Quando o Papa Urbano IV instituiu a festa de Corpus Christi, em 1264, confiou a composição de seus textos litúrgicos ao maior teólogo de sua época. Tomás de Aquino — o mesmo da Suma Teológica — pôs toda a sua inteligência a serviço de uma só coisa: cantar o mistério da presença real de Cristo na Eucaristia. Nasceram daí alguns dos hinos mais belos jamais escritos em latim, rezados há quase oito séculos.

Reúno aqui os quatro hinos citados no texto sobre a história de Corpus Christi — cada um em latim, com tradução portuguesa lado a lado. A tradução busca fidelidade ao sentido, não à rima.

Hino das Vésperas e da procissão

Pange Lingua Gloriosi

As duas últimas estrofes formam o Tantum Ergo, cantado na bênção do Santíssimo Sacramento.

LatimPortuguês
1
Pange, lingua, gloriósi
Córporis mystérium,
Sanguinísque pretiósi,
Quem in mundi prétium
Fructus ventris generósi
Rex effúdit géntium.
Canta, ó língua, o mistério
do Corpo glorioso
e do Sangue precioso
que — preço pago pelo mundo —
o Rei das nações derramou,
fruto de um ventre generoso.
2
Nobis datus, nobis natus
Ex intácta Vírgine,
Et in mundo conversátus,
Sparso verbi sémine,
Sui moras incolátus
Miro clausit órdine.
A nós dado, por nós nascido
de uma Virgem intacta,
viveu no meio do mundo
e semeou a palavra;
e o tempo de sua morada
fechou de modo admirável.
3
In suprémæ nocte cœnæ
Recúmbens cum frátribus,
Observáta lege plene
Cibis in legálibus,
Cibum turbæ duodénæ
Se dat suis mánibus.
Na noite da última ceia,
reclinado com os irmãos,
cumprida em tudo a Lei
quanto aos alimentos rituais,
aos Doze reunidos, por alimento,
dá-se com as próprias mãos.
4
Verbum caro, panem verum
Verbo carnem éfficit:
Fitque sanguis Christi merum,
Et si sensus déficit,
Ad firmándum cor sincérum
Sola fides súfficit.
O Verbo feito carne, com a palavra,
torna sua carne o verdadeiro pão;
e o vinho se faz Sangue de Cristo.
E, se os sentidos falham,
para firmar o coração sincero
basta a fé somente.
Tantum Ergo
5
Tantum ergo Sacraméntum
Venerémur cérnui:
Et antíquum documéntum
Novo cedat rítui:
Præstet fides suppleméntum
Sénsuum deféctui.
Tão grande Sacramento,
venerêmos, inclinados;
e o preceito antigo
ceda ao novo rito;
a fé supra
o que aos sentidos falta.
6
Genitóri, Genitóque
Laus et jubilátio,
Salus, honor, virtus quoque
Sit et benedíctio:
Procedénti ab utróque
Compar sit laudátio. Amen.
Ao Pai e ao Filho
louvor e júbilo,
salvação, honra e poder,
e também a bênção;
e ao que de ambos procede
seja igual louvação. Amém.
Sequência da Missa de Corpus Christi

Lauda Sion Salvatorem

Cantada antes do Evangelho. A partir de «Ecce panis Angelorum» encontra-se a sua forma breve.

