São João Maria Vianney, o Cura de Ars, de mãos postas — retrato pintado do natural
“Retrato autêntico do santo Cura de Ars, executado do natural” — Biblioteca Nacional da França, domínio público.

Hoje, 4 de agosto, a Igreja celebra a festa de São João Maria Vianney (1786–1859) — um rapaz do campo que não conseguia aprender latim, que quase não foi ordenado e que então foi mandado para uma aldeia de umas duzentas almas justamente porque ninguém esperava nada dele ali. Ficou quarenta e um anos. No fim, cem mil peregrinos por ano chegavam a Ars para se ajoelhar diante do seu confessionário, e a ferrovia havia aberto em Lyon um guichê só para eles. Esta é a sua vida, a paróquia que reergueu, a espiritualidade que fez isso e a oração da sua Missa em latim e português.

Um menino da Revolução

Nasceu em 8 de maio de 1786 em Dardilly, perto de Lyon, numa família de camponeses. Três anos depois veio a Revolução, as igrejas foram fechadas e os padres que se recusaram a jurar a Constituição Civil do Clero passaram a ser caçados. Jean-Marie cresceu com uma fé aprendida no colo da mãe e uma Missa celebrada em celeiros, de noite, sobre a mesa da cozinha, com alguém vigiando a porta.

Fez a Primeira Comunhão por volta dos treze anos, numa casa de janelas fechadas e com uma carroça de feno encostada à janela para que ninguém de fora visse as velas. Quem aprende de menino que a Missa vale o risco da prisão não a trata depois como rotina — e tudo o que ele viria a ser já estava contido naquela sala.

A vocação em que ninguém acreditava

Tinha vinte anos quando começou a estudar para o sacerdócio, sob o Abade Charles Balley, em Écully — um bom padre que viu nele o que os examinadores jamais veriam. O obstáculo era o latim. Não lhe entrava. Era mais velho que os outros alunos, mais lento, e humilhado por isso.

Em 1809 o exército o levou. Os estudantes de teologia eram isentos, mas o papel falhou; foi recrutado para as tropas de Napoleão, adoeceu a caminho da frente, perdeu a sua unidade e acabou — a princípio sem querer — entre desertores nas montanhas de Les Noës, vivendo mais de um ano sob o nome de Jérôme Vincent e ensinando as crianças da aldeia. Uma anistia em 1810 o libertou.

De volta aos livros, foi mandado ao seminário maior de Lyon e mandado de volta para casa: a teologia era ensinada em latim e ele não acompanhava. Balley o recebeu outra vez, ensinou-o em francês e empenhou a própria palavra por ele. No exame perguntaram se o candidato era piedoso, se sabia rezar, se tinha devoção a Nossa Senhora. Tinha. Foi ordenado em 13 de agosto de 1815, em Grenoble — o único ordenado naquele dia.

Deus não chama os capazes. Ele capacita aqueles que chama — e o Cura de Ars é a prova que a Igreja guarda à mão para quem se julga pequeno demais.

Ars: duzentas almas e nenhum amor de Deus

Em fevereiro de 1818 foi enviado a Ars-sur-Formans, aldeia tão pequena e tão indiferente que era tida como lugar onde um padre medíocre faria pouco estrago. O vigário-geral disse a frase que o acompanha desde então: “Não há muito amor de Deus nessa paróquia — o senhor há de pôr algum.”

Encontrou quatro tavernas, bailes aos domingos, trabalho na roça em dias de festa e uma igreja quase vazia. Não começou por programas. Começou ficando ele mesmo na igreja: noites inteiras diante do sacrário e uma alimentação que era quase só batata cozida. Aprendeu o nome de cada família. Ensinou catecismo às crianças com palavras que um lavrador levava para casa. E pregou, no início mal e sempre com clareza, contra aquilo que devorava a sua aldeia.

