O martírio de Santo Inácio de Antioquia, esboço de Pier Leone Ghezzi: o bispo, de túnica branca e estola vermelha, de braços abertos entre leões, olha para os anjos que lhe trazem a palma do martírio
O martírio de Santo Inácio de Antioquia, esboço a óleo de Pier Leone Ghezzi (1714–1715) para o afresco da nave de San Clemente — Galerias Nacionais Barberini Corsini, Roma. Domínio público.

Hoje, 17 de outubro, a Igreja celebra Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir. Foi levado acorrentado da Síria até Roma para ser lançado às feras e, pelo caminho, escoltado por soldados que ele chamava de “dez leopardos”, escreveu cartas que ainda hoje se leem. Numa delas pede aos cristãos de Roma que não façam nada para salvá-lo: “Sou trigo de Deus, e sou moído pelos dentes das feras.”

O bispo de quem só temos as cartas

De sua vida sabe-se pouco além do que ele mesmo escreveu e do que a tradição acrescentou depois. Eusébio de Cesareia, no século IV, o apresenta como bispo de Antioquia, o segundo na sucessão de Pedro (História Eclesiástica III,36). Antioquia era a grande cidade da Síria, onde os discípulos receberam pela primeira vez o nome de cristãos (At 11,26).

Nas cartas ele assina de um modo estranho: “Inácio, também chamado Teóforo”, isto é, “portador de Deus”. Uma tradição tardia conta que era uma das crianças que Jesus tomou nos braços; não há prova nenhuma disso, e convém dizê-lo.

A viagem até Roma

Condenado à morte, foi enviado a Roma sob escolta militar. A tradição, desde Eusébio, situa o fato no reinado de Trajano (98–117), por volta do ano 107–110; alguns estudiosos propõem datas bem mais tardias, e o ano exato continua em aberto.

O trajeto passou pela Ásia Menor: Esmirna, onde o bispo Policarpo o recebeu, depois Trôade, e dali por mar até a Macedônia. De Esmirna ele escreveu às igrejas de Éfeso, Magnésia e Trales, e à de Roma; de Trôade, às de Filadélfia e Esmirna e ao próprio Policarpo. São sete cartas, que Eusébio lista uma por uma e que se tomam em geral como autênticas.

“Da Síria até Roma combato com as feras, por terra e por mar, de noite e de dia, amarrado a dez leopardos, quer dizer, a um destacamento de soldados que, quanto melhor os tratamos, piores se tornam. Mas, com as injustiças deles, torno-me cada vez mais discípulo.” (Carta aos Romanos 5,1)
O quadro, e o que as cartas não dizem

A pintura acima é o esboço a óleo que Pier Leone Ghezzi (1674–1755), pintor de câmara do papa Clemente XI, fez em 1714–1715 para o afresco da nave central de San Clemente, em Roma. Ghezzi pintou o bispo de túnica branca e pálio vermelho, com anjos trazendo a palma do martírio, e reduziu o Coliseu a blocos de travertino e uma balaustrada.

Uma ressalva de historiador: nas cartas de Inácio não aparecem nem leões nem Coliseu. Ele fala só em “feras”. Segundo os estudiosos, São Jerônimo é o primeiro a mencionar leões, e São João Crisóstomo o primeiro a situar o martírio no Coliseu; não se sabe se tinham outra fonte além das próprias cartas. O quadro pinta a tradição.

O que as cartas ensinam

  • A Igreja é “católica”. “Onde quer que esteja Jesus Cristo, ali está a Igreja católica” (Esmirnenses 8,2) é o primeiro uso conhecido da palavra aplicada à Igreja. Para Inácio, quer dizer universal, inteira: a Igreja de Cristo, não só a comunidade local.
  • A unidade em torno do bispo. “Segui todos o bispo, como Jesus Cristo seguiu o Pai, e o presbitério como os apóstolos; e respeitai os diáconos” (Esmirnenses 8,1). Bispo, presbíteros e diáconos aparecem, lado a lado, nas cartas às igrejas da Ásia.
  • A Eucaristia é a carne do Salvador. Ele chama o pão partilhado de “remédio da imortalidade e antídoto para não morrermos, mas vivermos para sempre em Jesus Cristo” (Efésios 20,2). E acusa os que negam que a Eucaristia seja “a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, que padeceu por nossos pecados” de não ter cuidado algum com a viúva, o órfão, o aflito, o preso, o faminto (Esmirnenses 6,2).
  • Cristo é verdadeiramente homem. “Se essas coisas foram feitas por nosso Senhor só na aparência, então também eu sou prisioneiro só na aparência” (Esmirnenses 4,2). O argumento é o do homem que está de correntes de verdade.
  • Ser mártir é começar a ser discípulo. “Agora começo a ser discípulo” (Romanos 5,3), diz ele, depois de tantos anos como bispo.

