
Hoje, 8 de setembro, a Igreja celebra a Natividade de Nossa Senhora. Repare numa coisa que passa despercebida: o calendário da Igreja está cheio de festas de santos, mas quase nenhuma celebra o dia em que eles nasceram. Celebra o dia em que morreram. São só três os nascimentos que entram no calendário — e a razão disso diz mais sobre esta festa do que qualquer elogio.
Por que a Igreja quase nunca celebra aniversários
A festa de um santo cai, quase sempre, no dia da sua morte. A Igreja antiga chamava a esse dia dies natalis — dia do nascimento. Não é ironia nem eufemismo: para quem morre em Cristo, o dia da morte é o dia em que se nasce de vez.
Nascer na terra, ao contrário, é nascer com o pecado original. Não há o que festejar num começo que já vem ferido. Por isso o calendário guarda silêncio sobre o aniversário de quase todos.
As três exceções são exatamente aquelas em que esse silêncio não faria sentido:
- O Natal do Senhor, 25 de dezembro. Deus feito homem, sem sombra de pecado.
- O nascimento de São João Batista, 24 de junho. Santificado ainda no ventre, quando saltou de alegria à chegada de Maria (Lc 1,44).
- A Natividade de Maria, 8 de setembro. Concebida sem pecado original, nasceu já cheia de graça.
Ou seja: a Igreja celebra o nascimento de Maria porque crê na Imaculada Conceição. As duas festas se sustentam uma à outra.
De onde vem o dia 8 de setembro
Quase todo mundo faz a conta ao contrário: 8 de dezembro é a Imaculada Conceição, e nove meses depois dá 8 de setembro. A conta fecha, mas historicamente foi o inverso — a festa do nascimento veio primeiro, e a da conceição foi contada para trás a partir dela.
A origem provável é a dedicação de uma basílica em Jerusalém, erguida no lugar que a tradição apontava como a casa de Joaquim e Ana, junto à piscina Probática — hoje a igreja de Santa Ana. A festa aparece no Oriente entre os séculos V e VI e chega a Roma no século VII, quando o papa Sérgio I a inclui entre as quatro festas marianas celebradas com procissão pela cidade.
Os nomes dos pais de Maria não estão na Escritura. Vêm de um escrito do século II, o Protoevangelho de Tiago, que a Igreja nunca reconheceu como inspirado.
E, no entanto, guardou os nomes. Não porque o documento seja confiável em tudo — não é —, mas porque a memória de que a Mãe do Senhor teve pai e mãe, casa e infância, é ela mesma parte da fé: Deus não entrou no mundo por um atalho. Entrou por uma família.
O que se celebra, quando se celebra um nascimento
Uma menina nasce numa casa qualquer da Palestina e ninguém, naquele dia, sabe de nada. Não há anjo à porta, não há estrela. Os vizinhos souberam que nascera uma filha, e foi só.
É essa a força da festa. O plano de Deus começou a virar carne num quarto sem testemunhas, num dia que ninguém anotou. Quando a Igreja canta que o nascimento dela anunciou a alegria ao mundo inteiro, está a dizer uma coisa que só se enxerga de trás para diante — e que talvez seja verdade também sobre o seu próprio dia de hoje, que lhe parece igual a todos os outros.
“Este é o começo da salvação; este é o dia em que a nossa alegria foi preparada.”— Santo André de Creta, Homilia sobre a Natividade da Virgem
“Maria concebeu primeiro na mente do que no ventre.”— Santo Agostinho
“Deus podia fazer um mundo melhor. Uma mãe melhor do que a Mãe de Deus, não podia.”— atribuído a São Boaventura
As orações do dia
A antífona Nativitas tua é cantada nesta festa desde a Idade Média. Repare no jogo que ela faz: o nascimento dela anuncia o nascimento d’Ele, como a aurora anuncia o sol.
Natívitas tua, Dei Génetrix Virgo, gáudium annuntiávit univérso mundo: ex te enim ortus est sol iustítiæ, Christus Deus noster; qui solvens maledictiónem, dedit benedictiónem; et confúndens mortem, donávit nobis vitam sempitérnam.
O vosso nascimento, ó Virgem Mãe de Deus, anunciou a alegria ao mundo inteiro: pois de vós nasceu o sol da justiça, Cristo nosso Deus; que, desfazendo a maldição, deu a bênção; e, confundindo a morte, deu-nos a vida eterna.
Amen.
E esta é a Coleta da Missa do dia — pede que a festa do nascimento dela faça crescer em nós a paz:
Fámulis tuis, quæsumus, Dómine, cæléstis grátiæ munus impértire, ut, quibus beátæ Vírginis partus éxstitit salútis exórdium, Nativitátis eius votíva sollémnitas pacis tríbuat increméntum.
Concedei, Senhor, aos vossos servos o dom da graça celeste, para que, àqueles para quem o parto da bem-aventurada Virgem foi o princípio da salvação, a solenidade votiva da sua Natividade lhes conceda aumento de paz.
Amen.
Sancta Maria, ora pro nobis. Santa Maria, rogai por nós — vós que começastes pequena, como todos nós começamos.
- O Santíssimo Nome de Maria — a festa do dia 12 e a batalha de Viena.
- Nossa Senhora das Dores — as sete dores, no dia 15.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.


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