma mulher para outra que fez a mesma aposta e precisa ouvir que não enlouqueceu.

“Coloca a tua mente diante do espelho da eternidade, coloca a tua alma no esplendor da glória, coloca o teu coração na figura da substância divina — e transforma-te inteira, pela contemplação, na imagem da própria divindade.”

Santa Clara — Quarta carta a Inês de Praga, 1253

O método do espelho

Aquela imagem não é um floreio de linguagem. É um método, e Clara o descreve com uma precisão quase técnica.

Cristo é o espelho. Não se olha um espelho para admirá-lo: olha-se para se ver e para se corrigir. Na segunda carta, ela reduz o exercício a quatro verbos, em cadeia, cada um puxando o seguinte:

  • Olha — repare Nele, de fato; a maior parte da nossa oração nunca chega a olhar.
  • Considera — pense no que está vendo, deixe o dado entrar.
  • Contempla — demore-se ali sem pressa e sem produzir nada.
  • Deseja imitar — e é aqui que se descobre se as três primeiras foram reais.

Depois ela divide o próprio espelho em três faixas, e cada uma tem um endereço na vida de Cristo. Na borda, a manjedoura: a pobreza de quem nasce num estábulo. No meio, os anos de trabalho escondido e de fadiga. No fundo, a cruz — e é preciso olhar até o fundo, porque é lá que o espelho para de ser bonito e começa a ser verdadeiro.

Uma mulher que passou quarenta anos sem paisagem construiu uma espiritualidade inteira sobre o ato de olhar. Não é coincidência.

Os sarracenos no muro

Em 1240, tropas mercenárias a serviço de Frederico II — sarracenos, na crônica da época — escalaram o muro do mosteiro. San Damiano não tinha guarda, não tinha armas e não tinha homens. Tinha quarenta mulheres e uma abadessa doente.

Clara mandou que a carregassem até a porta com o cibório, o vaso onde se guarda o Santíssimo Sacramento. Rezou em voz alta, pedindo a Deus que não entregasse aquelas mulheres indefesas. Os soldados desceram do muro e foram embora. No ano seguinte, um cerco a Assis se desfez do mesmo jeito, depois que ela e as irmãs passaram a noite em jejum e oração.

É por isso que ela aparece na arte com um ostensório ou um cibório na mão. Não é um adereço litúrgico: é a arma com que ela enfrentou soldados armados, e a única coisa que havia dentro de casa.

Por que um pintor a colocou sobre o mar

A cena que abre esta página não é uma alegoria. Depois da morte de Clara, o processo de canonização recolheu depoimentos das próprias irmãs que viveram com ela, e a devoção popular se espalhou depressa pela Itália e pelo Mediterrâneo. Marinheiros começaram a invocá-la no meio da tempestade.

Duzentos anos depois, o sienês Giovanni di Paolo pintou exatamente isso: o mar cor de bronze, o mastro partindo, a vela em farrapos — e a monja de hábito cinzento chegando por cima da água num feixe de raios dourados. A padroeira dos que estão afundando. Quem passou a vida inteira sem sair de um quarto acabou virando a santa que se procura em alto-mar.

A padroeira da televisão

No fim da vida, sem conseguir deixar o leito na noite de Natal, Clara viu e ouviu a Missa que se celebrava na basílica de São Francisco, do outro lado de Assis, projetada na parede da sua cela. Contou o fato com a mesma naturalidade com que teria descrito o tempo lá fora.

Por causa daquela noite, Pio XII a declarou padroeira da televisão em 1958. É a designação que costuma arrancar sorrisos, e merece ser levada a sério: para padroeira da imagem transmitida à distância, a Igreja escolheu a mulher que fez do olhar um método — e que passou quarenta anos sem ter para onde olhar.

“Falo à minha alma bendita”

Nos últimos dias, as irmãs a ouviram falar baixinho, sozinha. Uma delas perguntou com quem ela conversava. Clara respondeu: “Falo à minha alma bendita.”

E o que ela dizia à própria alma, no momento de mandá-la embora, foi isto:

“Vai segura, em paz, porque terás boa escolta: pois Aquele que te criou primeiro te santificou, e depois de te haver criado infundiu em ti o Espírito Santo, e sempre te guardou como uma mãe guarda o seu filho pequenino.”

Últimas palavras de Santa Clara — 11 de agosto de 1253

Morreu naquele dia, aos cinquenta e nove anos. Inocêncio IV desceu de Perúgia para o funeral e quis que se cantasse ali mesmo o ofício das virgens, e não o dos mortos — cantar para uma santa, não por uma defunta. Um cardeal o conteve: ainda era cedo. Não foi cedo por muito tempo. Alexandre IV a canonizou em 1255, dois anos depois da morte, e a bula abre com um trocadilho que os latinistas nunca esqueceram, porque o nome dela quer dizer luminosa:

“Clara, ilustre pelos seus claros méritos, resplandece com clareza — pela grande claridade da glória no céu, e na terra pelo esplendor de milagres sublimes.”

Clara claris praeclara meritis, magnae in caelo claritate gloriae ac in terra splendore miraculorum sublimium clare claret.

Bula de canonização, Alexandre IV, 1255

Sete vezes a mesma raiz numa frase só. Um exagero de chancelaria, e ainda assim exato: a vida inteira dela foi uma discussão sobre luz. O espelho a ser olhado. A Missa projetada na parede. Os raios dourados que o pintor precisou inventar para explicar por que os marinheiros a chamavam. E, no centro de tudo, uma mulher que escolheu não ter nada para não ter nada entre ela e a claridade.

Ela mesma, em cinco frases

“Ama-o totalmente, aquele que se entregou totalmente pelo teu amor.”— Santa Clara, cartas a Inês de Praga
“Coloca a tua mente diante do espelho da eternidade, coloca a tua alma no esplendor da glória.”— Santa Clara, quarta carta a Inês de Praga
“O silêncio é a linguagem de quem ama; é melhor que a palavra renuncie e se exprima com afeto.”— Santa Clara de Assis
“Por amor a Cristo não há dor que me faça sofrer.”— Santa Clara de Assis
“Nunca perca de vista o seu ponto de partida.”— Santa Clara de Assis

Sancta Clara, ora pro nobis. Santa Clara, rogai por nós — e alcançai-nos alguma coisa da vossa teimosia, que não foi teimosia de temperamento, mas de fidelidade.

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