Padre Pio de Pietrelcina com as chagas nas mãos, fotografia de 1919
Padre Pio de Pietrelcina com as chagas, fotografado por Plácido Bux em 19 de agosto de 1919 — onze meses depois de as receber. Domínio público.

Hoje, 23 de setembro, a Igreja celebra São Pio de Pietrelcina — o Padre Pio. Morreu neste dia, em 1968, às duas e meia da madrugada, com duas palavras na boca: “Gesù, Maria.” Tinha oitenta e um anos, e cinquenta deles vividos com feridas abertas nas mãos, nos pés e no lado.

Francesco, de Pietrelcina

Nasceu Francesco Forgione em 25 de maio de 1887, em Pietrelcina, no sul da Itália. Casa de camponeses. O pai, Grazio, emigrou duas vezes para a América e trabalhou anos longe da família para pagar os estudos do filho, que queria ser frade.

Entrou nos capuchinhos aos quinze anos e tomou o nome de Pio. Foi ordenado em 10 de agosto de 1910. A saúde era péssima — febres que ninguém explicava, meses inteiros mandado de volta para casa. Em 1916 foi para o convento de San Giovanni Rotondo, no Gargano, e ali ficou até morrer.

O sacerdote

Foi ordenado a 10 de agosto de 1910, na catedral de Benevento, pelas mãos do arcebispo Paolo Schinosi. Tinha vinte e três anos — e uma saúde que não lhe permitia viver em comunidade. Passou os seis anos seguintes em casa dos pais, dizendo Missa quase sozinho na igreja da aldeia. O sacerdócio dele começou assim: sem público.

Quando a Igreja escreveu a vida dele para a canonização, não pôs os estigmas no centro. Pôs isto: «o ápice da sua atividade apostólica era a celebração da Santa Missa». Os fiéis que nela tomavam parte, diz o mesmo texto, testemunhavam o cume da espiritualidade dele.

Paulo VI, falando aos superiores capuchinhos em 1971, três anos depois da morte dele, foi ainda mais direto:

«Vejam que fama teve, que seguimento mundial se reuniu ao redor dele! Mas por quê? Talvez porque era filósofo? Porque era sábio? Porque tinha meios à sua disposição? Porque dizia Missa humildemente, ouvia confissões de madrugada à noite e era — não é fácil dizê-lo — um que trazia as chagas de Nosso Senhor. Foi um homem de oração e de sofrimento.»— Papa Paulo VI, 20 de fevereiro de 1971

Repare no que o Papa não disse. Não começou pelos prodígios. Mencionou as chagas quase a contragosto — não é fácil dizê-lo — e pôs em primeiro lugar a Missa dita com humildade e as confissões ouvidas do amanhecer ao anoitecer.

E aqui está a primeira coisa que lhe digo. Aquilo que você pode imitar dele é exatamente aquilo que o Papa pôs em primeiro lugar. Os estigmas não lhe são pedidos; nem os haverá. A Missa de domingo é. E a confissão que você vem adiando também.

Dele próprio, no meio de toda aquela admiração, ficou a frase mais desarmante que um homem assim podia dizer: «Só quero ser um pobre frade que reza.»

20 de setembro de 1918

Naquela manhã estava sozinho no coro da igreja velha, a rezar diante do crucifixo, depois da Missa. Escreveu depois ao seu diretor espiritual que viu uma figura misteriosa e que, quando ela desapareceu, “me dei conta de que as mãos, os pés e o lado estavam trespassados e a verter sangue”.

Tinha trinta e um anos. Foi o primeiro sacerdote na história da Igreja de quem se tem notícia a carregar os estigmas visíveis.

  • Cinquenta anos. As feridas ficaram abertas de 1918 até poucos dias antes da morte, em 1968 — e então fecharam sem deixar cicatriz.
  • Examinadas por médicos. O Santo Ofício mandou peritos: Luigi Romanelli, Giorgio Festa, Amico Bignami. Discordaram entre si sobre a causa, mas concordaram nos fatos — as feridas não infetavam, não cicatrizavam e sangravam todos os dias.
  • Ele detestava falar disso. Usava mitenes castanhas para esconder as mãos e pedia que não lhe perguntassem. Chamava às chagas “a minha humilhação”.
Os anos do silêncio

Entre 1931 e 1933, o Santo Ofício proibiu-o de celebrar Missa em público e de ouvir confissões. As acusações vinham de fora e de dentro do convento; algumas eram invenção pura.