LatimPortuguês
1
Lauda Sion Salvatórem,
Lauda ducem et pastórem
In hymnis et cánticis.
Louva, ó Sião, o Salvador,
louva o guia e pastor
em hinos e cânticos.
2
Quantum potes, tantum aude:
Quia major omni laude,
Nec laudáre súfficis.
Ousa quanto puderes,
pois é maior que todo louvor,
e louvá-lo não bastas.
3
Laudis thema speciális,
Panis vivus et vitális
Hódie propónitur.
Tema especial de louvor,
o Pão vivo e vivificante,
hoje nos é proposto.
4
Quem in sacræ mensa cœnæ
Turbæ fratrum duodénæ
Datum non ambígitur.
Que na mesa da sagrada ceia
aos Doze irmãos reunidos
foi dado, não se duvida.
5
Sit laus plena, sit sonóra,
Sit jucúnda, sit decóra
Mentis jubilátio.
Seja o louvor pleno e sonoro,
seja alegre e decoroso
o júbilo da alma.
6
Dies enim solémnis ágitur,
In qua mensæ prima recólitur
Hujus institútio.
Pois se celebra o dia solene
em que se recorda a primeira
instituição desta mesa.
7
In hac mensa novi Regis,
Novum Pascha novæ legis
Phase vetus términat.
Nesta mesa do novo Rei,
a nova Páscoa da nova lei
encerra a Páscoa antiga.
8
Vetustátem nóvitas,
Umbram fugat véritas,
Noctem lux elíminat.
O novo afasta o velho,
a verdade afasta a sombra,
a luz elimina a noite.
9
Quod in cœna Christus gessit,
Faciéndum hoc expréssit
In sui memóriam.
O que na ceia Cristo fez,
mandou que se fizesse
em memória sua.
10
Docti sacris institútis,
Panem, vinum in salútis
Consecrámus hóstiam.
Instruídos por seus santos preceitos,
o pão e o vinho consagramos
em hóstia de salvação.
11
Dogma datur Christiánis,
Quod in carnem transit panis,
Et vinum in sánguinem.
Aos cristãos é dado este dogma:
que o pão se converte em carne
e o vinho em sangue.
12
Quod non capis, quod non vides,
Animósa firmat fides,
Præter rerum órdinem.
O que não compreendes, o que não vês,
a fé corajosa o firma,
além da ordem das coisas.
13
Sub divérsis speciébus,
Signis tantum, et non rebus,
Latent res exímiæ.
Sob espécies diversas,
só sinais, e não as coisas,
ocultam-se realidades sublimes.
14
Caro cibus, sanguis potus:
Manet tamen Christus totus
Sub utráque spécie.
A carne é alimento, o sangue, bebida;
mas Cristo permanece inteiro
sob cada uma das espécies.
15
A suménte non concísus,
Non confráctus, non divísus:
Integer accípitur.
Por quem o recebe não é cortado,
nem partido, nem dividido:
inteiro é recebido.
16
Sumit unus, sumunt mille:
Quantum isti, tantum ille:
Nec sumptus consúmitur.
Um o recebe, mil o recebem;
tanto estes quanto aquele:
e, recebido, não se consome.
17
Sumunt boni, sumunt mali:
Sorte tamen inæquáli,
Vitæ vel intéritus.
Recebem-no os bons, recebem-no os maus,
mas com sorte desigual:
de vida, ou de perdição.
18
Mors est malis, vita bonis:
Vide paris sumptiónis
Quam sit dispar éxitus.
É morte para os maus, vida para os bons:
vê como, de igual recebimento,
quão diverso é o desfecho.
19
Fracto demum sacraménto,
Ne vacílles, sed meménto
Tantum esse sub fragménto,
Quantum toto tégitur.
Partido enfim o Sacramento,
não vaciles, mas lembra-te:
tanto há sob o fragmento
quanto sob o todo se encerra.
20
Nulla rei fit scissúra:
Signi tantum fit fractúra,
Qua nec status, nec statúra
Signáti minúitur.
Nenhuma divisão da realidade ocorre:
só do sinal há fractura,
pela qual nem o estado nem a grandeza
do Significado se diminui.
Forma breve · Ecce panis Angelorum
21
Ecce panis Angelórum,
Factus cibus viatórum:
Vere panis filiórum,
Non mitténdus cánibus.
Eis o Pão dos Anjos,
feito alimento dos peregrinos:
verdadeiramente o pão dos filhos,
que não se deve lançar aos cães.
22
In figúris præsignátur,
Cum Isaac immolátur,
Agnus Paschæ deputátur,
Datur manna pátribus.
Em figuras foi prefigurado:
quando Isaac é imolado,
quando o cordeiro pascal é destinado,
quando o maná aos pais é dado.
23
Bone pastor, panis vere,
Jesu, nostri miserére:
Tu nos pasce, nos tuére:
Tu nos bona fac vidére
In terra vivéntium.
Bom pastor, pão verdadeiro,
ó Jesus, tem piedade de nós:
apascenta-nos e guarda-nos;
faze-nos ver os bens
na terra dos viventes.
24
Tu qui cuncta scis et vales,
Qui nos pascis hic mortáles:
Tuos ibi commensáles,
Cohærédes et sodáles
Fac sanctórum cívium. Amen. Allelúia.
Tu que tudo sabes e podes,
que nos apascentas, mortais, aqui:
faze-nos lá teus comensais,
coerdeiros e companheiros
dos santos cidadãos. Amém. Aleluia.
Hino de adoração e ação de graças