Levou anos. As tavernas fecharam uma a uma, não porque ele as fechasse, mas porque os fregueses deixaram de ir. Em 1824 fundou La Providence, escola gratuita e refúgio para meninas órfãs e abandonadas, e por muito tempo a sustentou tirando do nada.

Um dia da sua vida, no auge

Levantava-se à uma da madrugada e ia para a igreja, onde já havia gente esperando no escuro.

Onze a doze horas no confessionário no inverno; dezesseis, às vezes dezoito, no verão. Saía para celebrar a Missa, pregar, ensinar o catecismo às onze — e voltava para dentro.

Comia uma vez por dia, em geral batatas cozidas no começo da semana. Dormia poucas horas num colchão de palha, e muitas vezes nem isso.

Manteve esse ritmo, quase sem interrupção, por cerca de trinta anos.

O confessionário

Por volta de 1827 começaram a aparecer desconhecidos. Depois os desconhecidos viraram enxurrada. Nos anos 1850, cerca de cem mil peregrinos por ano chegavam a uma aldeia de duzentos habitantes; esperava-se três dias pela vez; a ferrovia abriu em Lyon um guichê para a rota de Ars, e os bilhetes valiam uma semana porque era esse o tamanho da fila.

O que os atraía não era eloquência. Era o fato de que ele via. Penitentes saíam abalados porque ele havia nomeado o que não fora dito, ou respondido à pergunta que não conseguiram fazer, ou mandado que voltassem para casa e reparassem uma injustiça concreta. E chorava — visivelmente, o tempo todo — e, quando lhe perguntavam por quê, dizia que era porque os pecadores não choravam por si mesmos.

“Quando vamos pecar o demônio tira toda a nossa vergonha. E quando vamos confessar esse pecado, ele coloca toda a vergonha de volta.”— São João Maria Vianney

Foi atacado por isso. Deu ao demônio um apelido — le grappin, o gancho — e falava dele como um lavrador fala de um bicho incômodo. Havia ruídos na casa paroquial de noite e, em 1824, sua cama foi queimada. Tratava tudo aquilo como bom sinal: o grappin está irritado, logo vem peixe grande.

As quatro fugas

Não uma, mas várias vezes tentou deixar Ars de madrugada, para ir ser monge em algum lugar e, nas suas palavras, chorar a sua pobre vida. Todas as vezes foi encontrado e trazido de volta, e todas as vezes voltou ao confessionário. Estava convencido de que era um mau padre. É o padroeiro dos párocos.

O coração da sua espiritualidade

Nada do que fez era original. E é justamente esse o ponto: tomou os meios comuns da Igreja e usou-os sem reservas.

  • A Missa acima de tudo. Ficava no altar sem conseguir prosseguir, tomado pelo que tinha nas mãos. Tudo o mais em Ars nasceu daquele altar.
  • Penitência, e não por si. Jejuava e velava pelos seus paroquianos, convicto de que um padre não pode pedir a Deus aquilo que não se dispõe a pagar.
  • O confessionário como linha de frente. Não administração, não projetos — horas e horas, uma alma de cada vez.
  • Catecismo em palavras simples. Ensinava crianças do campo e seus pais na língua que de fato falavam, e suas instruções foram anotadas por outros porque mereciam ser guardadas.
  • Nossa Senhora e Santa Filomena. Pôs a paróquia sob a proteção de Maria, e toda cura acontecida em Ars ele atribuía a Santa Filomena, nunca a si mesmo.
  • Uma ideia enorme do sacerdócio. Achava que um padre não pode compreender-se nesta vida e só no céu chorará de alegria por aquilo que foi.
“Se soubéssemos o que é a Santa Missa, morreríamos de amor.”— São João Maria Vianney
“Cada hóstia consagrada é feita para se consumir de amor em um coração humano.”— São João Maria Vianney

A morte, e o que a Igreja fez com ele

Morreu em Ars no dia 4 de agosto de 1859, aos setenta e três anos, esgotado, em plena onda de calor, com a aldeia e uma multidão de peregrinos em volta da casa paroquial. Pio X o beatificou em 1905; Pio XI o canonizou em 31 de maio de 1925 e, quatro anos depois, o declarou padroeiro dos párocos. Seu corpo repousa na basílica de Ars e, em 2009, Bento XVI abriu um Ano Sacerdotal no 150º aniversário da sua morte, apresentando-o como modelo para todos os padres do mundo.