Ele obedeceu. Não escreveu cartas a defender-se, não mobilizou os devotos, não se queixou. Quando lhe perguntaram como suportava, respondeu que era “filho da obediência”. Foi reabilitado em 1933 por ordem de Pio XI, que disse ter sido mal informado.

Se há um sinal que vale mais do que os estigmas, é este. Milagres qualquer um pode inventar; obedecer calado durante dois anos, quando se tem razão, é coisa de santo.

Trinta e quatro, e ainda faltavam dois

Uma noite, às nove horas, o Padre Carmelo o encontrou ainda de terço na mão e lhe perguntou se não ia descansar. Padre Pio explicou-se:

«Ainda tenho dois terços para rezar hoje. Só rezei trinta e quatro até agora. Depois vou me deitar.»— São Pio de Pietrelcina, ao Padre Carmelo

Só. A palavra inteira está ali. Trinta e quatro terços num dia de trabalho — e no vocabulário dele aquilo era pouco.

Perguntaram-lhe uma vez como conseguia rezar tantos. Não respondeu com um método. Respondeu com outra pergunta: «Há dias em que rezo quarenta, em outros cinquenta. Como é que o senhor consegue não rezar nenhum?»

Chamava ao Rosário a arma, e dizia de quem o combate: «Satanás quer destruir esta oração, mas nisso nunca há de conseguir. O Rosário é a oração daquela que triunfa sobre tudo e sobre todos.» Dois dias antes de morrer, ainda deixou o mesmo recado: «Amem Nossa Senhora e façam-na amada. Rezem o Rosário, e rezem-no sempre.»

Agora a parte incômoda. Não tente os trinta e quatro. Você não é ele, e a comparação só serve para o desanimar — que é precisamente o que o inimigo quer. Mas a pergunta dele fica de pé, e é para si: como é que consegue não rezar nenhum? Um terço. Hoje. Inteiro e devagar, ainda que seja o único do ano. É assim que começa quem chega aos trinta e quatro.

O confessionário e o hospital

O trabalho da vida dele não foram os prodígios: foi o confessionário. Passava ali dez, doze, até dezesseis horas por dia. As pessoas esperavam dias pela vez; havia listas. Contam-se muitos casos de penitentes a quem ele disse o pecado que estavam escondendo — mas o que os testemunhos repetem mais é outra coisa: saíam de lá leves.

E havia o outro lado, muito concreto. Em 5 de maio de 1956 inaugurou, no alto daquela montanha pobre, um hospital construído com donativos vindos do mundo inteiro. Recusou chamá-lo de hospital. Deu-lhe o nome de Casa Sollievo della Sofferenza — Casa Alívio do Sofrimento. Hoje é um dos maiores hospitais do sul de Itália.

Fundou também os grupos de oração, a que chamava “viveiros de fé, fornalhas de amor”. Existem ainda hoje, aos milhares.

O místico

O texto da canonização di-lo com sobriedade romana: «estava sempre imerso nas realidades sobrenaturais». Passava o dia e boa parte da noite em conversa com Deus.

Do que se conta dele, muito é verificável e muito é devoção popular; e a Igreja nunca fez dos prodígios a razão de o canonizar. O que os testemunhos repetem com mais insistência é o confessionário: penitentes a quem ele nomeou o pecado que vinham escondendo, gente que entrou fingindo e saiu chorando. Contam-se também as bilocações — ele em um lugar, visto em outro — e o perfume que muitos diziam sentir sem explicação.

Ele não falava disso. Escondia as mãos em mitenes marrons, chamava às chagas a minha humilhação, e resumiu a vida espiritual numa frase que não tem nada de extraordinário:

«Nos livros procuramos Deus; na oração encontramo-lo. A oração é a chave que abre o coração de Deus.»— São Pio de Pietrelcina

O critério é este, e serve para toda a vida espiritual: os dons não são para quem os recebe. São para os outros. Um místico que fica interessante a si próprio já se perdeu. A prova de que os dele eram de Deus não foram as chagas — foi ter obedecido calado quando a própria Igreja o proibiu de as usar.

O combate, e São Miguel

A biografia oficial diz, sem alargar: «durante muitos anos, experimentou sofrimentos espirituais». Nas cartas aos seus diretores espirituais, o Padre Benedetto e o Padre Agostino, Padre Pio descreveu esses anos sem pudor e sem drama — noites em que era atacado, e manhãs em que se levantava para dizer Missa como se nada fosse.

