
Hoje, 24 de outubro, a Igreja celebra Santo Antônio Maria Claret (memória facultativa), e a vida dele cabe numa cena. Em 1º de fevereiro de 1856, em Holguín, em Cuba, o arcebispo de Santiago acabara de pregar por uma hora e meia e voltava para casa, à noite, entre a multidão, quando um homem se aproximou como quem vai beijar-lhe o anel e lhe abriu o rosto com uma navalha. Claret escreveu depois que perdoou o agressor “como cristão, como sacerdote e como arcebispo” e pediu o indulto.
Entre os teares
Antônio João Adjutor Claret y Clará nasceu em 23 de dezembro de 1807, em Sallent, na Catalunha, e foi batizado dois dias depois. O pai, Juan, era tecelão e tinha uma pequena fábrica de fios e tecidos; o menino foi posto a trabalhar ali, e obedeceu, conta ele, “sem dizer uma palavra, nem fazer má cara”.
Em 1825 foi para Barcelona aperfeiçoar-se na indústria têxtil e estudou desenho, gramática e francês. Recebeu propostas para abrir a própria fábrica, mas o Evangelho o abalou (a pergunta de Mt 16,26 sobre o que adianta ganhar o mundo inteiro). Quis ser cartuxo, entrou no seminário de Vic e foi ordenado em 13 de junho de 1835, no palácio episcopal de Solsona. Em 1862, escrevendo a Autobiografia por ordem do superior, parou nos anos de fábrica para rezar: “Ó meu Deus, como fostes bom para mim! […] Fui um servo inútil, que não negociou como devia o talento que me havíeis entregado. Mas, Senhor, dou-vos a minha palavra de que trabalharei.” (Aut. 35)
O missionário a pé
Em 1839 foi a Roma oferecer-se à Propaganda Fide. Entrou no noviciado dos jesuítas, mas uma dor na perna o impediu de andar, e o superior-geral, o padre Roothaan, o mandou de volta à Espanha. Dali em diante andou a pé e pobre, com uma Bíblia, uma muda de roupa e um mapa no embrulho, pregando missões populares pela Catalunha; entre fevereiro de 1848 e maio de 1849, pela ilha de Gran Canaria.
Em 16 de julho de 1849, numa cela do seminário de Vic, fundou com outros cinco padres os Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria, os Claretianos. Anos depois, resumiu numa frase o que esperava de cada um deles: um homem “que arde em caridade e que abrasa por onde passa” (Aut. 494).
O arcebispo de Cuba
Em 11 de agosto de 1849 soube que fora nomeado arcebispo de Santiago de Cuba. Resistiu, e aceitou por obediência. Foi sagrado em Vic em 6 de outubro de 1850 e chegou a Santiago em 16 de fevereiro de 1851. Em seis anos visitou a imensa diocese três vezes, lutou contra a escravidão, fundou uma caixa econômica e uma granja-escola para crianças pobres, e, na epidemia de cólera de 1852, andou pelos hospitais confessando os doentes.
Voltemos a Holguín. Claret narra que o corte foi da testa à ponta do queixo, e que os médicos, ao ver um prelado coberto de sangue, ficaram tão perturbados que foi ele quem teve de animá-los. O agressor foi condenado à morte; Claret pediu o indulto e se ofereceu para pagar-lhe a viagem de volta às Canárias, para que o povo, indignado, não o linchasse.
Claret lista três “prodígios” daquela cura (Aut. 579–581): uma fístula que se fechou de repente; a cicatriz do braço direito, que ficou como uma imagem em relevo da Virgem das Dores, branca e roxa, visível nos dois primeiros anos e depois apagada; e a ideia de uma associação de escritores, que lhe veio na cama e cujo regulamento começou a escrever assim que se levantou.
Os dois primeiros ficam por conta da palavra dele. O terceiro dá para conferir: a Academia de São Miguel foi fundada em 1858.
O livro, a Corte e Fontfroide
Claret sabia que nem todos vão à igreja. Com dois amigos padres, José Caixal e Antônio Palau, fundou em Barcelona, no fim da década de 1840, a Livraria Religiosa, sob a proteção de Nossa Senhora de Montserrat e de São Miguel. Segundo os claretianos, nos primeiros dezoito anos ela lançou mais de nove milhões de exemplares entre livros, livretos e folhetos. Ele mesmo escreveu mais de cem obras, entre elas o devocionário popular Caminho reto.
Em 1857 a rainha Isabel II o escolheu como confessor, e ele foi para Madri. Vivia pobremente e visitava prisões e hospitais. Em 1868 a revolução derrubou a rainha, e ele a acompanhou no exílio; em 1869 foi a Roma para o Concílio Vaticano I, onde, em 31 de maio de 1870, falou a favor da definição da infalibilidade pontifícia.
