O nascimento da Virgem Maria, pintura de Murillo
O Nascimento da Virgem, de Bartolomé Esteban Murillo (c. 1660) — Museu do Louvre, Paris. Domínio público.

Hoje, 8 de setembro, a Igreja celebra a Natividade de Nossa Senhora. Repare numa coisa que passa despercebida: o calendário da Igreja está cheio de festas de santos, mas quase nenhuma celebra o dia em que eles nasceram. Celebra o dia em que morreram. São só três os nascimentos que entram no calendário — e a razão disso diz mais sobre esta festa do que qualquer elogio.

Por que a Igreja quase nunca celebra aniversários

A festa de um santo cai, quase sempre, no dia da sua morte. A Igreja antiga chamava a esse dia dies natalis — dia do nascimento. Não é ironia nem eufemismo: para quem morre em Cristo, o dia da morte é o dia em que se nasce de vez.

Nascer na terra, ao contrário, é nascer com o pecado original. Não há o que festejar num começo que já vem ferido. Por isso o calendário guarda silêncio sobre o aniversário de quase todos.

As três exceções são exatamente aquelas em que esse silêncio não faria sentido:

  • O Natal do Senhor, 25 de dezembro. Deus feito homem, sem sombra de pecado.
  • O nascimento de São João Batista, 24 de junho. Santificado ainda no ventre, quando saltou de alegria à chegada de Maria (Lc 1,44).
  • A Natividade de Maria, 8 de setembro. Concebida sem pecado original, nasceu já cheia de graça.

Ou seja: a Igreja celebra o nascimento de Maria porque crê na Imaculada Conceição. As duas festas se sustentam uma à outra.

De onde vem o dia 8 de setembro

Quase todo mundo faz a conta ao contrário: 8 de dezembro é a Imaculada Conceição, e nove meses depois dá 8 de setembro. A conta fecha, mas historicamente foi o inverso — a festa do nascimento veio primeiro, e a da conceição foi contada para trás a partir dela.

A origem provável é a dedicação de uma basílica em Jerusalém, erguida no lugar que a tradição apontava como a casa de Joaquim e Ana, junto à piscina Probática — hoje a igreja de Santa Ana. A festa aparece no Oriente entre os séculos V e VI e chega a Roma no século VII, quando o papa Sérgio I a inclui entre as quatro festas marianas celebradas com procissão pela cidade.

Joaquim e Ana: o que sabemos e o que não sabemos

Os nomes dos pais de Maria não estão na Escritura. Vêm de um escrito do século II, o Protoevangelho de Tiago, que a Igreja nunca reconheceu como inspirado.

E, no entanto, guardou os nomes. Não porque o documento seja confiável em tudo — não é —, mas porque a memória de que a Mãe do Senhor teve pai e mãe, casa e infância, é ela mesma parte da fé: Deus não entrou no mundo por um atalho. Entrou por uma família.

O que se celebra, quando se celebra um nascimento

Uma menina nasce numa casa qualquer da Palestina e ninguém, naquele dia, sabe de nada. Não há anjo à porta, não há estrela. Os vizinhos souberam que nascera uma filha, e foi só.

É essa a força da festa. O plano de Deus começou a virar carne num quarto sem testemunhas, num dia que ninguém anotou. Quando a Igreja canta que o nascimento dela anunciou a alegria ao mundo inteiro, está a dizer uma coisa que só se enxerga de trás para diante — e que talvez seja verdade também sobre o seu próprio dia de hoje, que lhe parece igual a todos os outros.

“Este é o começo da salvação; este é o dia em que a nossa alegria foi preparada.”— Santo André de Creta, Homilia sobre a Natividade da Virgem
“Maria concebeu primeiro na mente do que no ventre.”— Santo Agostinho
“Deus podia fazer um mundo melhor. Uma mãe melhor do que a Mãe de Deus, não podia.”— atribuído a São Boaventura

As orações do dia

A antífona Nativitas tua é cantada nesta festa desde a Idade Média. Repare no jogo que ela faz: o nascimento dela anuncia o nascimento d’Ele, como a aurora anuncia o sol.

Antífona · Nativitas tua
Latim

Natívitas tua, Dei Génetrix Virgo, gáudium annuntiávit univérso mundo: ex te enim ortus est sol iustítiæ, Christus Deus noster; qui solvens maledictiónem, dedit benedictiónem; et confúndens mortem, donávit nobis vitam sempitérnam.

Português

O vosso nascimento, ó Virgem Mãe de Deus, anunciou a alegria ao mundo inteiro: pois de vós nasceu o sol da justiça, Cristo nosso Deus; que, desfazendo a maldição, deu a bênção; e, confundindo a morte, deu-nos a vida eterna.

Amen.

E esta é a Coleta da Missa do dia — pede que a festa do nascimento dela faça crescer em nós a paz:

Coleta · Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria
Latim

Fámulis tuis, quæsumus, Dómine, cæléstis grátiæ munus impértire, ut, quibus beátæ Vírginis partus éxstitit salútis exórdium, Nativitátis eius votíva sollémnitas pacis tríbuat increméntum.

Português

Concedei, Senhor, aos vossos servos o dom da graça celeste, para que, àqueles para quem o parto da bem-aventurada Virgem foi o princípio da salvação, a solenidade votiva da sua Natividade lhes conceda aumento de paz.

Amen.

Sancta Maria, ora pro nobis. Santa Maria, rogai por nós — vós que começastes pequena, como todos nós começamos.

Continue rezando, neste site