Não tratava o demônio como metáfora. Também não o tratava como assunto interessante: dava às pessoas uma oração e as mandava subir a montanha. Em 1917 foi em peregrinação à gruta de Monte Sant’Angelo, no Gargano, o santuário mais antigo do Ocidente dedicado a São Miguel Arcanjo, e durante anos mandou para lá os seus penitentes. Dizia-lhes:

«Vai precisar da ajuda de São Miguel, vivendo neste mundo.»— São Pio de Pietrelcina, aos seus filhos espirituais

Note a sobriedade. Ele, que via aquilo de perto, não alimentava curiosidade nenhuma sobre o inimigo — punha as pessoas a rezar a São Miguel e voltava ao confessionário. Quem hoje fala muito do demônio e pouco de Deus não o está imitando: está fazendo o contrário do que ele fez.

Os dois milagres que a Igreja pesou

Atribuem-se a ele curas aos milhares. A Igreja examinou duas, e levou anos em cada uma.

Para a beatificação: a cura de Consiglia De Martino, de Salerno. Processo canônico de julho de 1996 a junho de 1997, junta médica em abril de 1998, decreto em dezembro de 1998. Beatificado a 2 de maio de 1999.

Para a canonização: a cura de Matteo Pio Colella, um menino de San Giovanni Rotondo que saiu de um coma. Processo de junho a outubro de 2000, perícia médica em novembro de 2001, decreto em dezembro. Canonizado a 16 de junho de 2002.

Porque é que a Igreja é tão lenta nisto

Duas curas, em milhares. Junta médica antes de teólogos. Anos de processo por cada uma. Não é desconfiança dele — é cuidado consigo.

A Igreja sabe que o entusiasmo faz mais estragos na fé do que o ceticismo, e por isso trava. Quando finalmente diz milagre, está dizendo uma coisa que pesou.

O fim

Celebrou a última Missa em 22 de setembro de 1968, sentado, sem forças para se manter de pé. Morreu de madrugada no dia 23. Quando o corpo foi preparado, as chagas tinham desaparecido: a pele estava lisa, como se nunca ali tivesse havido nada.

Foi canonizado por João Paulo II em 16 de junho de 2002 — o mesmo que, jovem sacerdote polaco, se confessara com ele em 1947.

“Reza, espera e não te preocupes.”— São Pio de Pietrelcina
“O Rosário é a arma para estes tempos.”— São Pio de Pietrelcina
“Sou filho da obediência.”— São Pio de Pietrelcina, ao ser proibido de celebrar em público
“Só quero ser um pobre frade que reza.”— São Pio de Pietrelcina
“Nos livros procuramos Deus; na oração encontramo-lo.”— São Pio de Pietrelcina

As orações

A Coleta da Missa dele pede uma coisa exata: não os prodígios, mas a união às dores de Cristo.

Coleta · Memória de São Pio de Pietrelcina
Latim

Omnípotens sempitérne Deus, qui sanctum Pium presbýterum Fílii tui crucis singulári grátia partícipem esse tribuísti, et per eius ministérium misericórdiæ tuæ mirabília renovásti: concéde nobis, ut, eius intercessióne, passiónibus Christi iúgiter uníti, ad resurrectiónis glóriam felíciter perducámur.

Português

Deus todo-poderoso e eterno, que concedestes ao sacerdote São Pio participar de modo singular na cruz do vosso Filho, e por meio do seu ministério renovastes as maravilhas da vossa misericórdia: concedei-nos que, por sua intercessão, unidos sem cessar aos sofrimentos de Cristo, cheguemos felizmente à glória da ressurreição.

Amen.

E esta é a oração ao Anjo da Guarda, que ele rezava desde criança. Padre Pio mandava o seu anjo a quem lhe escrevia de longe, e pedia às pessoas que lhe mandassem o delas — dizia isso com a naturalidade de quem manda um recado:

Angele Dei · ao Anjo da Guarda
Latim

Angele Dei, qui custos es mei, me tibi commíssum pietáte supérna, hódie illúmina, custódi, rege et gubérna.

Português

Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa e me ilumina.

Amém.

Sancte Pie a Pietrelcina, ora pro nobis. São Pio de Pietrelcina, rogai por nós — e alcançai-nos a graça de obedecer quando é difícil.

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