
Hoje, 21 de setembro, a Igreja celebra São Mateus, apóstolo e evangelista. Vale reparar em quanto espaço o Evangelho gasta a contar a conversão dele: uma linha. “Segue-me. E ele, levantando-se, seguiu-o” (Mt 9,9). Não há negociação, não há prazo para pensar, não há um “deixa-me acertar as contas primeiro”.
O que era ser publicano
Chamava-se Levi, filho de Alfeu (Mc 2,14), e trabalhava na coletoria de Cafarnaum, na estrada que ligava a Galileia a Damasco. Cobrava impostos para Roma — ou melhor, arrematava o direito de cobrar e ficava com o que passasse do combinado.
Era, portanto, duas coisas ao mesmo tempo: um colaborador do ocupante e um homem que ganhava a vida extorquindo os vizinhos. Nos Evangelhos, “publicanos e pecadores” aparece como uma expressão só, porque na boca do povo era mesmo uma coisa só.
E há um detalhe que costuma escapar: os outros apóstolos largaram barcos e redes, coisas a que se pode voltar. Mateus largou uma concessão. Uma vez fora daquela mesa, não havia como recuperá-la — outro a compraria no dia seguinte. Foi o único que queimou a ponte atrás de si.
O jantar, e a frase
Logo a seguir, Mateus oferece um banquete em casa e enche-a de colegas de profissão. Os fariseus perguntam por que o Mestre come com aquela gente, e a resposta é a definição de todo o Evangelho:
“Não são os sãos que precisam de médico, mas os doentes. Não vim chamar os justos, mas os pecadores.” (Mt 9,12-13)
A Vocação de São Mateus, de Caravaggio (1599–1600), está na igreja de San Luigi dei Francesi, em Roma, e há quatro séculos que se discute uma coisa simples: qual dos homens à mesa é Mateus?
A leitura tradicional aponta o barbudo do meio, que parece indicar-se a si próprio com o dedo. A leitura mais recente diz que ele está apontando para o rapaz de cabeça baixa na ponta, ainda a contar dinheiro — e que o gesto significa “ele? a sério?”.
A ambiguidade pode ser de propósito. Se for, é a melhor coisa do quadro: quem está a ser chamado não tem a certeza de que é consigo.
O Evangelho que leva o nome dele
- Escrito para judeus. É o Evangelho que mais cita o Antigo Testamento, sempre com a mesma fórmula: “para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta”. Fala a quem já esperava alguém.
- Começa com uma genealogia. Quarenta e duas gerações, com nomes de gente comum e de gente péssima. O cobrador de impostos abre o livro a mostrar que Deus trabalha com o que há.
- Guarda o Sermão da Montanha. As Bem-aventuranças e o Pai-Nosso chegam-nos, na forma que rezamos, por este livro.
- O símbolo é o homem alado. Dos quatro viventes de Ezequiel, coube a Mateus a figura humana — porque o Evangelho dele abre pela ascendência humana de Cristo.
Da vida posterior sabe-se pouco de firme: a tradição fala de pregação na Etiópia ou na Pérsia, e do martírio. A Igreja venera-o como mártir sem fixar a história.
“Não vim chamar os justos, mas os pecadores.”— Mateus 9,13
“Viu um homem e amou-o.”— São Beda, o Venerável, homilia sobre a vocação de Mateus
“Deixou os bens da terra e seguiu Aquele que não tinha onde reclinar a cabeça.”— atribuído a São João Crisóstomo
As orações
Séquere me. Et surgens, secútus est eum.
Segue-me. E ele, levantando-se, seguiu-o.
— Evangelho de São Mateus 9,9
Deus, qui ineffábili misericórdia beátum Matthæum ex publicáno Apóstolum es dignátus elígere, da nobis, eius exémplo et intercessióne suffúltis, ut, te sequéntes, tibi firmiter adhæreámus.
Ó Deus, que por inefável misericórdia vos dignastes escolher o bem-aventurado Mateus, de publicano, para Apóstolo: concedei-nos que, amparados pelo seu exemplo e pela sua intercessão, seguindo-vos, permaneçamos firmemente unidos a vós.
Amen.
Sancte Matthæe, ora pro nobis. São Mateus, rogai por nós — e alcançai-nos levantar da mesa sem pedir prazo.
- São Januário — no dia 19.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.

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