Adoro te Devote

Rezado na adoração ao Santíssimo e em ação de graças após a comunhão.

LatimPortuguês
1
Adóro te devóte, latens Déitas,
Quæ sub his figúris vere látitas:
Tibi se cor meum totum súbjicit,
Quia te contémplans totum déficit.
Adoro-te devotamente, ó Deus escondido,
que sob estas aparências verdadeiramente te ocultas:
a ti meu coração inteiramente se submete,
pois, ao contemplar-te, todo desfalece.
2
Visus, tactus, gustus in te fállitur,
Sed audítu solo tuto créditur;
Credo quidquid dixit Dei Fílius:
Nil hoc verbo veritátis vérius.
A vista, o tato, o gosto em ti se enganam,
mas só pelo ouvido se crê com segurança;
creio em tudo o que disse o Filho de Deus:
nada é mais verdadeiro que esta palavra da verdade.
3
In cruce latébat sola Déitas,
At hic latet simul et humánitas;
Ambo tamen credens atque cónfitens,
Peto quod petívit latro pœnitens.
Na cruz ocultava-se apenas a divindade,
mas aqui se oculta também a humanidade;
contudo, crendo e confessando ambas,
peço o que pediu o ladrão penitente.
4
Plagas, sicut Thomas, non intúeor;
Deum tamen meum te confíteor:
Fac me tibi semper magis crédere,
In te spem habére, te dilígere.
As chagas, como Tomé, não contemplo;
todavia te confesso meu Deus:
faze-me sempre crer mais em ti,
em ti esperar e a ti amar.
5
O memoriále mortis Dómini,
Panis vivus vitam præstans hómini,
Præsta meæ menti de te vívere,
Et te illi semper dulce sápere.
Ó memorial da morte do Senhor,
Pão vivo que dás vida ao homem,
concede à minha alma viver de ti
e sempre saborear a tua doçura.
6
Pie pellicáne, Jesu Dómine,
Me immúndum munda tuo sánguine,
Cujus una stilla salvum fácere
Totum mundum quit ab omni scélere.
Piedoso pelicano, Senhor Jesus,
lava-me, imundo, no teu sangue,
cuja só uma gota pode salvar
o mundo inteiro de todo crime.
7
Jesu, quem velátum nunc aspício,
Oro fiat illud quod tam sítio:
Ut te reveláta cernens fácie,
Visu sim beátus tuæ glóriæ. Amen.
Jesus, que agora contemplo velado,
rogo se cumpra o que tanto anseio:
que, vendo-te de face revelada,
seja bem-aventurado na visão da tua glória. Amém.
Estrofes finais do hino Verbum Supernum (Laudes)

O Salutaris Hostia

Cantado também na exposição do Santíssimo Sacramento.

LatimPortuguês
1
O salutáris Hóstia,
Quæ cæli pandis óstium:
Bella premunt hostília,
Da robur, fer auxílium.
Ó Hóstia salutar,
que abres a porta do céu:
guerras inimigas nos apertam;
dá-nos força, traz-nos auxílio.
2
Uni trinóque Dómino
Sit sempitérna glória:
Qui vitam sine término
Nobis donet in pátria. Amen.
Ao Senhor, uno e trino,
seja glória sempiterna:
que nos conceda vida sem fim
na pátria. Amém.

Estes são os textos que, oito séculos depois, ainda se cantam diante do ostensório. Voltar à história da festa que os fez nascer.