Perseguido, refugiou-se em 6 de agosto de 1870 na abadia cisterciense de Fontfroide, perto de Narbona, e ali morreu em 24 de outubro de 1870, às 8h45 da manhã, aos sessenta e dois anos. Na lápide, gravaram: “Amei a justiça e odiei a iniquidade; por isso morro no exílio.” Foi beatificado por Pio XI em 25 de fevereiro de 1934 e canonizado por Pio XII em 7 de maio de 1950; no dia seguinte, Pio XII o chamou de “pequeno de corpo, mas de espírito gigante”.
- Caritas Christi urget nos. O lema do seu escudo episcopal é de Paulo (2Cor 5,14), e ele o vivia: “A caridade me urge”, escreveu.
- A Palavra, a pé. Missões, retiros, confissões; nada de dinheiro pela pregação.
- O livro. “O livro irá à sua casa”: por isso fundou uma editora.
- Maria. Filho do Imaculado Coração de Maria, rezava ao começar cada missão a oração que está abaixo.
“Um filho do Imaculado Coração de Maria é um homem que arde em caridade e que abrasa por onde passa; […] Nada o intimida; alegra-se nas privações; enfrenta os trabalhos; abraça os sacrifícios.”— Santo Antônio Maria Claret, Autobiografia, n. 494 (1862)
“Nem todos podem ir à igreja para ouvir a palavra divina, mas o livro irá à sua casa.”— Santo Antônio Maria Claret, Autobiografia, n. 310 (1862)
“A caridade me urge, me impele, me faz andar, me faz correr de uma povoação a outra, me obriga a gritar.”— Santo Antônio Maria Claret, Autobiografia, n. 212 (1862)
As orações
Esta é a oração que Claret rezava ao começar cada missão, tal como a deixou na Autobiografia. Ele se sente flecha na mão de Maria; as armas são o Rosário e a palavra de Deus.
¡Oh Virgen y Madre de Dios, Madre y abogada de los pobres e infelices pecadores! Bien sabéis que soy hijo y ministro vuestro, formado por Vos misma en la fragua de vuestra misericordia y amor. Yo soy como una saeta puesta en vuestra mano poderosa; arrojadme, madre mía, con toda la fuerza de vuestro brazo contra el impío, sacrílego y cruel Acab, casado con la vil Jezabel. Quiero decir: arrojadme contra Satanás, príncipe de este mundo, quien tiene hecha alianza con la carne.
A Vos, Madre mía, sea la victoria. Vos venceréis. Sí, Vos que tenéis el poder para acabar con todas las herejías, errores y vicios. Y yo, confiado en vuestra poderosísima protección, emprendo la batalla, no sólo contra la carne y sangre, sino contra los príncipes de las tinieblas, como dice el Apóstol, embrazando el escudo del Santísimo Rosario y armado con la espada de dos filos de la divina palabra.
Ó Virgem e Mãe de Deus, Mãe e advogada dos pobres e infelizes pecadores! Bem sabeis que sou filho e ministro vosso, formado por vós mesma na forja da vossa misericórdia e amor. Sou como uma flecha posta na vossa mão poderosa; arremessai-me, minha mãe, com toda a força do vosso braço contra o ímpio, sacrílego e cruel Acab, casado com a vil Jezabel. Quero dizer: arremessai-me contra Satanás, príncipe deste mundo, que fez aliança com a carne.
A vós, minha Mãe, seja a vitória. Vós vencereis. Sim, vós, que tendes o poder de acabar com todas as heresias, erros e vícios. E eu, confiado na vossa poderosíssima proteção, empreendo a batalha, não só contra a carne e o sangue, mas contra os príncipes das trevas, como diz o Apóstolo, empunhando o escudo do Santíssimo Rosário e armado com a espada de dois gumes da palavra divina.
— Santo Antônio Maria Claret, Autobiografia, nn. 270–271
E esta é a Coleta da Missa de hoje:
Deus, qui in evangelizándis pópulis beátum Antónium Maríam epíscopum mira caritáte et patiéntia roborásti, eius nobis intercessióne concéde, ut, quae tua sunt quaeréntes, enixe in Christo lucrándis fratribus incumbámus.
Ó Deus, que, na evangelização dos povos, fortalecestes o bem-aventurado Antônio Maria, bispo, com admirável caridade e paciência, concedei-nos, por sua intercessão, que, buscando o que é vosso, nos dediquemos com ardor a ganhar irmãos para Cristo.
Amen.
Sancte Antoni Maria Claret, ora pro nobis. Santo Antônio Maria Claret, rogai por nós.
- São João Paulo II — “Não tenhais medo!”, no dia 22.
- São Lucas — o evangelista, no dia 18.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.

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