
Hoje, 15 de setembro, a Igreja celebra Nossa Senhora das Dores — e a data não é um acaso. Ontem foi a Exaltação da Cruz. A Igreja põe as duas festas coladas de propósito: primeiro o madeiro, depois quem ficou de pé junto dele.
As sete dores
A devoção fixou sete momentos, e vale ler a lista devagar, porque só dois deles são o Calvário:
- I — A profecia de Simeão (Lc 2,34-35). Dita no Templo, sobre um bebê de quarenta dias: “uma espada trespassará a tua própria alma”.
- II — A fuga para o Egito (Mt 2,13-14). Sair de noite, com um recém-nascido, para um país estrangeiro.
- III — A perda do Menino no Templo (Lc 2,43-45). Três dias sem saber onde ele está.
- IV — O encontro a caminho do Calvário. Ela vê o que fizeram dele.
- V — A crucifixão. São João anota que estavam de pé junto à cruz (Jo 19,25).
- VI — O corpo descido nos seus braços.
- VII — O sepultamento. A pedra rolada, e depois um dia inteiro de nada.
Repare no que a lista faz: espalha a dor por uma vida inteira, em vez de a concentrar numa tarde. É por isso que ela é reconhecível — a maioria das pessoas carrega a sétima dor, a da espera sem notícia, muito mais vezes do que a quinta.
De onde vem a festa
A devoção é medieval e nasceu com a Ordem dos Servos de Maria — os servitas, fundados em Florença em 1233. Foram eles que compuseram a coroa das Sete Dores: sete grupos de sete Ave-Marias, um para cada dor.
Houve, durante séculos, duas celebrações: uma na sexta-feira antes do Domingo de Ramos e outra em setembro. Em 1913, São Pio X fixou a de setembro no dia 15, colada à Cruz do dia anterior; e em 1969 a reforma do calendário tirou a da Quaresma do calendário geral, por repetir a mesma festa.
Na sucessão tradicional das devoções mensais, setembro é o mês das Sete Dores de Nossa Senhora — como outubro é do Rosário e maio de Maria em geral.
Não é um preceito, é um costume; e é um costume que se cumpre com pouco: uma dor por semana, ao longo do mês, chega para se chegar ao dia 15 sabendo o que se comemora.
«Stabat» — o primeiro verbo
O hino Stabat Mater, do século XIII e atribuído a Jacopone da Todi, é cantado nesta memória. A palavra com que abre é a que carrega tudo: stabat — estava de pé.
Não desmaiada, não levada para casa por parentes bem-intencionados, não virada para o outro lado. De pé, onde dava para ver tudo. Há uma diferença entre suportar uma cruz e ficar de pé junto de uma: a primeira é feita a você; a segunda você escolhe.
Stabat Mater dolorósa iuxta crucem lacrimósa, dum pendébat Fílius. Cuius ánimam geméntem, contristátam et doléntem, pertransívit gládius.
Estava a Mãe dolorosa, junto à cruz, lacrimosa, enquanto pendia o Filho. Cuja alma, gemendo, contristada e sofrendo, uma espada trespassou.
Amen.
“Junto à cruz de Jesus estavam sua mãe e a irmã de sua mãe.”— João 19,25
“Também a tua alma será trespassada por uma espada.”— Lucas 2,35
“Ela ofereceu no Calvário aquele mesmo Filho que dera à luz em Belém.”— atribuído a Santo Alfonso de Ligório
A oração do dia
Deus, qui Fílio tuo in cruce exáltato compatiéntem Matrem astáre voluísti, da Ecclésiæ tuæ, ut, beátæ Vírginis cónsors in passióne effécta, Christi resurrectiónis partíceps esse mereátur.
Ó Deus, que quisestes que junto ao vosso Filho, elevado na cruz, estivesse de pé a Mãe compadecida, concedei à vossa Igreja que, associada à Virgem bem-aventurada na paixão, mereça ser participante da ressurreição de Cristo.
Amen.
Sancta Mater dolorosa, ora pro nobis. Nossa Senhora das Dores, rogai por nós — e alcançai-nos a graça de ficar de pé onde não podemos mudar nada.
- Como rezar o Terço das Sete Dores — o passo a passo, com uma meditação para cada dor.
- A Exaltação da Santa Cruz — a festa de ontem, dia 14.
- A Natividade de Nossa Senhora — o começo, no dia 8.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.


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