Cristo entrega as chaves a Pedro diante dos onze apóstolos, pintura de Nicolas Poussin da série dos Sete Sacramentos
A Ordenação, Nicolas Poussin (c. 1637–1640), da série dos Sete Sacramentos. Domínio público.

O sacerdócio católico não foi criado por um documento, nem votado num concílio, nem instituído por decreto de um papa. Nasceu numa sala emprestada em Jerusalém, na véspera de uma execução, no meio de um jantar — e em duas palavras. Jesus disse “fazei isto”. Tudo o que a Igreja afirmou sobre padres nos vinte séculos seguintes é o desdobramento de um verbo no imperativo.

Duas palavras, e o que elas mandam fazer

São Lucas registra o momento com uma economia que quase esconde o que está acontecendo:

“E, tomando o pão, deu graças, partiu-o e distribuiu-o, dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim.” (Lc 22,19)

Repare na última oração. Não é um comentário devoto: é uma ordem, dada a pessoas determinadas, sobre uma ação determinada. Jesus não disse “lembrem-se de mim”. Disse façam isto — e “isto” era o que Ele acabara de fazer com o pão.

E há um detalhe no grego que o português não carrega. O verbo é poieîte, de poiéin. É um verbo comum, “fazer” — mas é também o verbo que a tradução grega do Antigo Testamento usa, dezenas de vezes, para dizer oferecer um sacrifício: “farás um cordeiro pela manhã e outro ao entardecer”, e ali fazer quer dizer imolar. Um ouvido judeu, naquela mesa, não escutou “repitam este jantar”. Escutou uma instrução ritual.

O Concílio de Trento, na sessão XXII, fixou a leitura sem deixar margem: quem disser que, com aquelas palavras, Cristo não constituiu os apóstolos sacerdotes, ou não ordenou que eles e outros sacerdotes oferecessem o seu Corpo e Sangue, está fora da fé da Igreja.

A frase mais audaciosa que um homem pode dizer

Vale parar num detalhe que passa despercebido de tanto se repetir. No momento central da Missa, o padre não diz “este é o corpo de Cristo”. Ele muda de pessoa gramatical e diz:

“Isto é o meu corpo.”

Hoc est enim corpus meum.

As palavras da consagração — na primeira pessoa

Não é um lapso da liturgia nem uma citação entre aspas. É a coisa toda. A Igreja chama isso de agir in persona Christi: naquele instante o padre não fala sobre Cristo, fala como Cristo, e por isso o pão deixa de ser pão. É por essa razão, e só por essa, que a Ordem não é um cargo administrativo que se possa redistribuir por conveniência pastoral.

E daí vem a consequência dura que a primeira semana do Mês Vocacional existe para lembrar: sem sacerdotes não há Missa. Uma comunidade pode ter igreja, catequese, coral, grupos, obras sociais, tudo. Sem um padre ordenado, não tem o Calvário no altar. Tem tudo, menos o essencial.

Dachau, bloco 26

Se alguém quiser saber quanto vale essa frase, o teste já foi feito, e não numa faculdade de teologia.

O campo de concentração de Dachau tinha um alojamento só para clérigos — o Priesterblock. Passaram por ali cerca de 2.700 padres, seminaristas e religiosos, na maioria poloneses. Perto de mil morreram.

Entre eles estava Karl Leisner, um diácono alemão de 29 anos, tuberculoso, preso desde 1939 por um comentário contra Hitler. Estava morrendo, e faltava-lhe uma coisa só: ser ordenado padre. Acontece que havia no campo, também prisioneiro, um bispo francês — Gabriel Piguet, de Clermont-Ferrand.

Os presos organizaram a coisa em segredo, ao longo de semanas. Uma religiosa beneditina contrabandeou para dentro do campo o óleo dos santos crismas, com autorização do bispo de Munique. Fizeram uma mitra com papel e forro, um báculo com madeira encontrada, e um anel. Em 17 de dezembro de 1944, dentro de Dachau, Karl Leisner foi ordenado sacerdote. É a única ordenação da história celebrada num campo de concentração.

