Fotografia em preto e branco de Bartolo Longo, homem de barba e pincenê, por volta de 1900
Retrato de Bartolo Longo, fotografia de autor desconhecido (c. 1900). Domínio público.

Um advogado desesperado, num vale de pântanos e bandidos ao pé do Vesúvio, grita ao céu uma promessa: “não sairei desta terra sem ter propagado aqui o teu Rosário”. Era outubro de 1872, e o homem era Bartolo Longo, o “apóstolo do Rosário”, canonizado por Leão XIV em 19 de outubro de 2025. A memória litúrgica dele é em 5 de outubro, dia da sua morte, em 1926, segundo o Dicastério para as Causas dos Santos; muitos calendários devocionais brasileiros o trazem em 29 de outubro. Fica bem aqui, no fecho do mês do Rosário e do primeiro ano depois da canonização.

Um advogado de Latiano

Nasceu em Latiano (Brindisi), em 10 de fevereiro de 1841. Em 1863 foi a Nápoles completar os estudos de Direito. Ali, influenciado por amigos e professores, aproximou-se do espiritismo e abandonou a fé católica em que fora criado.

A volta veio pelas mãos do professor Vincenzo Pepe e do dominicano frei Alberto Radente, que o levaram de volta à fé e à caridade; tornou-se terciário dominicano. Por meio de Santa Catarina Volpicelli conheceu a condessa Marianna Farnararo De Fusco, viúva, mãe de cinco filhos, e em 1872 foi ao Vale de Pompeia para cuidar das propriedades dela.

A voz de Arpaia

Atormentava-o uma dúvida: como se salvaria, depois do que fizera? Então, conta-se, uma voz interior lhe disse: “Se buscas a salvação, propaga o Rosário. É promessa de Maria. Quem propaga o Rosário está salvo!” Ele entendeu ali a vocação. O vale era então, segundo a imprensa católica italiana, pantanoso, de poucos camponeses e sujeito às investidas de bandidos. Começou catequizando aquela gente.

O quadro, a pedra e a condessa

Em 13 de novembro de 1875 chegou a Pompeia a imagem da Virgem do Rosário que marcaria tudo. Contam as biografias que era uma tela velha, corroída pelo tempo, trazida num carro de carga. Em 13 de fevereiro de 1876, Clorinda, sobrinha de uma benfeitora de Nápoles, à beira da morte, curou-se por intercessão da Virgem: foi o dia em que a imagem foi exposta ao povo, e viu-se ali o sinal de que Nossa Senhora aprovava a obra. Em 8 de maio de 1876 foi lançada a pedra fundamental do santuário; ele seria consagrado em 1891, e a fachada, inaugurada em 1901 e dedicada à Paz Universal.

Em 1 de abril de 1885, Bartolo casou-se com a condessa Marianna, que já era sua companheira nas obras; ela é hoje lembrada como cofundadora do Santuário. Leão XIV disse em Pompeia, em 8 de maio de 2026, que os dois lançaram “não só os alicerces de um templo, mas de uma cidade mariana inteira”.

A Supplica, ao meio-dia

Em 1883, em resposta à encíclica de Leão XIII sobre o Rosário (Supremi apostolatus officio, 1 de setembro), Bartolo escreveu a Supplica à Rainha do Santo Rosário. Em 14 de outubro daquele ano, vinte mil peregrinos a rezaram pela primeira vez em Pompeia.

Ela é rezada ao meio-dia de 8 de maio e do primeiro domingo de outubro. Leão XIV foi eleito em 8 de maio de 2025, dia da Supplica, e foi a Pompeia exatamente um ano depois, para rezá-la no santuário.

O Santuário da caridade

Ao lado do “Santuário da fé” ergueu-se o da caridade. Em 1887 Bartolo abriu o orfanato feminino; em 1892, o hospício para os filhos dos presos, que chegara a ele quando os próprios detentos lhe pediram que cuidasse das crianças; em 1897 fundou as Irmãs Dominicanas Filhas do Santo Rosário de Pompeia. Em volta do santuário nasceu uma cidade, com casas para operários, telégrafo, estação de trem, pequeno hospital e observatório. Morreu no vale de Pompeia em 5 de outubro de 1926, aos oitenta e cinco anos.

João Paulo II, ao beatificá-lo em 26 de outubro de 1980, o chamou “o apóstolo do Rosário” e “o homem de Nossa Senhora”. Leão XIV o incluiu, na canonização, entre os “benfeitores da humanidade”, ao lado de José Gregorio Hernández. O pedido de canonização, apresentado em 2024, solicitava a dispensa do exame de um novo milagre.

