
Hoje, 8 de agosto, a Igreja celebra São Domingos de Gusmão (c. 1170–1221). Foi um homem que fez uma coisa simples e rara: acreditou que a heresia não se vence com poder, mas com uma pregação verdadeira feita por gente pobre de verdade. Dessa convicção nasceu a Ordem dos Pregadores — os dominicanos — e, com ela, boa parte do que a Igreja tem de melhor em teologia. Esta é a sua vida, o seu método, a questão do Rosário e a oração da sua Missa em latim e português.
Um cônego que vendeu os livros
Nasceu em Caleruega, na Velha Castela, por volta de 1170. Estudou em Palência e, ainda estudante, aconteceu o episódio que resume a vida inteira: veio uma fome sobre a região, e Domingos vendeu os pergaminhos que havia anotado à mão — o bem mais caro que um estudante do século XII podia ter — para comprar comida. Aos que estranharam, respondeu que não queria estudar sobre peles mortas enquanto gente morria de fome.
Tornou-se cônego regular da catedral de Osma, sob o bispo Diego de Acebo. Levava a vida ordenada e silenciosa de um cônego, e ali teria ficado se não fosse uma viagem diplomática.
A noite de Toulouse
Em 1203, acompanhando o bispo Diego numa embaixada para o rei de Castela, atravessou o Languedoc — território então tomado pelos cátaros, também chamados albigenses. Pararam numa estalagem em Toulouse e o dono da casa era herege.
Domingos ficou acordado a noite toda conversando com ele. Ao amanhecer, o homem havia voltado à fé católica. Ali Domingos entendeu duas coisas que definiriam o resto da sua vida: que a heresia se enfrenta um homem de cada vez, e que ninguém acredita em quem prega a pobreza chegando a cavalo com uma comitiva.
Os legados papais percorriam o Languedoc com escolta e bagagem. Os cátaros andavam a pé e jejuavam. Domingos concluiu, sem rodeios, que o problema não era o argumento — era o testemunho.
O método: pobreza, estudo e pregação
Ele e Diego devolveram os cavalos e passaram a andar descalços, mendigando o pão. Pregaram por dez anos no sul da França, com resultados modestos e um custo pessoal alto. Em 1206, em Prouille, Domingos fundou uma casa para mulheres convertidas do catarismo que não tinham para onde voltar — o primeiro mosteiro dominicano nasceu antes da própria Ordem, e nasceu de mulheres.
Em 1215 reuniu em Toulouse um pequeno grupo de companheiros. No ano seguinte, 1216, o papa Honório III confirmou a Ordem dos Pregadores. Domingos adotou a Regra de Santo Agostinho e acrescentou o que a tornaria distinta.
- Pobreza real, não decorativa. Os frades mendigavam. Sem propriedades, sem rendas, sem a segurança que embota a palavra.
- Estudo como obrigação, não como luxo. Domingos foi o primeiro a dispensar frades do trabalho manual para estudarem. A Ordem que ele fundou daria Tomás de Aquino e Alberto Magno em uma única geração.
- Pregação como fim, não como acessório. O nome oficial da Ordem é literalmente Ordem dos Pregadores. Tudo — oração, estudo, vida comum — existe para que alguém pregue melhor.
- Governo por voto. Os priores eram eleitos; os capítulos decidiam. Numa Europa feudal, isso era quase escandaloso.
- Dispersão deliberada. Em 1217 mandou os poucos frades que tinha para Paris, Bolonha, Roma e Espanha. Diziam-lhe que era cedo demais. Respondeu que o trigo guardado apodrece e o trigo espalhado dá fruto.
Na arte, São Domingos quase sempre traz um cão preto e branco com uma tocha na boca — é o animal que aparece na pintura acima, junto ao globo terrestre.
A imagem vem de um trocadilho medieval: Dominicanes soa como Domini canes, “os cães do Senhor” — os que vigiam o rebanho e levam o fogo pelo mundo. As cores são as do hábito: túnica branca e capa preta.
