Multidão de romeiros, alguns ajoelhados, de rosto voltado para o céu na Cova da Iria, em Fátima, em 13 de outubro de 1917
A multidão na Cova da Iria, em 13 de outubro de 1917, fotografia de Judah Bento Ruah publicada na Illustração Portugueza de 29 de outubro de 1917. Domínio público.

Hoje, 13 de outubro, a Igreja recorda a sexta e última aparição de Fátima, em 1917. Três meses antes, em 13 de julho, a Senhora tinha prometido aos pastorinhos: “Em Outubro direi quem sou, o que quero e farei um milagre que todos hão-de ver, para acreditar.” Quando o dia chegou, choveu a cântaros — e o povo foi mesmo assim.

Um sinal marcado com três meses de antecedência

As aparições da Cova da Iria, perto de Fátima, em Portugal, começaram em 13 de maio de 1917. Os videntes eram três crianças de Aljustrel: Lúcia dos Santos, de dez anos, e os primos Francisco, de nove, e Jacinta Marto, de sete. Das seis aparições, cinco foram no mesmo lugar, junto a uma pequena azinheira; a de agosto aconteceu nos Valinhos, em 19 de agosto, porque no dia 13 as crianças estavam retidas em Ourém pelo administrador do concelho.

Em julho, Lúcia pediu à Senhora que dissesse quem era e fizesse um milagre para que todos acreditassem. A resposta foi a promessa de outubro. A notícia correu e a multidão cresceu de mês em mês.

Treze de outubro de 1917

Chovia torrencialmente. Lúcia conta que a mãe quis acompanhá-la, temendo que aquele fosse o último dia da vida da filha, e que, chegando à Cova da Iria, ela mesma pediu ao povo que fechasse os guarda-chuvas para rezar o terço. Pouco depois, escreve, viu o reflexo da luz e, em seguida, a Senhora sobre a árvore.

Segundo o relato dela, a Senhora disse que queria uma “capela em Minha honra, que sou a Senhora do Rosário”, que continuassem sempre rezando o terço todos os dias e que a guerra ia acabar. Lúcia apresentou os muitos pedidos que lhe tinham confiado: alguns seriam atendidos, outros não, e era preciso que os pecadores se emendassem. Com um ar mais triste, a Senhora acrescentou: “Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido.”

  • Uma capela. Em honra da Senhora do Rosário, no lugar da aparição.
  • O terço todos os dias. O pedido vinha desde a primeira aparição, em maio, e é retomado na última: que continuem sempre.
  • Emenda de vida. Pedir perdão dos pecados e não ofender mais a Deus.
  • A paz. A guerra terminaria — e os soldados voltariam para casa. A própria Lúcia reconhece, nas Memórias, que se enganou ao entender que isso seria naquele mesmo dia; a guerra terminou em 11 de novembro de 1918.

Ao subir, conta Lúcia, a Senhora abriu as mãos e fez o reflexo delas incidir no sol. Foi por isso que ela gritou ao povo que olhasse para o sol: “o meu fim não era chamar para aí a atenção do povo”, escreve. Ao lado do sol, os três viram São José com o Menino e a Senhora vestida de branco, com manto azul; em seguida Lúcia viu Nosso Senhor e a Senhora sob o aspecto de Nossa Senhora das Dores, e ainda uma figura semelhante a Nossa Senhora do Carmo.

O que a multidão disse ter visto

O relato mais famoso é o do jornal lisboeta O Século, de 15 de outubro de 1917, assinado pelo enviado especial Avelino de Almeida sob o título “Como o sol bailou ao meio-dia em Fátima”. Ele descreve a chuva desde as dez da manhã, o pedido de Lúcia para fecharem os guarda-chuvas, o céu que de repente clareia e uma multidão que, segundo “cálculos desapaixonados de pessoas cultas”, somava trinta ou quarenta mil pessoas. Outros documentos da época e dos anos seguintes falam em cinquenta mil e em cerca de setenta mil: as estimativas variam, e o mais seguro é dizer que foi uma multidão de dezenas de milhares.

Almeida escreve que o sol parecia “uma placa de prata fosca” que se podia fitar sem dor, que “tremeu” e que “bailou”, expressão que atribui aos camponeses. Perguntando uns aos outros o que tinham visto, alguns diziam que o sol girava como uma roda de fogo de artifício, que baixava quase até queimar a terra, que mudava de cor. Ele mesmo não se pronuncia: termina deixando aos “competentes” a explicação do “bailado do sol”.

A fotografia que abre este texto

É de Judah Bento Ruah (1892–1958), o fotógrafo que viajou para Fátima com Avelino de Almeida e cuja fotografia saiu na revista Illustração Portugueza em 29 de outubro de 1917. Mostra o povo de rosto para o céu, alguns de joelhos, outros de guarda-chuva na mão.

O que ela guardou foi a multidão, não o sol: até onde se sabe, nenhuma fotografia registrou o que os presentes disseram ter visto.

O que a Igreja diz — e o que deixa em aberto

Em 13 de outubro de 1930, por carta pastoral, o bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, declarou “dignas de crédito” as visões das crianças e permitiu oficialmente o culto de Nossa Senhora de Fátima. É um juízo sobre uma revelação privada, e o comentário teológico do Cardeal Joseph Ratzinger à Mensagem de Fátima (2000) explica o alcance disso: a revelação privada “é uma ajuda a esta fé e mostra a sua credibilidade justamente porque nos reconduz à Revelação pública definitiva”. Ninguém é obrigado a crer em Fátima para ser católico; o que se pede é que o critério seja sempre Cristo.

O primeiro pedido foi cumprido pelo povo: a capelinha das Aparições foi erguida entre 28 de abril e 15 de junho de 1919, dinamitada na madrugada de 6 de março de 1922 e reinaugurada em 13 de janeiro de 1923. Francisco morreu em 4 de abril de 1919, aos dez anos, e Jacinta em 20 de fevereiro de 1920, aos nove; ambos foram canonizados pelo Papa Francisco em Fátima, em 13 de maio de 2017. Lúcia, que entrou no Carmelo de Coimbra, morreu em 13 de fevereiro de 2005; suas virtudes heroicas foram reconhecidas em 22 de junho de 2023, e ela é Venerável.

“Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido.”— Nossa Senhora, segundo a Irmã Lúcia, Memórias (Quarta Memória), sobre 13 de outubro de 1917
“O sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos fora de todas as leis cósmicas — o sol ‘bailou’, segundo a típica expressão dos camponeses.”— Avelino de Almeida, O Século, 15 de outubro de 1917
“Gosto tanto de dizer a Jesus que O amo!”— Santa Jacinta Marto, segundo a Irmã Lúcia, Memórias (Primeira Memória)

As orações

As duas primeiras são as do Anjo da Paz, ensinadas às crianças em 1916, um ano antes da Senhora; Lúcia situa a primeira aparição do Anjo na primavera daquele ano, sem certeza quanto às datas. A terceira é a que a Senhora pediu em 13 de julho de 1917, para rezar depois de cada mistério do terço.

As orações do Anjo · Fátima, 1916

Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam.

Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.

— Ensinadas pelo Anjo aos pastorinhos (Irmã Lúcia, Memórias)

A oração de Fátima · depois de cada mistério do terço

Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem.

— Ensinada pela Senhora em 13 de julho de 1917 (Irmã Lúcia, Memórias)

Regina sacratissimi Rosarii, ora pro nobis. Rainha do Santíssimo Rosário, rogai por nós — e alcançai-nos rezar o terço todos os dias, sem pressa.

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