  • Leigo, terciário, advogado. Não foi padre nem religioso: viveu a santidade no mundo, como terciário dominicano.
  • O Rosário como caminho. Em 1877 divulgou os Quindici Sabati, que desenvolveram, disse João Paulo II, a alma cristológica e contemplativa do Rosário.
  • Fé e obras. Ao mesmo tempo que erguia a basílica, acolhia órfãos e filhos de presos.
  • A Eucaristia no Rosário. Para ele, todos os mistérios do Rosário se encontram no Santíssimo Sacramento.
“Se é verdade, gritei, que prometeste a São Domingos que quem propaga o Rosário se salva, eu me salvarei, porque não sairei desta terra sem ter propagado aqui o teu Rosário.”— Bartolo Longo, em relato próprio citado pela Diocese de Oria (carta pastoral de 5/10/2025)
“A Eucaristia é o Rosário vivo, e todos os mistérios se encontram no Santíssimo Sacramento de forma ativa e vital.”— Bartolo Longo, O Rosário e a Nova Pompeia (1914), p. 86, citado por Leão XIV em Pompeia, 8/5/2026
“Santa Mãe adorada, eu deponho em ti toda a minha aflição, toda a esperança, toda a confiança!”— Bartolo Longo, 11 de março de 1905, citado por João Paulo II na beatificação, 26/10/1980

As orações

A oração que não pode faltar é a Supplica: o texto é do próprio Bartolo Longo (1883), e a prece completa é bem maior. Seguem aqui os trechos centrais, no original italiano.

Supplica à Rainha do Santo Rosário de Pompeia · Bartolo Longo, 1883 · trechos
Italiano

O Augusta Regina delle vittorie, o Vergine sovrana del Paradiso, al cui nome potente si rallegrano i cieli e tremano per terrore gli abissi, o Regina gloriosa del Santissimo Rosario, […]

Che vi costa, o Maria, l’esaudirci? Che vi costa il salvarci? Non ha Gesù riposto nelle vostre mani tutti i tesori delle sue grazie e delle sue misericordie? Voi sedete coronata Regina alla destra del vostro Figliuolo, circondata di gloria immortale su tutti i cori degli Angeli. […] Voi siete l’Onnipotente per grazia. Voi dunque potete salvarci.

O Rosario benedetto di Maria; Catena dolce che ci rannodi a Dio; Vincolo di amore che ci unisci agli Angeli; Torre di salvezza negli assalti d’inferno; Porto sicuro nel comune naufragio, noi non ti lasceremo mai più. Tu ci sarai conforto nell’ora di agonia; a te l’ultimo bacio della vita che si spegne. E l’ultimo accento delle smorte labbra sarà il nome vostro soave, Regina del Rosario della Valle di Pompei, o Madre nostra cara, o unico Rifugio dei peccatori, o sovrana Consolatrice dei mesti. Siate ovunque benedetta, oggi e sempre, in terra e in cielo.

Português

Ó Augusta Rainha das vitórias, ó Virgem soberana do Paraíso, a cujo nome poderoso os céus se alegram e os abismos tremem de terror, ó gloriosa Rainha do Santíssimo Rosário, […]

Que vos custa, ó Maria, atender-nos? Que vos custa salvar-nos? Não pôs Jesus em vossas mãos todos os tesouros de suas graças e de suas misericórdias? Vós vos sentais, Rainha coroada, à direita de vosso Filho, cercada de glória imortal acima de todos os coros dos Anjos. […] Vós sois a Onipotente por graça. Vós, portanto, podeis salvar-nos.

Ó Rosário bendito de Maria; Cadeia doce que nos prendes a Deus; Laço de amor que nos unes aos Anjos; Torre de salvação nos assaltos do inferno; Porto seguro no naufrágio comum, nós nunca mais te deixaremos. Tu serás o nosso conforto na hora da agonia; a ti o último beijo da vida que se apaga. E o último som dos lábios já pálidos será o vosso nome suave, Rainha do Rosário do Vale de Pompeia, ó nossa Mãe querida, ó único Refúgio dos pecadores, ó soberana Consoladora dos aflitos. Sede bendita em toda parte, hoje e sempre, na terra e no céu.

Così sia. — Amém.

E, entre as partes da Supplica, reza-se a Salve-Rainha, a antífona do Rosário:

Salve-Rainha · tradicional
Latim

Salve, Regína, Mater misericórdiæ, vita, dulcédo et spes nostra, salve. Ad te clamámus, éxsules fílii Evæ. Ad te suspirámus, geméntes et flentes in hac lacrimárum valle. Eia ergo, advocáta nostra, illos tuos misericórdes óculos ad nos convérte. Et Iesum, benedíctum fructum ventris tui, nobis post hoc exsílium osténde. O clemens, O pia, O dulcis Virgo María.

Português

Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve! A vós bradamos, os degredados filhos de Eva. A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei. E, depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre. Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria.

Amém.

Sancte Bartholomæe Longo, ora pro nobis. São Bartolo Longo, rogai por nós — e alcançai-nos a confiança de propagar o Rosário sem sair do lugar em que estamos.

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