
Hoje, 19 de outubro, a Igreja recorda, em memória facultativa, São João de Brébeuf, Santo Isaac Jogues e seus companheiros, oito mártires mortos entre 1642 e 1649 no que hoje é o Canadá e o norte do estado de Nova York. Ontem, dia 18, fez exatamente 380 anos que Jogues foi morto a golpe de machado numa aldeia mohawk — para onde tinha voltado de propósito, depois de já ter sobrevivido ali, com as mãos mutiladas.
Oito nomes, três lugares
São seis padres jesuítas — Isaac Jogues, João de Brébeuf, Gabriel Lalemant, Antônio Daniel, Carlos Garnier e Natal Chabanel — e dois auxiliares leigos: René Goupil, cirurgião que se fez irmão jesuíta pouco antes de morrer, e João de Lalande, jovem de Dieppe que se oferecera para servir na missão. Foram canonizados por Pio XI em 29 de junho de 1930, e Pio XII os proclamou padroeiros do Canadá em 1940.
- Ossernenon, no país mohawk (hoje perto de Auriesville, Nova York). René Goupil, em 29 de setembro de 1642; Isaac Jogues, em 18 de outubro de 1646; João de Lalande, provavelmente no dia seguinte.
- A Huronia, na região da baía Georgiana (Ontário). Antônio Daniel, em 4 de julho de 1648; João de Brébeuf, em 16 de março de 1649, e Gabriel Lalemant, no dia seguinte, ambos em Saint-Ignace.
- O território dos petuns, ao sul. Carlos Garnier, em 7 de dezembro de 1649, e Natal Chabanel, no dia seguinte.
Brébeuf, o “Echon”
João de Brébeuf nasceu em Condé-sur-Vire, na Normandia, em 25 de março de 1593. Chegou a Quebec em 1625 e no ano seguinte foi para os wendat (hurões), com quem passaria quase toda a vida, salvo os anos de 1629 a 1633, quando os ingleses tomaram Quebec e os missionários voltaram à França. Aprendeu a língua, escreveu gramática e dicionário e recebeu deles o nome de Echon. Não foi uma vida de sucessos: depois das epidemias de varíola, muitos wendat tomavam os jesuítas por feiticeiros, e o padre Ragueneau contaria que o nome de Echon chegou a ser tão temido que servia para assustar as crianças.
Provavelmente em 1642 escreveu em wendat um canto de Natal, Jesous Ahatonhia (“Jesus nasceu”), tido como o mais antigo do Canadá, sobre a melodia de uma canção popular francesa. A letra inglesa famosa, “’Twas in the moon of wintertime”, é de 1926 e de outro autor: é paráfrase livre, não tradução.
Isaac Jogues, o “mártir vivo”
Isaac Jogues nasceu em Orléans, em 10 de janeiro de 1607. Em 3 de agosto de 1642, voltando de Quebec com René Goupil e um grupo de wendat cristãos, foi capturado pelos mohawks. Podia ter fugido, escondido entre os juncos; escreveu depois: “Poderia eu abandonar os nossos franceses e deixar esses bons neófitos e pobres catecúmenos sem o socorro que a Igreja do meu Deus me confiou?” Arrancaram-lhe as unhas, morderam-lhe os dedos até o osso, e Goupil foi morto a machadadas depois de ensinar o sinal da cruz a um menino.
Jogues escapou em 1643, com a ajuda dos holandeses, e chegou à Bretanha no dia de Natal. Tinha as mãos tão estropiadas que o papa Urbano VIII lhe concedeu licença para celebrar Missa: conta-se que disse ser “indigno que um mártir de Cristo não bebesse o sangue de Cristo” (Indignum esset Christi martyrem Christi non bibere sanguinem). Voltou ao Canadá em 1644. Em 1646 foi como embaixador de paz aos mohawks e, na ida, foi o primeiro europeu a ver o lago a que deu o nome de Lac du Saint-Sacrement, hoje Lake George. Nessa primeira viagem deixara na aldeia uma caixa; quando voltou, em setembro, os mohawks, que a culpavam pela doença, pela seca e pela fome que se seguiram, prenderam-no. Foi morto em 18 de outubro; Lalande, provavelmente no dia seguinte.
A imagem acima é o detalhe de um cartucho do mapa Novae Franciae Accurata Delineatio (1657), do jesuíta italiano Francesco Bressani, que conhecia o assunto por dentro: capturado pelos mohawks em 1644, foi torturado — cortaram-lhe nove dedos —, resgatado pelos holandeses e devolvido à França; voltou à missão e só em 1650 se retirou para a Itália. No canto inferior direito do mapa, feito para edificação dos fiéis, está a cena da morte de Brébeuf e Lalemant.