Ele estava fraco demais para celebrar. Esperou nove dias. Em 26 de dezembro de 1944, dia de Santo Estêvão, celebrou a sua primeira e única Missa. Nunca celebrou outra. Foi libertado em maio, morreu em agosto de 1945 e foi beatificado por São João Paulo II em 1996.

Homens famintos, num campo de extermínio, gastaram semanas de risco de morte para fabricar clandestinamente um padre — para que houvesse uma Missa. Nenhum tratado explica melhor por que a Igreja pede vocações.

Um sacerdócio, dois modos de participar

Aqui costuma haver confusão, e a distinção vale meio minuto. Todo batizado participa do sacerdócio de Cristo — isso é doutrina, não gentileza. São Pedro escreve aos fiéis comuns que eles são “raça eleita, sacerdócio real” (1Pd 2,9).

Mas o Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, faz questão de precisar que o sacerdócio comum dos fiéis e o ministerial diferem essencialmente, e não apenas em grau. Não são a mesma coisa em doses diferentes.

  • O sacerdócio comum é o do batizado: oferece a Deus a própria vida, o trabalho, o sofrimento, a oração. Isso é sacerdotal de verdade, e não é figura de linguagem.
  • O sacerdócio ministerial é o do ordenado: consagra a Eucaristia, perdoa os pecados em nome de Cristo, unge os enfermos, apascenta o povo.
  • Um serve ao outro. O ministerial existe para que o comum possa se exercer. O padre não está acima do povo; está a serviço do sacerdócio de todo o povo.
As mãos

Na ordenação, o bispo unge com o santo crisma as palmas das mãos do novo padre — não a cabeça, não a testa: as mãos, porque são elas que vão tocar a Eucaristia.

Há um costume antigo ligado a esse gesto: o pano de linho que enxuga o crisma, o manutergium, era entregue à mãe do padre, que o guardava a vida inteira e era sepultada com ele nas mãos. Quando lhe perguntassem, no fim, o que tinha feito da vida, ela poderia apresentar aquilo.

Deus não chama os capazes

A primeira semana do Mês Vocacional cai junto com a festa de São João Maria Vianney, em 4 de agosto, e não há argumento melhor contra a ideia de que a vocação é para os brilhantes: o seminário o dispensou por incapacidade, e a Igreja o fez padroeiro de todos os párocos do mundo. A história dele está contada aqui.

O padrão é bíblico e é constante. Moisés gaguejava. Jeremias alegou que era jovem demais. Pedro negou três vezes antes de receber as chaves. Deus não chama os capazes: capacita os chamados — e quem espera estar pronto antes de responder nunca responde, porque ninguém fica pronto.

Vocação não é assunto de seminário

Há um mal-entendido confortável que convém desmontar: o de que vocações são responsabilidade do seminário, da diocese, dos padres. Não são.

Nenhum menino descobre que pode ser padre num seminário. Ele descobre em casa, quando vê os pais rezando; na paróquia, quando serve ao altar; e sobretudo quando encontra um padre feliz. Um único sacerdote alegre gera mais vocações do que dez campanhas. E o contrário também é verdade, e é por isso que se reza tanto pela santidade do clero.

Três coisas concretas para esta semana

  • Rezar por um padre pelo nome. Não “pelos sacerdotes” em geral — por aquele, com nome e sobrenome, que ouviu a sua confissão ou batizou o seu filho.
  • Dizer isso a ele. Um bilhete, uma mensagem, três linhas. Padre quase nunca recebe retorno, e ninguém aguenta muitos anos falando para o escuro.
  • Fazer a pergunta em casa. Perguntar a um filho, um sobrinho, um afilhado, sem cerimônia, se ele já pensou nisso. Muita vocação morre por nunca ter sido nomeada em voz alta por alguém.

“Senhor Jesus, que chamastes os que quisestes: chamai muitos de nós a trabalhar convosco, a trabalhar por vós. Vós que iluminastes com vossa palavra aqueles que chamastes, iluminai-nos com o dom da fé em vós. Vós que os amparastes nas dificuldades: ajudai-nos a vencer as nossas.”

Da oração pelas vocações — São Paulo VI
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