
Hoje, 18 de outubro, é o dia de São Lucas, evangelista, o “caríssimo médico” de quem fala São Paulo (Cl 4,14). Foi ele quem nos deu a cena da Anunciação e o Magnificat, e a tradição diz que também pintou o rosto de Maria — uma tradição bonita, que ninguém consegue provar. Em 2026 a data cai num domingo, o XXIX do Tempo Comum e Domingo Mundial das Missões; como as normas do calendário põem os domingos do Tempo Comum acima das festas dos santos, a liturgia de hoje é a do Dia do Senhor, e a festa de Lucas fica, neste ano, na devoção e neste texto.
O médico de Antioquia
Lucas nunca se nomeia nos seus dois livros. O nome vem de três cartas de Paulo: “Saúda-vos Lucas, o caríssimo médico” (Cl 4,14); “Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus colaboradores” (Fm 24); e, com Paulo preso e abandonado, “Só Lucas está comigo” (2Tm 4,11). Santo Ireneu, por volta do ano 180, e o papiro Bodmer XIV-XV (P75), do ano 200 mais ou menos, já atribuem o terceiro Evangelho a ele.
Eusébio de Cesareia o descreve como homem “de família de Antioquia e médico de profissão”, que nos deixou, nos dois livros, “provas daquela arte de curar as almas” que aprendeu dos apóstolos (História Eclesiástica III,4). Provavelmente não era judeu: em Colossenses, Paulo o põe à parte dos “da circuncisão”. E há um sinal de que estava presente: em Atos, a narrativa passa de “eles” a “nós”, em Trôade: “logo procuramos partir para a Macedônia, certos de que Deus nos chamava a anunciar-lhes o Evangelho” (At 16,10).
O Evangelho abre como obra de historiador: “Pareceu-me bem também a mim, depois de haver investigado tudo com exatidão desde o princípio, escrever-te por ordem, ó excelentíssimo Teófilo” (Lc 1,3). Do fim da vida só há tradições: teria morrido na Beócia, aos oitenta e quatro anos (setenta e quatro, em algumas versões), e Jerônimo diz que foi sepultado em Constantinopla, para onde os seus ossos foram levados, com os do apóstolo André.
O Evangelho da misericórdia, o Evangelho de Maria
- Só ele conta a infância de Jesus. Anunciação, Visitação, o Magnificat, o Benedictus de Zacarias, o nascimento em Belém e os pastores, Simeão e o Nunc dimittis, o Menino de doze anos no Templo. Sem Lucas, o presépio não teria pastores.
- Metade da Ave-Maria é dele. “Salve, cheia de graça, o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres” (Lc 1,28) é a saudação do anjo, e “bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1,42), a de Isabel.
- As parábolas da compaixão. O Bom Samaritano, que “se moveu de compaixão” e cuidou das feridas “derramando óleo e vinho” (Lc 10,33-34), e o pai do filho pródigo, que “correu ao seu encontro” (Lc 15,20), estão só em Lucas. Um médico repara nos curativos.
- Os que ninguém esperava. Zaqueu, o bom ladrão (“Hoje estarás comigo no paraíso”, Lc 23,43), os discípulos de Emaús. A Coleta da festa resume: Deus o escolheu para revelar “o mistério do seu amor pelos pobres”.
- Maria guardava tudo no coração. “Maria guardava todas estas palavras, meditando-as em seu coração” (Lc 2,19; também 2,51). Muitos leitores veem aí uma pista da fonte da infância de Jesus; o texto não diz, é hipótese.
O quadro acima, São Lucas desenhando a Virgem, de Rogier van der Weyden (Boston, cerca de 1435–1440), é óleo e têmpera sobre madeira de carvalho, com cerca de um metro e quarenta de altura. Nossa Senhora aparece amamentando o Menino, no tipo da Maria lactans; Lucas, de manto vermelho, está diante dela, quase de joelhos, e desenha o rosto dela em ponta de prata, um meio que não perdoa erro. No quartinho de estudo, ao fundo, estão o boi e o livro aberto do seu Evangelho.
O rosto de Lucas é considerado, em geral, um autorretrato do próprio Van der Weyden: o pintor se pôs ao lado do santo e do “fundador” da pintura. Há três versões quase contemporâneas (São Petersburgo, Munique, Bruges); a de Boston é tida por original, pintada provavelmente para a capela da guilda dos pintores de Bruxelas.
