Retrato de Santa Teresa de Jesus, de hábito carmelita, mãos postas, com a pomba do Espírito Santo no alto, à esquerda, pintado por fray Juan de la Miseria em 1576
Retrato de Santa Teresa de Jesus, do carmelita fray Juan de la Miseria (Sevilha, 2 de junho de 1576) — Carmelo de Sevilha. Domínio público.

Hoje, 15 de outubro, a Igreja celebra Santa Teresa de Jesus, a Teresa de Ávila, virgem e doutora da Igreja. A data tem uma curiosidade: ela morreu numa noite de 1582 em que o dia seguinte ao dia 4 de outubro foi o 15. Dez dias inteiros foram riscados do calendário, e a festa dela ficou no primeiro que sobrou.

A menina que queria ver Deus

Chamava-se Teresa de Cepeda y Ahumada e nasceu em 28 de março de 1515, em Ávila, na Castela (a aldeia vizinha de Gotarrendura também é apontada como lugar do nascimento). Era de uma família grande, com três irmãs e nove irmãos. Antes de completar nove anos, lendo vidas de mártires, fugiu de casa, por pouco tempo, para morrer pela fé e chegar logo ao Céu. “Quero ver a Deus”, disse aos pais. Perdeu a mãe aos doze anos, mais ou menos, e pediu à Virgem que fosse a mãe dela.

Aos vinte anos entrou no Carmelo da Encarnação, em Ávila, e passou a chamar-se Teresa de Jesus. Três anos depois adoeceu tão gravemente que ficou quatro dias em coma, parecendo morta. A vida de oração foi durante anos uma luta; a virada, ela mesma a conta na Vida, veio na Quaresma de 1554, aos trinta e nove anos, diante da imagem de um Cristo cruelmente chagado.

A reforma, e uma amizade

Em 1562 fundou em Ávila o primeiro Carmelo reformado, o de São José, com o apoio do bispo, Dom Álvaro de Mendoza. A pobreza do novo convento escandalizou a cidade, que por pouco não o mandou fechar; depois, a desconfiança virou aprovação. Nos anos seguintes ela percorreu a Espanha fundando conventos — dezessete, no total, conta Bento XVI. Em 1568, com São João da Cruz, abriu em Duruelo o primeiro convento de carmelitas descalços. Em 1580, Roma reconheceu os Carmelos reformados como província autônoma, o ponto de partida da Ordem dos Carmelitas Descalços.

Ela escrevia porque lhe mandavam, e escreveu quatro obras que atravessaram os séculos:

  • Livro da Vida (1565). A autobiografia, que ela chamava Livro das Misericórdias do Senhor.
  • Caminho de Perfeição (1566). Escrito para as doze noviças de São José; traz o comentário ao Pai-Nosso.
  • Castelo Interior (1577). A alma como um castelo de sete moradas, até o encontro com Deus no centro.
  • Livro das Fundações (1573–1582). A história dos conventos, contada para mostrar a ação de Deus neles.
A noite em que o calendário pulou dez dias

Teresa morreu em Alba de Tormes, na volta de Burgos para Ávila, em 1582. Naquele ano a Europa católica trocava o calendário juliano pelo gregoriano, e do mês de outubro saíram os dias 5 a 14: ao dia 4 seguiu-se o dia 15.

Ela morreu na virada, e as fontes divergem: uns dizem que foi antes da meia-noite do dia 4; Bento XVI, numa catequese de 2011, escreve “na noite de 15 de outubro”. Por isso a festa é no dia 15. Suas últimas palavras, segundo o mesmo Papa: “Afinal, morro como filha da Igreja.”

Doutora da Igreja

Foi beatificada em 1614 e canonizada em 1622 por Gregório XV. Em 27 de setembro de 1970, Paulo VI a proclamou doutora da Igreja, a primeira mulher a receber o título; Santa Catarina de Sena o recebeu uma semana depois, em 4 de outubro. Bento XVI resume o ensino dela numa linha: para Teresa, rezar é viver numa relação de amizade com Deus, e o tempo de oração “não é tempo perdido”.

O retrato que abre esta página foi pintado em Sevilha, por encomenda do padre Jerônimo Gracián, pelo carmelita fray Juan de la Miseria; a inscrição diz que ela tinha sessenta e um anos e traz a data de 2 de junho de 1576. Gracián lembrou depois que a fez posar por obediência, como mortificação. Conta a tradição que, ao ver o resultado, ela comentou com humor que a tinha pintado feia e remelenta.

Na Vida (29,13) ela descreve a experiência que a tradição chama de transverberação: um anjo com um dardo de ouro que lhe atravessa o coração. Bernini a esculpiu em Roma, entre 1647 e 1652, na igreja de Santa Maria della Vittoria.

“Oração mental, a meu ver, não é outra coisa senão tratar de amizade, estando muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama.”— Santa Teresa de Jesus, Livro da Vida 8,5
“…entendam que, se for na cozinha, é entre as panelas que anda o Senhor, ajudando-as no interior e no exterior.”— Santa Teresa de Jesus, Livro das Fundações 5,8
“…Parecia-me que o metia algumas vezes pelo meu coração e que chegava às entranhas; ao retirá-lo, parecia-me que as levava consigo e me deixava toda abrasada num grande amor de Deus.”— Santa Teresa de Jesus, Livro da Vida 29,13

As orações

O Nada te turbe é o poema mais conhecido de Teresa. Segundo a tradição carmelita, ela o guardava numa folha dentro do breviário com que rezava o Ofício divino; a edição crítica do padre Silverio de Santa Teresa (Burgos, 1919) traz uma nota do padre Gracián atestando que o breviário era dela, e o Catecismo da Igreja Católica (n. 227) cita os versos como de Santa Teresa. A seguir, o texto espanhol e a tradução, e depois a Coleta da memória, em latim.

Nada te turbe · poema de Santa Teresa de Jesus
Espanhol

Nada te turbe,
nada te espante;
todo se pasa,
Dios no se muda;
la paciencia
todo lo alcanza;
quien a Dios tiene
nada le falta:
sólo Dios basta.

Português

Nada te perturbe,
nada te espante;
tudo passa,
Deus não muda;
a paciência
tudo alcança;
quem tem a Deus
nada lhe falta:
só Deus basta.

— Santa Teresa de Jesus, Poesías

Coleta · Memória de Santa Teresa de Jesus, virgem e doutora da Igreja
Latim

Deus, qui per Spiritum tuum beatam Teresiam suscitasti, ut requirendae perfectionis semitam Ecclesiae manifestaret, da nobis et caelestis eius doctrinae pabulo semper nutriri, et verae sanctitatis desiderio accendi.

Português

Ó Deus, que pelo vosso Espírito suscitastes a bem-aventurada Teresa para mostrar à Igreja o caminho da perfeição que se deve buscar, concedei-nos alimentar-nos sempre com o pão da sua doutrina celeste e sermos inflamados no desejo da verdadeira santidade.

Amen.

Sancta Teresia a Iesu, ora pro nobis. Santa Teresa de Jesus, rogai por nós — e alcançai-nos a amizade de estar a sós com quem sabemos que nos ama.

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