A lição que a Igreja tirou não é que ele fosse inteligente. É que uma paróquia pode ressuscitar pelas mãos de um só padre que reza, jejua e fica no confessionário até que o procurem.

A oração da sua Missa

A Coleta que a Igreja reza na sua festa pede exatamente aquilo que ele teve: zelo pastoral e um ardor ininterrupto de oração e penitência.

Coleta · Festa de São João Maria Vianney
Latim

Omnípotens et miséricors Deus, qui beátum Joánnem Maríam pastoráli stúdio et iúgi oratiónis ac pæniténtiæ ardóre mirábilem effecísti: da, quǽsumus; ut, eius exémplo et intercessióne, ánimas fratrum lucrári Christo, et cum eis ætérnam glóriam cónsequi valeámus. Per Dóminum nostrum Iesum Christum.

Português

Deus onipotente e misericordioso, que fizestes o bem-aventurado João Maria admirável no zelo pastoral e no ardor incessante da oração e da penitência: concedei-nos, nós vos pedimos, que, pelo seu exemplo e pela sua intercessão, ganhemos para Cristo as almas dos nossos irmãos e, com elas, possamos alcançar a glória eterna. Por nosso Senhor Jesus Cristo.

Amen.

E esta segunda é dele mesmo, escrita em francês, a oração que se diz ter repetido a vida inteira:

Ato de Amor · palavras dele
Francês

Je vous aime, ô mon Dieu, et mon seul désir est de vous aimer jusqu’au dernier soupir de ma vie. Je vous aime, ô Dieu infiniment aimable, et j’aime mieux mourir en vous aimant que de vivre un seul instant sans vous aimer. Ô mon Dieu, si ma langue ne peut dire à tout moment que je vous aime, je veux que mon cœur vous le répète autant de fois que je respire.

Português

Eu vos amo, ó meu Deus, e o meu único desejo é amar-vos até o último suspiro da minha vida. Eu vos amo, ó Deus infinitamente amável, e prefiro morrer amando-vos a viver um só instante sem vos amar. Ó meu Deus, se a minha língua não pode dizer a todo momento que vos amo, quero que o meu coração vo-lo repita tantas vezes quantas eu respiro.

Amen.

Palavras do Cura de Ars

Estas já estão guardadas na coleção de frases de santos deste site — diretas, camponesas e impossíveis de entender mal:

“O padre é quase um Deus.”— São João Maria Vianney
“Do que adianta você ganhar um baú cheio de joias e não ter uma chave para abrir? Do que adianta ter a morte de Jesus na cruz se não tiver o sacerdote para atualizá-lo no altar?”— São João Maria Vianney
“Se quiseres possuir a Cristo, jamais o busque sem a cruz.”— São João Maria Vianney
“As contradições nos colocam ao pé da cruz, e a cruz na porta do céu.”— São João Maria Vianney
“A penitência é tão importante para o corpo como a oração é para a alma.”— São João Maria Vianney
“Para entrar num prédio é necessário passar por um porteiro, para entrar no céu é preciso passar pela porta que é Nossa Senhora.”— São João Maria Vianney

Você pode lê-las junto das demais na coleção crescente de frases dos santos aqui no site.

Sancte Ioannes Maria Vianney, ora pro nobis. São João Maria Vianney, rogai por nós — e rogai pelos nossos párocos, que carregam mais do que sabemos e são menos agradecidos do que merecem.

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