Lucas pintou Nossa Senhora?
A tradição diz que sim. Teodoro Leitor, no século VI, fala de um retrato da Mãe de Deus enviado de Jerusalém a Constantinopla; Nicéforo Calisto, no século XIV, e o Menológio de Basílio II, por volta do ano 980, chamam Lucas de pintor. Roma guarda até hoje, em Santa Maria Maior, o ícone Salus Populi Romani, atribuído a ele pela lenda. É tradição sem prova. Os historiadores da arte veem no ícone romano uma pintura do século XIII sobre outra, mais antiga, cuja data já foi situada em quase todos os séculos entre o V e o XIII. O que Lucas certamente nos deixou foi outro retrato de Maria, feito de palavras.
Por isso os pintores o fizeram seu padroeiro, e os médicos também o têm por patrono. O seu símbolo é o boi, o animal do sacrifício, porque o Evangelho começa no Templo, com o sacerdote Zacarias.
O evangelista das missões
Lucas é também o autor dos Atos dos Apóstolos, a primeira história da expansão da Igreja: de Jerusalém a Roma, com o “nós” de quem estava no barco. Por isso cai bem que o seu dia coincida, este ano, com o Domingo Mundial das Missões, o centésimo: Pio XI o instituiu em 1926, no penúltimo domingo de outubro, e o tema de 2026 é “Um em Cristo, unidos na missão”.
Amanhã, 19, a Igreja recorda os mártires do Canadá e seus companheiros, que levaram o Evangelho ao outro lado do Atlântico.
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”— Lucas 1,38
“Maria guardava todas estas palavras, meditando-as em seu coração.”— Lucas 2,19
“Não ardia o nosso coração dentro de nós, enquanto ele nos falava pelo caminho e nos abria as Escrituras?”— Lucas 24,32
As orações
O Magnificat, o canto de Maria em casa de Isabel (Lc 1,46-55), só existe em Lucas. Vai aqui em latim, na forma da Vulgata que a Igreja canta nas Vésperas, e em português. Depois, a Coleta da festa.
Magnificat anima mea Dominum, et exsultavit spiritus meus in Deo salutari meo, quia respexit humilitatem ancillae suae. Ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes, quia fecit mihi magna qui potens est, et sanctum nomen eius, et misericordia eius a progenie in progenies timentibus eum. Fecit potentiam in bracchio suo, dispersit superbos mente cordis sui. Deposuit potentes de sede, et exaltavit humiles. Esurientes implevit bonis, et divites dimisit inanes. Suscepit Israel puerum suum, recordatus misericordiae suae, sicut locutus est ad patres nostros, Abraham et semini eius in saecula.
A minha alma engrandece ao Senhor e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador; pois ele viu a pequenez de sua serva, desde agora as gerações hão de chamar-me de bendita. O Poderoso fez por mim maravilhas e Santo é o seu nome! Seu amor, de geração em geração, chega a todos que o respeitam; demonstrou o poder de seu braço, dispersou os orgulhosos; derrubou os poderosos de seus tronos e os humildes exaltou; de bens saciou os famintos e despediu, sem nada, os ricos. Acolheu Israel, seu servidor, fiel ao seu amor, como havia prometido aos nossos pais, em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre.
— Cântico de Nossa Senhora, Evangelho de São Lucas 1,46-55 · texto da Liturgia das Horas (CNBB)
Domine Deus, qui beatum Lucam elegisti, ut praedicatione et scriptis mysterium tuae in pauperes dilectionis revelaret, concede, ut, qui tuo iam nomine gloriantur, cor unum et anima una esse perseverent, et omnes gentes tuam mereantur videre salutem. Per Dominum.
Senhor Deus, que escolhestes o bem-aventurado Lucas para revelar, pela pregação e pelos escritos, o mistério do vosso amor pelos pobres: concedei que os que já se gloriam do vosso nome perseverem em ser um só coração e uma só alma, e que todos os povos mereçam ver a vossa salvação. Por nosso Senhor Jesus Cristo.
Amen.
Sancte Luca, ora pro nobis. São Lucas, rogai por nós.
- O Magnificat: significado e como rezá-lo todo dia — o cântico de Maria, verso a verso.
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