
Hoje, 17 de setembro, a Igreja faz memória da Impressão das Chagas de São Francisco de Assis. Não é o aniversário de um santo nem o dia da sua morte: é a lembrança de uma manhã de 1224, no alto de um monte da Toscana, em que um homem entrou na oração como todos os outros dias e desceu de lá com o corpo marcado.
O monte, dois frades e uma quaresma
O lugar é o monte Alverne — La Verna, nos bosques do Casentino, na Toscana. Francisco subiu com frei Leão e frei Rufino, e não subiu para descansar: subiu para jejuar. Estava no meio de uma quaresma em honra de São Miguel Arcanjo, aquele jejum de quarenta dias que ele guardava entre a Assunção de Nossa Senhora e a festa dos Arcanjos.
A intenção é dele mesmo, e ficou registrada nas primeiras biografias:
Para honra de Deus, da bem-aventurada Virgem Maria e de São Miguel, Príncipe dos Anjos e das almas, quero fazer aqui uma quaresma.São Francisco, na Legenda Perusina, 93
São quarenta dias de jejum e oração, de 15 de agosto a 29 de setembro. Francisco guardava três quaresmas assim por ano, e todas no Alverne.
A escolha do arcanjo não é decorativa. A devoção antiga vê em São Miguel aquele a quem cabe conduzir as almas — e Francisco, que queria a salvação de todos os homens, foi jejuar nas mãos de quem tem esse ofício.
É esta a quaresma que a página inicial deste site acompanha dia a dia entre agosto e setembro. Hoje é o dia 29 de 40.
A visão do serafim
O relato mais antigo e mais conhecido é o de São Boaventura. Francisco rezava na encosta quando viu descer do céu uma figura alada que, ao aproximar-se, mostrou-se outra coisa:
Viu a imagem como de um Serafim de seis asas fúlgidas, coruscantes de fogo, que descia dos céus num voo célere, e, chegando junto dele, suspenso, se lhe mostrou não apenas Serafim, mas o divino Crucificado.São Boaventura, Legenda Menor — De Stigmatibus sacris
Boaventura descreve o que se passou dentro dele como duas coisas ao mesmo tempo, e não uma só: a alegria de ver Cristo tão familiarmente perto, e a dor de o ver pregado. Terminada a conversa — que ele chama de misteriosa e íntima —, a visão desapareceu. O que não desapareceu foi o corpo.
O que ficou no corpo
- As mãos. Os sinais dos cravos, com as cabeças salientes nas palmas e as pontas saindo do lado oposto.
- Os pés. Os mesmos sinais, no dorso e por baixo — o que lhe custou o passo pelo resto da vida.
- O lado direito. Uma chaga aberta, como rasgada por uma lança, de onde muitas vezes escorria sangue.
É de Boaventura também a frase que a arte cristã nunca mais largou: Francisco desceu do monte levando a figura do Crucificado não esculpida em pedra ou pintada em tábua ou tela, mas aberta na sua mesma carne pelo dedo do Deus vivo.
Ele tentou esconder as chagas enquanto pôde. Foi frei Leão quem lhe disse que aquilo era dom e que os irmãos precisavam saber.
14 ou 17 de setembro?
Vale dizer com franqueza: as fontes antigas não fixam o dia. Boaventura situa o acontecimento "por altura da festa da Exaltação da Santa Cruz" — isto é, em torno de 14 de setembro, a festa que a Igreja celebrou três dias atrás. Relatos modernos, sobretudo os do oitavo centenário em 2024, dão a data fechada: terça-feira, 17 de setembro de 1224.
O que é firme é o calendário da Igreja: o dia 17 de setembro foi concedido por Bento XI à Ordem dos Frades Menores para celebrar todos os anos a impressão das chagas. A festa é do dia 17; o acontecimento, as fontes situam entre a Exaltação da Cruz e esse dia.
A prova que sobreviveu: a chartula de frei Leão
Do próprio punho de Francisco restou um único pergaminho — a chartula que ele escreveu para frei Leão no Alverne, guardada até hoje em Assis. É o único autógrafo dele que a pesquisa reconhece como autêntico.
Décadas depois da morte do santo, já velho, Leão acrescentou ao pergaminho três linhas em tinta vermelha, contando o que tinha visto: a visão do serafim, as chagas, e que Francisco escreveu aquele texto para ele logo depois. Pediu-lhe que o trouxesse sempre consigo. Leão trouxe — pelo resto da vida.
Francisco é tido como a primeira pessoa a receber os estigmas. Boaventura diz o mesmo em linguagem do século XIII: foi "por singular privilégio nunca a ninguém até então concedido".
O reconhecimento veio depressa: canonizado dois anos depois de morrer, passou a ser chamado alter Christus, e as mãos chagadas entraram no brasão da Ordem, cruzadas com as de Cristo.
Summe, gloriose Deus, illumina tenebras cordis mei. Et da mihi fidem rectam, spem certam et caritatem perfectam, sensum et cognitionem, Domine, ut faciam tuum sanctum et verax mandatum.
Altíssimo, glorioso Deus, iluminai as trevas do meu coração. Dai-me fé reta, esperança certa e caridade perfeita, sentido e conhecimento, Senhor, para que eu cumpra o vosso santo e verdadeiro mandamento.
Amen.
E, porque o dia o pede, a invocação que atravessa estes quarenta dias: Sancte Michael Archangele, defende nos in proelio. São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate.
- Exaltação da Santa Cruz — a festa de 14 de setembro, junto da qual as fontes situam o Alverne.
- Nossa Senhora das Dores — quem ficou de pé junto da Cruz, no dia 15.
- O Terço das Sete Dores — passo a passo.
- Novena a São Padre Pio — as chagas voltam ao corpo de um frade, sete séculos depois.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.

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