Trigo de Deus

A Carta aos Romanos é diferente das outras: não trata de bispo nem de doutrina, e sim do que ele mais teme, que é ser salvo. Teme o amor dos romanos, que poderiam conseguir um indulto: “Peço-vos que não tenhais para comigo uma bondade fora de hora”. E escreve: “Deixai que eu seja alimento das feras, por meio das quais me é dado alcançar a Deus. Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras, para ser achado pão puro” (Romanos 4).

A frase era tão conhecida que Santo Ireneu de Lião, por volta do ano 180, a cita sem dizer o nome do autor: “como disse um dos nossos, quando foi condenado às feras por causa do seu testemunho a respeito de Deus” (Contra as Heresias V,28,4). Um detalhe de crítica textual: a tradição do texto oscila. O grego das cartas traz “trigo de Deus” e “pão puro de Deus”; Ireneu, ao citar, escreve “trigo de Cristo” e “pão puro de Deus”; e a edição de Lightfoot põe “de Cristo” entre colchetes no fim da frase. Por isso as traduções variam.

A Missa de hoje retoma a imagem, na forma que Ireneu citou. A oração sobre as oferendas diz que Deus recebeu “beatum Ignatium, frumentum Christi, per martyrii passionem panem mundum”: “o bem-aventurado Inácio, trigo de Cristo, como pão puro, pela paixão do martírio”.

“Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras, para ser achado pão puro.”— Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos 4
“Onde quer que esteja Jesus Cristo, ali está a Igreja católica.”— Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirnenses 8,2
“O pão que partimos é remédio da imortalidade e antídoto para não morrermos, mas vivermos para sempre em Jesus Cristo.”— Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 20,2

As orações

Não existe “oração de Santo Inácio” no sentido de uma fórmula que ele tenha deixado. O que há é este trecho da Carta aos Romanos, tomado aqui como oração, e a Coleta da Missa de hoje.

Da Carta aos Romanos 4 · texto grego
Grego

ἄφετέ με θηρίων εἶναι βρῶμα, δι’ ὧν ἔστιν θεοῦ ἐπιτυχεῖν. σῖτός εἰμι τοῦ θεοῦ καὶ δι’ ὀδόντων θηρίων ἀλήθομαι, ἵνα καθαρὸς ἄρτος θεοῦ εὑρεθῶ. λιτανεύσατε τὸν κύριον ὑπὲρ ἐμοῦ, ἵνα διὰ τῶν ὀργάνων τούτων θεῷ θυσία εὑρεθῶ.

Português

Deixai que eu seja alimento das feras, por meio das quais é possível alcançar a Deus. Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras, para ser achado pão puro de Deus. Rogai ao Senhor por mim, para que, por esses instrumentos, eu seja achado sacrifício a Deus.

— Santo Inácio de Antioquia, a caminho de Roma

Coleta · Memória de Santo Inácio de Antioquia
Latim

Omnipotens sempiterne Deus, qui sanctorum martyrum confessionibus Ecclesiæ tuæ sacrum corpus exornas, concede, quæsumus, ut hodierna gloria passionis, sicut beato Ignatio magnificentiam tribuit sempiternam, ita nobis perpetuum munimen operetur. Per Dominum.

Português

Deus todo-poderoso e eterno, que adornais o corpo sagrado da vossa Igreja com o testemunho dos santos mártires, concedei-nos, nós vos pedimos, que a glória da paixão que hoje recordamos, assim como deu a Santo Inácio um esplendor sem fim, seja para nós uma defesa permanente. Por nosso Senhor Jesus Cristo.

Amen.

Sancte Ignati, ora pro nobis. Santo Inácio, rogai por nós.

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