Saint-Ignace, 16 de março de 1649
Mais de mil iroqueses atacaram a aldeia de Saint-Ignace e depois a de Saint-Louis, onde Brébeuf e Gabriel Lalemant trabalhavam. Levados presos para Saint-Ignace, foram despidos e espancados. Brébeuf, conta a Relação de 1649, “esmagado sob o peso dos golpes”, ainda cuidou do rebanho: aos cristãos presos com ele disse que erguessem os olhos ao Céu e se lembrassem de que Deus era testemunha dos seus sofrimentos. Um renegado wendat, que ele mesmo instruíra e batizara, zombou do batismo derramando água fervente sobre ele; puseram-lhe ao pescoço um colar de machados em brasa. Morreu no mesmo dia, por volta das quatro da tarde; Lalemant, no dia seguinte.
O relato vem do padre Ragueneau e do donné Christophe Regnaut, que não presenciaram a cena, mas a ouviram de cristãos wendat que escaparam do cativeiro; Regnaut examinou os corpos no dia seguinte. Os dois padres foram sepultados em Sainte-Marie, a missão jesuíta na Huronia. Com eles sofreram e morreram wendat cristãos cujos nomes quase ninguém guardou.
Natal Chabanel sentia forte repugnância pela vida entre os wendat e, temendo desistir, fez voto de nunca deixar a missão senão por obediência. Cumpriu-o até morrer, em 8 de dezembro de 1649. E Kateri Tekakwitha, a primeira santa indígena da América do Norte, nasceu em 1656 na aldeia mohawk de Ossernenon, no atual estado de Nova York; foi canonizada em 21 de outubro de 2012.
“Meus filhos, levantemos os olhos ao Céu no auge das nossas aflições; lembremos que Deus é testemunha dos nossos sofrimentos e será em breve a nossa grande recompensa.”— São João de Brébeuf aos companheiros de cativeiro, 16 de março de 1649 (Relação de 1649)
“Desde este dia ofereço-vos com alegria o meu sangue, o meu corpo e o meu espírito, para que eu morra por vós, se assim o concederdes, vós que vos dignastes morrer por mim.”— São João de Brébeuf, voto de martírio
“Poderia eu abandonar os nossos franceses e deixar esses bons neófitos e pobres catecúmenos sem o socorro que a Igreja do meu Deus me confiou?”— Santo Isaac Jogues, sobre a captura de 1642
As orações
Brébeuf deixou escrito, em latim, o voto de nunca faltar à graça do martírio, feito entre 1637 e 1639 e transcrito pelo padre Ragueneau na Relação de 1649. Vai aqui o começo e a oferta final (a parte omitida enumera as testemunhas do voto: a Trindade, Nossa Senhora, São José, os anjos e os santos). Depois, a Coleta da memória.
Quid retribuam tibi, Domine mi Iesu, pro omnibus quæ retribuisti mihi? Calicem tuum accipiam, et nomen tuum invocabo. […] Tibi ergo, Domine mi Iesu, et sanguinem et corpus et spiritum meum iam ab hac die gaudenter offero, ut pro te, si ita dones, moriar, qui pro me mori dignatus es. Fac ut sic vivam, ut ita mori tandem me veles. Ita, Domine, calicem tuum accipiam, et nomen tuum invocabo: Iesu, Iesu, Iesu.
Que retribuirei a vós, Senhor meu Jesus, por tudo o que me destes? Tomarei o vosso cálice e invocarei o vosso nome. […] Por isso, Senhor meu Jesus, desde este dia ofereço-vos com alegria o meu sangue, o meu corpo e o meu espírito, para que eu morra por vós, se assim o concederdes, vós que vos dignastes morrer por mim. Fazei que eu viva de tal modo que, por fim, queirais que eu morra assim. Sim, Senhor, tomarei o vosso cálice e invocarei o vosso nome: Jesus, Jesus, Jesus.
— São João de Brébeuf, Relação de 1649
Deus, qui spem beatam regni aeterni sanctorum Ioannis et Isaac eorumque sociorum opere et sanguinis effusione manifestare voluisti, concede propitius, ut, eorum intercessione, fides christianorum in dies firmetur. Per Dominum.
Ó Deus, que quisestes mostrar a bem-aventurada esperança do reino eterno no trabalho e no sangue derramado de João, Isaac e seus companheiros, concedei-nos, em vossa bondade, que, por sua intercessão, a fé dos cristãos se firme a cada dia. Por nosso Senhor Jesus Cristo.
Amen.
Sancti martyres Canadenses, orate pro nobis. Santos mártires do Canadá, rogai por nós.
- São Lucas — o evangelista de Atos, ontem, no Domingo Mundial das Missões.
- Santo Inácio de Loyola — o fundador dos jesuítas.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.

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