O Rosário
A tradição que a Igreja guarda com mais carinho a respeito de São Domingos aconteceu em Prouille. A pregação não vencia, a heresia se alastrava e ele estava no fim das próprias forças. Foi então que Nossa Senhora lhe apareceu e lhe entregou o Rosário, dizendo-lhe que aquela seria a arma para reconquistar aquela terra.
Domingos passou a pregá-lo. Ensinou lavradores e fiandeiras a repetir as Ave-Marias enquanto percorriam com a memória os mistérios da vida de Cristo — e o que os argumentos dos doutores não haviam conseguido, aquela oração simples conseguiu. O Languedoc voltou à fé.
Depois dele foram os seus frades que carregaram o Rosário pela Europa: pregaram-no de praça em praça, fundaram as confrarias do Rosário e o puseram na mão de gente que não sabia ler. É por isso que, na arte, Domingos quase sempre aparece recebendo o terço das mãos da Virgem.
Diante da frota turca, o papa São Pio V — ele mesmo dominicano — mandou que toda a cristandade rezasse o Rosário pela vitória.
A batalha foi vencida naquele dia, e o Papa atribuiu o resultado a Nossa Senhora, não às armas. Dali nasceu a festa de Nossa Senhora do Rosário, que a Igreja celebra em 7 de outubro.
Séculos depois, Leão XIII escreveria doze encíclicas sobre o Rosário, nomeando Domingos em várias delas como aquele a quem a Virgem o confiou.
Se quiser rezá-lo com as palavras da Igreja, há aqui no site a coletânea de orações em latim e português.
Bolonha, e o fim
Passou os últimos anos viajando a pé por Itália, França e Espanha, quase sempre pregando e quase sempre com fome. Morreu em Bolonha, em 6 de agosto de 1221, com pouco mais de cinquenta anos, deitado sobre o hábito de um frade porque não tinha cama própria. Foi canonizado por Gregório IX em 1234, treze anos depois.
Não deixou escritos. Deixou uma Ordem, e o que a Ordem escreveu depois dele — a Suma Teológica inclusive — é o seu livro.
“Um homem que governa as próprias paixões é senhor do mundo. Ou o dominamos, ou seremos dominados por ele.”— atribuído a São Domingos
“Semeai o trigo guardado no celeiro e ele apodrece; espalhado, dá fruto.”— São Domingos, ao dispersar os primeiros frades
A oração da sua Missa
A Coleta pede uma coisa muito concreta: que a Igreja, iluminada pelos méritos e pela doutrina de Domingos, não fique sem o necessário para viver e cresça no que importa de fato.
Deus, qui Ecclésiam tuam beáti Domínici Confessóris tui illumináre dignátus es méritis et doctrínis: concéde; ut eius intercessióne temporálibus non destituátur auxíliis, et spirituálibus semper profíciat increméntis. Per Dóminum nostrum Iesum Christum.
Ó Deus, que vos dignastes iluminar a vossa Igreja pelos méritos e pela doutrina do bem-aventurado Domingos, vosso confessor: concedei que, pela sua intercessão, ela não fique privada dos auxílios temporais e cresça sempre nos bens espirituais. Por nosso Senhor Jesus Cristo.
Amen.
E esta segunda é a antífona que os dominicanos cantam todas as noites diante da imagem do fundador, ao fim das Completas — sete elogios em sete palavras:
O lumen Ecclésiae, Doctor veritátis, rosa patiéntiae, ebur castitátis, aquam sapiéntiae propinásti gratis: praedicátor grátiae, nos iunge beátis.
Ó luz da Igreja, doutor da verdade, rosa da paciência, marfim da castidade: gratuitamente destes a beber a água da sabedoria. Pregador da graça, uni-nos aos bem-aventurados.
Amen.
Sancte Dominice, ora pro nobis. São Domingos, rogai por nós — e alcançai-nos a coragem de dizer a verdade sem ter nada a defender.
- Santo Afonso de Ligório — o Doutor da oração e as Glórias de Maria.
- Santo Inácio de Loyola — outra ordem nascida de uma conversão radical.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.


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