A vocação de São Mateus, pintura de Caravaggio
A Vocação de São Mateus, de Caravaggio (1599–1600) — igreja de San Luigi dei Francesi, Roma. Domínio público.

Hoje, 21 de setembro, a Igreja celebra São Mateus, apóstolo e evangelista. Vale reparar em quanto espaço o Evangelho gasta a contar a conversão dele: uma linha. “Segue-me. E ele, levantando-se, seguiu-o” (Mt 9,9). Não há negociação, não há prazo para pensar, não há um “deixa-me acertar as contas primeiro”.

O que era ser publicano

Chamava-se Levi, filho de Alfeu (Mc 2,14), e trabalhava na coletoria de Cafarnaum, na estrada que ligava a Galileia a Damasco. Cobrava impostos para Roma — ou melhor, arrematava o direito de cobrar e ficava com o que passasse do combinado.

Era, portanto, duas coisas ao mesmo tempo: um colaborador do ocupante e um homem que ganhava a vida extorquindo os vizinhos. Nos Evangelhos, “publicanos e pecadores” aparece como uma expressão só, porque na boca do povo era mesmo uma coisa só.

E há um detalhe que costuma escapar: os outros apóstolos largaram barcos e redes, coisas a que se pode voltar. Mateus largou uma concessão. Uma vez fora daquela mesa, não havia como recuperá-la — outro a compraria no dia seguinte. Foi o único que queimou a ponte atrás de si.

O jantar, e a frase

Logo a seguir, Mateus oferece um banquete em casa e enche-a de colegas de profissão. Os fariseus perguntam por que o Mestre come com aquela gente, e a resposta é a definição de todo o Evangelho:

“Não são os sãos que precisam de médico, mas os doentes. Não vim chamar os justos, mas os pecadores.” (Mt 9,12-13)
O quadro que ninguém decifra

A Vocação de São Mateus, de Caravaggio (1599–1600), está na igreja de San Luigi dei Francesi, em Roma, e há quatro séculos que se discute uma coisa simples: qual dos homens à mesa é Mateus?

A leitura tradicional aponta o barbudo do meio, que parece indicar-se a si próprio com o dedo. A leitura mais recente diz que ele está apontando para o rapaz de cabeça baixa na ponta, ainda a contar dinheiro — e que o gesto significa “ele? a sério?”.

A ambiguidade pode ser de propósito. Se for, é a melhor coisa do quadro: quem está a ser chamado não tem a certeza de que é consigo.

O Evangelho que leva o nome dele

  • Escrito para judeus. É o Evangelho que mais cita o Antigo Testamento, sempre com a mesma fórmula: “para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta”. Fala a quem já esperava alguém.
  • Começa com uma genealogia. Quarenta e duas gerações, com nomes de gente comum e de gente péssima. O cobrador de impostos abre o livro a mostrar que Deus trabalha com o que há.
  • Guarda o Sermão da Montanha. As Bem-aventuranças e o Pai-Nosso chegam-nos, na forma que rezamos, por este livro.
  • O símbolo é o homem alado. Dos quatro viventes de Ezequiel, coube a Mateus a figura humana — porque o Evangelho dele abre pela ascendência humana de Cristo.

Da vida posterior sabe-se pouco de firme: a tradição fala de pregação na Etiópia ou na Pérsia, e do martírio. A Igreja venera-o como mártir sem fixar a história.

“Não vim chamar os justos, mas os pecadores.”— Mateus 9,13
“Viu um homem e amou-o.”— São Beda, o Venerável, homilia sobre a vocação de Mateus
“Deixou os bens da terra e seguiu Aquele que não tinha onde reclinar a cabeça.”— atribuído a São João Crisóstomo

As orações

O chamado · Mateus 9,9
Latim

Séquere me. Et surgens, secútus est eum.

Português

Segue-me. E ele, levantando-se, seguiu-o.

— Evangelho de São Mateus 9,9

Coleta · Festa de São Mateus
Latim

Deus, qui ineffábili misericórdia beátum Matthæum ex publicáno Apóstolum es dignátus elígere, da nobis, eius exémplo et intercessióne suffúltis, ut, te sequéntes, tibi firmiter adhæreámus.

Português

Ó Deus, que por inefável misericórdia vos dignastes escolher o bem-aventurado Mateus, de publicano, para Apóstolo: concedei-nos que, amparados pelo seu exemplo e pela sua intercessão, seguindo-vos, permaneçamos firmemente unidos a vós.

Amen.

Sancte Matthæe, ora pro nobis. São Mateus, rogai por nós — e alcançai-nos levantar da mesa sem pedir prazo.

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