
No Brasil, agosto é o Mês Vocacional, e a primeira semana é dedicada ao sacerdócio. Vale começar pelo começo — que não é o seminário, nem a batina, nem a paróquia. É uma sala emprestada em Jerusalém, na véspera de uma execução. Ali, na mesma noite e no mesmo gesto, nasceram duas coisas que a Igreja nunca mais conseguiu separar: a Eucaristia e o sacerdócio.
Uma frase, dois sacramentos
São Lucas registra o momento com uma economia de palavras que quase esconde o que está acontecendo:
“E, tomando o pão, deu graças, partiu-o e distribuiu-o, dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim.” (Lc 22, 19)
Repare na última oração. Ela não é um comentário: é uma ordem, dada a pessoas determinadas, sobre uma ação determinada. Jesus não disse “lembrem-se de mim”. Disse façam isto — e “isto” era o que Ele acabara de fazer com o pão.
A Igreja sempre leu essa frase como o momento em que os apóstolos foram constituídos sacerdotes. O Concílio de Trento, na sessão XXII, fixou isso em termos que não deixam margem: quem disser que, com aquelas palavras, Cristo não constituiu os apóstolos sacerdotes, ou não ordenou que eles e outros sacerdotes oferecessem o seu Corpo e Sangue, está fora da fé da Igreja.
Não é uma coincidência histórica, é uma necessidade. A Eucaristia não é um símbolo que qualquer pessoa possa produzir com boa vontade: é o sacrifício de Cristo tornado presente. Para isso alguém precisa agir na pessoa de Cristo — e é exatamente isso que a Ordem confere.
Daí a consequência prática, e ela é dura: sem sacerdotes não há Missa. Uma comunidade pode ter igreja, catequese, coral, grupos, obras sociais. Sem um padre ordenado, não tem o Calvário no altar. Tem tudo, menos o essencial.
Um sacerdócio, dois modos de participar
Aqui costuma haver confusão, e a distinção é importante o bastante para valer meio minuto. Todo batizado participa do sacerdócio de Cristo — isso é doutrina, não gentileza. São Pedro escreve aos fiéis comuns que eles são “raça eleita, sacerdócio real” (1Pd 2, 9).
Mas o Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, faz questão de precisar que o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial diferem essencialmente, e não apenas em grau. Não são o mesmo em doses diferentes. São ordens distintas de participação na mesma realidade.
- O sacerdócio comum é o do batizado: oferece a Deus a própria vida, o trabalho, o sofrimento, a oração — e isso é sacerdotal de verdade.
- O sacerdócio ministerial é o do ordenado: consagra a Eucaristia, perdoa os pecados em nome de Cristo, unge os enfermos, apascenta o povo.
- Um serve ao outro. O ministerial existe para que o comum possa se exercer — o padre não está acima do povo, está a serviço do sacerdócio de todo o povo.
Deus não chama os capazes
Em 4 de agosto a Igreja celebra São João Maria Vianney, o Cura d'Ars, padroeiro dos párocos. A biografia dele é um argumento inteiro contra a ideia de que a vocação é para os brilhantes.
Vianney foi considerado incapaz para os estudos. O latim o derrotou repetidamente. Chegou a ser dispensado do seminário. Foi ordenado, no fim, mais pela insistência de quem enxergou nele outra coisa do que por mérito acadêmico — e por um bom tempo nem confessar podia, porque não confiavam na sua formação.
Esse homem terminou passando dezesseis, dezoito horas por dia no confessionário, com filas que vinham de toda a França para uma aldeia de duzentos habitantes. E resumiu o que estava fazendo numa frase que devia estar gravada na porta de cada casa paroquial:
“O sacerdócio é o amor do Coração de Jesus.”São João Maria Vianney, o Cura d'Ars
“Todo sumo sacerdote é tomado dentre os homens e constituído em favor dos homens naquilo que se refere a Deus.”Carta aos Hebreus 5, 1
Existe uma ideia difundida de que a vocação sacerdotal é para rapazes de temperamento manso, notas altas e família devota. A história da Igreja é uma coleção de contraexemplos.
Deus não chama os capazes — Ele capacita aqueles que chama. É uma diferença de ordem, não de otimismo: a graça não é um prêmio pela aptidão, é o que torna possível o que a aptidão não alcança.
Vocação não é assunto de seminário
Aqui está a parte incômoda. Diante da falta de padres, a reação comum é tratar o assunto como um problema de gestão — falta divulgação, falta pastoral vocacional, falta estratégia. Talvez. Mas o dado mais simples costuma passar despercebido: vocações nascem em famílias que rezam.
Nenhum seminário produz uma vocação. Ele forma quem já foi chamado. O chamado se dá, quase sempre, num ambiente onde Deus era tratado como real muito antes de qualquer decisão — numa casa onde se rezava em voz alta, onde a Missa não era negociável, onde o padre era recebido como padre.
E há uma oração que praticamente ninguém faz, por medo: a de pais pedindo a Deus que chame um dos seus filhos. Vale dizer o que a experiência da Igreja mostra há vinte séculos — ninguém jamais perdeu um filho por entregá-lo ao Senhor. A conta nunca fecha nesse sentido.
Três coisas concretas para esta semana
- Reze pelo seu pároco pelo nome. Não “pelos padres” em geral — pelo nome dele, que você sabe. A oração genérica custa pouco e chega a lugar nenhum.
- Agradeça a um sacerdote. Se algum padre já te escutou numa hora escura, escreva uma linha para ele. Eles vivem de muito peso e de pouquíssimo reconhecimento, e quase nunca ouvem que valeu.
- Peça, se você é pai ou mãe. Uma vez que seja. E depois não atrapalhe a resposta.
A oração desta semana
Duas linhas em latim, as duas da Escritura. A primeira é a ordem que fez nascer o sacerdócio; a segunda é o versículo que a Igreja canta há séculos sobre todo homem que a recebeu.
Hoc facite in meam commemoratiónem.
Fazei isto em memória de mim.
Lucas 22, 19 · Vulgata
Tu es sacérdos in ætérnum secundum órdinem Melchísedech.
Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec.
Salmo 109 (110), 4 · Vulgata


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