Santa Margarida Maria Alacoque, de véu preto e túnica branca, ajoelhada e de mãos postas, contempla o Sagrado Coração de Jesus coroado de espinhos, numa nuvem de luz dourada, pintura de Corrado Giaquinto
Santa Margarida Maria Alacoque contemplando o Sagrado Coração de Jesus, de Corrado Giaquinto (c. 1765) — coleção particular. Domínio público.

Hoje, 16 de outubro, a Igreja recorda Santa Margarida Maria Alacoque, religiosa da Visitação de Paray-le-Monial, na Borgonha. Durante anos a própria comunidade a tratou como uma exaltada, e foi a ela que coube ouvir, diante do Santíssimo Sacramento: “Eis este Coração que tanto amou os homens.”

Uma menina da Borgonha

Margarida nasceu em 22 de julho de 1647, em L’Hautecour, filha de Claude Alacoque, um tabelião abastado, e de Philiberte Lamyn. O pai morreu quando ela tinha oito anos, e a família caiu na pobreza. Estudou com as clarissas de Charolles, fez a primeira comunhão aos nove, e uma longa doença a deixou quatro anos de cama. Prometeu à Virgem que seria religiosa se curasse, e curou; foi por isso, conta-se, que acrescentou Maria ao nome de batismo.

Depois veio a adolescência, com bailes e a esperança da mãe de vê-la casada. Numa noite de Carnaval, ao voltar de uma festa, teve a visão de Cristo flagelado, que a censurou pelo esquecimento. Ela decidiu cumprir a promessa e, em 1671, com vinte e três anos, entrou na Visitação de Paray-le-Monial. Vestiu o hábito em 25 de agosto; a profissão foi adiada e só veio em 6 de novembro de 1672.

Paray-le-Monial, 1673–1675

Em 27 de dezembro de 1673, festa de São João Evangelista, ela conta que o Senhor a deixou repousar a cabeça no seu peito, como o discípulo amado na Ceia, e lhe abriu o seu Coração. Nas aparições seguintes vieram a imagem do Coração cercado de espinhos, com uma cruz por cima, a queixa da ingratidão dos homens e o pedido da Hora Santa, às quintas-feiras à noite.

A mais conhecida é a chamada grande aparição, em junho de 1675, na oitava de Corpus Christi (as fontes divergem quanto ao dia exato, entre 13 e 20 de junho). Ela pediu que a sexta-feira depois da oitava fosse consagrada a uma festa em honra do Coração de Jesus, com comunhão e reparação. Dessa festa vem a solenidade do Sagrado Coração, estendida à Igreja latina por Pio IX em 1856.

  • Consagração. Para ela, a essência da devoção: uma doação inteira de si mesmo, de todas as ações.
  • Reparação. Responder com amor à ingratidão, sobretudo diante do Santíssimo Sacramento.
  • A Hora Santa. Uma hora de vigília, na noite de quinta-feira, em união com a agonia de Jesus no Getsêmani.
  • A sexta-feira. A comunhão no dia do Coração trespassado, em espírito de reparação.

As promessas ligadas a essa devoção têm texto próprio neste site; aqui fica a vida e o gesto.

Incompreendida, depois reconhecida

A comunidade não acreditou nela: tratou-a como doente ou louca, e a superiora, quando ela pediu para fazer a Hora Santa, rejeitou o pedido como “invenção”. O apoio veio de um jesuíta, São Cláudio de la Colombière, que chegou a Paray em fevereiro de 1675 como superior da casa da Companhia e passou a confessar as religiosas. Ele defendeu a autenticidade do que ela contava e, em 21 de junho de 1675, a sexta-feira depois da oitava, consagrou-se ele mesmo ao Coração de Cristo. Em 1683, com a eleição de uma nova superiora, a oposição terminou; Margarida virou assistente e depois mestra de noviças, e a comunidade passou a celebrar a festa em particular, a partir de 1686.

Escreveu o que viveu, por obediência, na Autobiografia. Morreu em 17 de outubro de 1690, aos quarenta e três anos, com uma palavra na boca: “Jesus”. Foi beatificada por Pio IX em 18 de setembro de 1864 e canonizada por Bento XV em 13 de maio de 1920. O Papa Francisco, na encíclica Dilexit nos (2024), lembra que ninguém é obrigado a acolher cada detalhe da experiência dela, mas que a mensagem de fundo, o amor de Cristo que pede resposta, permanece.

Por que dia 16, e não 17

Ela morreu em 17 de outubro, e foi nesse dia que a Igreja inscreveu a sua memória no Calendário Romano Geral, em 1929. Na reforma de 1969, o dia 17 passou a ser de Santo Inácio de Antioquia, um santo dos primeiros séculos, e a memória de Margarida foi para o dia anterior.

Hoje é memória facultativa, dividindo o dia 16 com Santa Edwiges.

