
Se você recebeu a primeira comunhão por volta dos sete ou oito anos, deve isso a um homem específico. Até 1910, o normal era esperar os doze, os catorze, às vezes mais — e comungar poucas vezes na vida, porque a prática comum tratava a Eucaristia como prêmio para quem estivesse à altura. Foi um papa filho de carteiro de aldeia que derrubou isso, e derrubou depressa. O pontificado inteiro dele cabe numa frase: tirar portões do caminho.
O menino que carregava os sapatos
Giuseppe Sarto nasceu em 1835 em Riese, no Vêneto, segundo de dez filhos. O pai era carteiro e sacristão da aldeia; a mãe, costureira.
Contam que ele caminhava quilômetros até a escola em Castelfranco descalço, com os sapatos pendurados no ombro, para gastá-los menos e só calçá-los ao chegar. É o tipo de detalhe que costuma soar a lenda piedosa e que, no caso dele, explica muita coisa: nada no que fez depois vem de gabinete.
Foi capelão de aldeia, pároco, cônego, bispo de Mântua, patriarca de Veneza. Em cada posto foi conhecido pela mesma coisa: dava tudo. Em Veneza, os credores reclamavam que o patriarca vivia empenhando a própria cruz peitoral para pagar dívidas de pobres.
O último veto de um imperador
Em 1903, no conclave, o favorito era o cardeal Rampolla, secretário de Estado de Leão XIII. Na terceira votação aconteceu uma coisa que não acontecia havia muito e nunca mais aconteceria: o cardeal de Cracóvia leu em voz alta, em nome do imperador Francisco José da Áustria, um veto formal contra Rampolla.
Era o jus exclusivae, a prerrogativa que soberanos católicos alegavam para barrar um candidato. Os cardeais protestaram, mas o estrago estava feito: os votos migraram, e o eleito foi o patriarca de Veneza. Ele chorou e pediu que escolhessem outro.
Poucos meses depois, o novo papa fez aquilo que define um caráter: aboliu o veto para sempre, sob pena de excomunhão automática para quem tentasse transmiti-lo. Ele devia o próprio trono a um privilégio imperial, e a primeira coisa que fez foi destruí-lo — para que ninguém mais fosse eleito como ele tinha sido.
Comunhão: as duas decisões que mudaram a Missa
Aqui está a razão de a Igreja o chamar “o papa da Eucaristia”. Havia, herdado do rigorismo jansenista, um clima que ninguém tinha decretado mas todo mundo obedecia: comungar é para quem está muito bem preparado, portanto raramente.
- 1905 — declara que a comunhão frequente e até diária é desejada por Cristo e deve estar aberta a todo fiel em estado de graça e com reta intenção. E derruba o argumento de fundo: a Eucaristia não é prêmio para o santo, é remédio para o fraco.
- 1910 — com o decreto Quam singulari, fixa a idade da primeira comunhão na idade da discrição, isto é, por volta dos sete anos: quando a criança já distingue o Pão eucarístico do pão comum. Bastava isso.
É difícil, hoje, medir o tamanho da mudança, porque nós herdamos o resultado. Milhões de crianças que teriam esperado até a adolescência passaram a receber Cristo aos sete. Contam que, ao ser questionado sobre se uma criança tão pequena entenderia, respondeu que sobre aquilo os teólogos discutiriam para sempre e as crianças já sabiam.
“A santa comunhão é o caminho mais curto e mais seguro para o Céu.”
São Pio XE o canto: devolver a voz ao povo
Logo no primeiro ano, em 1903, publicou um documento sobre música sacra que continua sendo a régua. O diagnóstico era simples: a Missa tinha virado concerto. Orquestras, árias de ópera, solistas — e o povo calado, assistindo.
Ele restaurou o canto gregoriano como o canto próprio da Igreja romana e mandou que fosse devolvido ao povo, para que os fiéis voltassem a cantar a Missa em vez de ouvir cantarem. Cunhou ali a expressão que a liturgia repetiria pelo século inteiro: a música sacra existe para a santificação e edificação dos fiéis, não para exibição.
Repare no padrão. Comunhão mais cedo, comunhão mais vezes, o canto devolvido a quem estava só olhando — três vezes a mesma decisão.
Um catecismo que uma criança lê
Pela mesma lógica, mandou fazer um catecismo curto, em perguntas e respostas, em italiano simples — o Catecismo de São Pio X, que gerações inteiras decoraram e que ainda circula. E determinou que houvesse catequese em toda paróquia, para adultos inclusive.
No mesmo pontificado começou a codificação do direito canônico, um caos de mil anos de leis esparsas que ele mandou organizar num código único — trabalho concluído em 1917, três anos depois da sua morte, e a maior reforma jurídica da história da Igreja.
É a frase do testamento dele, e não era retórica. Recusou-se a enobrecer a própria família, como era costume: as irmãs, que viviam com ele em Roma, continuaram pobres, e ele proibiu que recebessem títulos ou pensões.
Quando lhe ofereceram condecorações para os parentes, respondeu que as irmãs eram irmãs do papa, o que já era honra demais para quem não tinha feito nada para merecê-la.
Agosto de 1914
Em julho de 1914 a Europa caminhava para a guerra. Pediram-lhe que abençoasse as armas do império austríaco — o mesmo império cujo veto o tinha feito papa. A resposta dele ficou registrada: abençoo a paz, não a guerra.
Tentou de tudo para deter o que vinha, e não conseguiu. Ficou doente em agosto e morreu em 20 de agosto de 1914, três semanas depois do início da Primeira Guerra. Quem esteve com ele dizia que morreu de desgosto.
Deixou escrito que não queria embalsamamento nem grandes exéquias. Foi canonizado em 1954 — o primeiro papa canonizado em mais de dois séculos.
E fica o resumo mais justo da vida dele. Um homem que chegou ao ponto mais alto por um privilégio de imperador, aboliu esse privilégio, e passou o resto do tempo tirando degraus de todos os lugares onde havia degraus entre uma pessoa comum e Deus.
“Nasci pobre, vivi pobre, quero morrer pobre.”— São Pio X, testamento
“A santa comunhão é o caminho mais curto e mais seguro para o Céu.”— São Pio X
“Abençoo a paz, não a guerra.”— São Pio X, julho de 1914
Sancte Pie decime, ora pro nobis. São Pio X, rogai por nós — e ensinai-nos a não pôr degraus onde Deus não pôs nenhum.
- O mistério da Santa Missa — aquilo que ele quis pôr ao alcance de todos.
- São João Maria Vianney — o pároco que ele mesmo beatificou em 1905.
- Dependência eucarística — sobre viver da Eucaristia, e não apenas recebê-la.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.


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