
No dia 9 de agosto de 1253 chegou a San Damiano uma bula assinada em Assis. Clara, de cama havia anos, pediu que lhe pusessem o pergaminho nas mãos e o beijou. Tinha brigado quarenta anos por aquele documento. Teve quarenta e oito horas para vê-lo assinado: morreu no dia 11. O que estava escrito ali era a primeira Regra religiosa redigida por uma mulher na história da Igreja — e o que ela pedia, com uma teimosia que atravessou três pontificados, era o direito de não ter absolutamente nada.
A porta dos mortos
Chiara Offreduccio nasceu em Assis em 1194, filha de uma família com brasão, terras e um casamento já combinado. A mãe, Ortolana, tinha ido a pé até a Terra Santa, a Roma e a Santiago — numa época em que isso significava meses de estrada e um risco real de não voltar. A filha herdou a inquietação.
Tinha dezoito anos quando ouviu Francisco pregar na quaresma de 1212. Não pediu conselho: decidiu.
Na noite do Domingo de Ramos de 1212, saiu de casa pela porta dos mortos — a portinhola que nas casas nobres só se abria para tirar caixões. Ninguém escolhe essa porta por acaso. Atravessou o campo escuro até a Porciúncula, onde Francisco e os frades a esperavam com tochas. Ali trocou o vestido de festa por uma túnica áspera e Francisco lhe cortou os cabelos.
A família veio buscá-la à força. Clara agarrou-se ao altar e puxou o véu para trás, mostrando a cabeça raspada. Não havia mais casamento possível — nenhuma negociação desfaz uma tonsura. Dezesseis dias depois, a irmã Inês foi atrás dela. Depois a irmã Beatriz. Por fim, viúva, a própria Ortolana entrou no mosteiro onde as três filhas já viviam.
San Damiano: quarenta anos em um só lugar
Francisco a instalou em San Damiano, a igrejinha em ruínas que ele mesmo tinha reconstruído pedra por pedra, e onde o crucifixo lhe havia falado. Clara entrou ali aos dezenove anos e não saiu mais: quarenta e um anos no mesmo endereço, boa parte deles doente, muitos deles sem conseguir levantar da cama.
É preciso deixar isso assentar antes de continuar. Tudo o que vem a seguir — as bulas arrancadas de três papas, as cartas que atravessaram a Europa até a Boêmia, os soldados que recuaram — foi feito por uma mulher que passou quatro décadas dentro de um quarteirão.

Formou-se em torno dela a comunidade das Damas Pobres, que a história chamaria de Clarissas. E foi em San Damiano que, na primavera de 1225, Francisco — quase cego, com dores atrozes nos olhos — passou cerca de cinquenta dias numa cabana de esteira, cuidado por Clara e pelas irmãs. Foi ali, naquelas semanas, que ele compôs o Cântico das Criaturas. O poema mais antigo da literatura italiana nasceu numa horta emprestada por ela.
O privilégio de não ter nada
Aqui está o nervo desta vida, e a razão pela qual chamá-la de discípula de Francisco é pouco.
A Igreja daquele tempo não deixava mulheres de clausura viverem sem renda, e por um motivo prático: frades mendicantes pedem esmola na rua, monjas enclausuradas não podem. A solução padrão era dotar o mosteiro com terras — segurança, previsibilidade, um patrimônio que sustentasse a comunidade por gerações. Toda fundadora aceitava. Clara não aceitou.
Ela queria para as suas irmãs exatamente a mesma pobreza que Francisco queria para os frades: nada de terras, nada de rendas, nada de reservas. Viver do que chegasse no dia. E passou a vida inteira defendendo isso contra papas que gostavam dela e queriam protegê-la de si mesma.
- 1216 — a tradição data daqui o Privilégio da Pobreza, obtido de Inocêncio III: o direito de não possuir nada. É um documento estranhíssimo — um privilégio papal para não ter.
- 1228 — Gregório IX, que a estimava sinceramente, tenta dispensá-la do voto de pobreza absoluta. Clara responde que, se ele pode absolvê-la dos pecados, deste voto ela não quer ser absolvida. O papa recua e confirma o privilégio por escrito.