“Eis este Coração que tanto amou os homens que nada poupou, até se esgotar e se consumir para lhes testemunhar o seu amor.”— Palavras de Cristo, segundo Santa Margarida Maria, Autobiografia, relato da grande aparição (junho de 1675)
“Meu divino Coração está tão apaixonado de amor pelos homens, e por ti em particular, que, não podendo mais conter em si as chamas da sua ardente caridade, é preciso que as derrame por meio de ti.”— Palavras de Cristo, segundo Santa Margarida Maria, Autobiografia, n. 53 (27 de dezembro de 1673)
“Esta é a minha vontade irrevogável: ser todo dele e fazer tudo por seu amor.”— Santa Margarida Maria, Consagração ao Sagrado Coração

As orações

A principal é a Consagração ao Sagrado Coração. A edição francesa de 1920 dos escritos dela (Vie et révélations) traz a nota de que ela a compôs, por inspiração de Nosso Senhor, e pediu ao padre Croiset que a incluísse no livro que ele preparava: “ela vem d’Ele, e Ele não aprovaria que fosse omitida”. Circulam variantes, e há outro ato de consagração atribuído a ela nas edições antigas; o texto abaixo é o dessa edição de 1920, em francês, com tradução própria.

Consagração ao Sagrado Coração de Jesus · Santa Margarida Maria
Francês

Je, N., me donne et consacre au sacré Cœur de Notre-Seigneur Jésus-Christ, ma personne et ma vie, mes actions, peines et souffrances, pour ne plus vouloir me servir d’aucune partie de mon être que pour l’honorer, aimer et glorifier. C’est ici ma volonté irrévocable que d’être tout à lui, et faire tout pour son amour, en renonçant de tout mon cœur à tout ce qui lui pourrait déplaire.

Je vous prends donc, ô sacré Cœur, pour l’unique objet de mon amour, le protecteur de ma vie, l’assurance de mon salut, le remède de ma fragilité et de mon inconstance, le réparateur de tous les défauts de ma vie, et mon asile assuré à l’heure de ma mort. Soyez donc, ô Cœur de bonté, ma justification envers Dieu le Père, et détournez de moi les traits de sa juste colère. Ô Dieu d’amour, je mets toute ma confiance en vous, car je crains tout de ma malice et de ma faiblesse, mais j’espère tout de votre bonté.

Consumez donc en moi tout ce qui vous peut déplaire ou résister. Que votre pur amour vous imprime si avant dans mon cœur que jamais je ne vous puisse oublier, ni être séparé de vous, que je conjure, par toutes vos bontés, que mon nom soit écrit en vous, puisque je veux faire consister tout mon bonheur et toute ma gloire à vivre et mourir en qualité de votre esclave.

Português

Eu, N., me dou e consagro ao Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo, minha pessoa e minha vida, minhas ações, penas e sofrimentos, para não querer mais servir-me de nenhuma parte do meu ser senão para honrá-lo, amá-lo e glorificá-lo. Esta é a minha vontade irrevogável: ser todo dele e fazer tudo por seu amor, renunciando de todo o coração a tudo o que lhe possa desagradar.

Tomo-vos, pois, ó Sagrado Coração, por único objeto do meu amor, protetor da minha vida, garantia da minha salvação, remédio da minha fragilidade e da minha inconstância, reparador de todos os defeitos da minha vida e meu asilo seguro na hora da minha morte. Sede, pois, ó Coração de bondade, a minha justificação diante de Deus Pai, e afastai de mim os dardos da sua justa ira. Ó Deus de amor, ponho toda a minha confiança em vós, pois temo tudo da minha malícia e da minha fraqueza, mas espero tudo da vossa bondade.

Consumi, pois, em mim tudo o que vos possa desagradar ou resistir. Que o vosso puro amor vos imprima tão fundo no meu coração que nunca mais vos possa esquecer, nem ser separado de vós; a quem suplico, por todas as vossas bondades, que o meu nome seja escrito em vós, pois quero fazer consistir toda a minha felicidade e toda a minha glória em viver e morrer na condição de vosso escravo.

— Santa Margarida Maria Alacoque; Paray-le-Monial, séc. XVII

Coleta · Memória de Santa Margarida Maria Alacoque, virgem
Latim

Effunde super nos, quaesumus, Domine, spiritum, quo beatam Margaritam Mariam singulariter ditasti, ut scire valeamus supereminentem scientiae caritatem Christi, et impleamur in omnem plenitudinem tuam.

Português

Derramai sobre nós, Senhor, nós vos pedimos, o espírito com que enriquecestes de modo singular a bem-aventurada Margarida Maria, para que possamos conhecer a caridade de Cristo, que supera todo conhecimento, e sejamos plenamente cheios de toda a vossa plenitude.

Amen.

Sancta Margarita Maria, ora pro nobis. Santa Margarida Maria, rogai por nós — e alcançai-nos entregar o coração inteiro, e não só as sobras do dia.

Continue rezando, neste site