- 1253 — Inocêncio IV aprova a Regra que ela mesma redigiu, em vez de lhe impor uma escrita por homens, como se fizera duas vezes antes. É a primeira Regra religiosa composta por uma mulher na história da Igreja.
“As irmãs nada se apropriem, nem casa, nem lugar, nem coisa alguma; e, como peregrinas e forasteiras neste mundo, servindo ao Senhor em pobreza e humildade, enviem confiantemente a pedir esmola.”
Repare no argumento: não é pobreza como economia doméstica, é pobreza como condição de peregrino. Quem não tem casa aqui anda mais leve. A frase inteira está construída para que ninguém, depois dela, pudesse suavizar o texto.
A princesa que dispensou um imperador
Em Praga, uma menina chamada Inês da Boêmia, filha do rei Otacar I, foi prometida em casamento desde criança a meio catálogo de nobres europeus. O último pretendente foi o mais poderoso de todos: o imperador Frederico II. Inês recusou, apelou ao papa e, em 1234, entrou no mosteiro de clarissas que ela mesma tinha mandado construir.
Contam que o imperador, quando soube, comentou que se ela o tivesse trocado por um homem mortal, ele teria respondido com a espada — mas que não podia ofender-se por ela ter preferido o Rei do Céu.
Clara e Inês nunca se viram. A Boêmia fica a mais de mil quilômetros de Assis, e nenhuma das duas podia viajar. O que existe entre elas são quatro cartas, escritas ao longo de vinte anos, e são o melhor texto que Clara nos deixou. Não são cartas de direção espiritual no tom professoral; são cartas de uma mulher para outra que fez a mesma aposta e precisa ouvir que não enlouqueceu.
“Coloca a tua mente diante do espelho da eternidade, coloca a tua alma no esplendor da glória, coloca o teu coração na figura da substância divina — e transforma-te inteira, pela contemplação, na imagem da própria divindade.”
Santa Clara — Quarta carta a Inês de Praga, 1253O método do espelho
Aquela imagem não é um floreio de linguagem. É um método, e Clara o descreve com uma precisão quase técnica.
Cristo é o espelho. Não se olha um espelho para admirá-lo: olha-se para se ver e para se corrigir. Na segunda carta, ela reduz o exercício a quatro verbos, em cadeia, cada um puxando o seguinte:
- Olha — repare Nele, de fato; a maior parte da nossa oração nunca chega a olhar.
- Considera — pense no que está vendo, deixe o dado entrar.
- Contempla — demore-se ali sem pressa e sem produzir nada.
- Deseja imitar — e é aqui que se descobre se as três primeiras foram reais.
Depois ela divide o próprio espelho em três faixas, e cada uma tem um endereço na vida de Cristo. Na borda, a manjedoura: a pobreza de quem nasce num estábulo. No meio, os anos de trabalho escondido e de fadiga. No fundo, a cruz — e é preciso olhar até o fundo, porque é lá que o espelho para de ser bonito e começa a ser verdadeiro.
Uma mulher que passou quarenta anos sem paisagem construiu uma espiritualidade inteira sobre o ato de olhar. Não é coincidência.
Os sarracenos no muro
Em 1240, tropas mercenárias a serviço de Frederico II — sarracenos, na crônica da época — escalaram o muro do mosteiro. San Damiano não tinha guarda, não tinha armas e não tinha homens. Tinha quarenta mulheres e uma abadessa doente.
Clara mandou que a carregassem até a porta com o cibório, o vaso onde se guarda o Santíssimo Sacramento. Rezou em voz alta, pedindo a Deus que não entregasse aquelas mulheres indefesas. Os soldados desceram do muro e foram embora. No ano seguinte, um cerco a Assis se desfez do mesmo jeito, depois que ela e as irmãs passaram a noite em jejum e oração.
É por isso que ela aparece na arte com um ostensório ou um cibório na mão. Não é um adereço litúrgico: é a arma com que ela enfrentou soldados armados, e a única coisa que havia dentro de casa.
Por que um pintor a colocou sobre o mar
A cena que abre esta página não é uma alegoria. Depois da morte de Clara, o processo de canonização recolheu depoimentos das próprias irmãs que viveram com ela, e a devoção popular se espalhou depressa pela Itália e pelo Mediterrâneo. Marinheiros começaram a invocá-la no meio da tempestade.
Duzentos anos depois, o sienês Giovanni di Paolo pintou exatamente isso: o mar cor de bronze, o mastro partindo, a vela em farrapos — e a monja de hábito cinzento chegando por cima da água num feixe de raios dourados. A padroeira dos que estão afundando. Quem passou a vida inteira sem sair de um quarto acabou virando a santa que se procura em alto-mar.
A padroeira da televisão
No fim da vida, sem conseguir deixar o leito na noite de Natal, Clara viu e ouviu a Missa que se celebrava na basílica de São Francisco, do outro lado de Assis, projetada na parede da sua cela. Contou o fato com a mesma naturalidade com que teria descrito o tempo lá fora.
Por causa daquela noite, Pio XII a declarou padroeira da televisão em 1958. É a designação que costuma arrancar sorrisos, e merece ser levada a sério: para padroeira da imagem transmitida à distância, a Igreja escolheu a mulher que fez do olhar um método — e que passou quarenta anos sem ter para onde olhar.
“Falo à minha alma bendita”
Nos últimos dias, as irmãs a ouviram falar baixinho, sozinha. Uma delas perguntou com quem ela conversava. Clara respondeu: “Falo à minha alma bendita.”
E o que ela dizia à própria alma, no momento de mandá-la embora, foi isto:
“Vai segura, em paz, porque terás boa escolta: pois Aquele que te criou primeiro te santificou, e depois de te haver criado infundiu em ti o Espírito Santo, e sempre te guardou como uma mãe guarda o seu filho pequenino.”
Últimas palavras de Santa Clara — 11 de agosto de 1253Morreu naquele dia, aos cinquenta e nove anos. Inocêncio IV desceu de Perúgia para o funeral e quis que se cantasse ali mesmo o ofício das virgens, e não o dos mortos — cantar para uma santa, não por uma defunta. Um cardeal o conteve: ainda era cedo. Não foi cedo por muito tempo. Alexandre IV a canonizou em 1255, dois anos depois da morte, e a bula abre com um trocadilho que os latinistas nunca esqueceram, porque o nome dela quer dizer luminosa:
“Clara, ilustre pelos seus claros méritos, resplandece com clareza — pela grande claridade da glória no céu, e na terra pelo esplendor de milagres sublimes.”
Clara claris praeclara meritis, magnae in caelo claritate gloriae ac in terra splendore miraculorum sublimium clare claret.
Bula de canonização, Alexandre IV, 1255Sete vezes a mesma raiz numa frase só. Um exagero de chancelaria, e ainda assim exato: a vida inteira dela foi uma discussão sobre luz. O espelho a ser olhado. A Missa projetada na parede. Os raios dourados que o pintor precisou inventar para explicar por que os marinheiros a chamavam. E, no centro de tudo, uma mulher que escolheu não ter nada para não ter nada entre ela e a claridade.
Ela mesma, em cinco frases
“Ama-o totalmente, aquele que se entregou totalmente pelo teu amor.”— Santa Clara, cartas a Inês de Praga
“Coloca a tua mente diante do espelho da eternidade, coloca a tua alma no esplendor da glória.”— Santa Clara, quarta carta a Inês de Praga
“O silêncio é a linguagem de quem ama; é melhor que a palavra renuncie e se exprima com afeto.”— Santa Clara de Assis
“Por amor a Cristo não há dor que me faça sofrer.”— Santa Clara de Assis
“Nunca perca de vista o seu ponto de partida.”— Santa Clara de Assis
Sancta Clara, ora pro nobis. Santa Clara, rogai por nós — e alcançai-nos alguma coisa da vossa teimosia, que não foi teimosia de temperamento, mas de fidelidade.
- São Lourenço — o diácono que apresentou os pobres como o tesouro da Igreja.
- São Domingos de Gusmão — outra ordem mendicante nascida na mesma geração.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.

Comentários