Mater Dolorosa, a Virgem das Dores, pintura de Ticiano
Mater Dolorosa, de Ticiano (c. 1554) — Museu do Prado, Madrid. Domínio público.

Hoje, 15 de setembro, a Igreja celebra Nossa Senhora das Dores — e a data não é um acaso. Ontem foi a Exaltação da Cruz. A Igreja põe as duas festas coladas de propósito: primeiro o madeiro, depois quem ficou de pé junto dele.

As sete dores

A devoção fixou sete momentos, e vale ler a lista devagar, porque só dois deles são o Calvário:

  • I — A profecia de Simeão (Lc 2,34-35). Dita no Templo, sobre um bebê de quarenta dias: “uma espada trespassará a tua própria alma”.
  • II — A fuga para o Egito (Mt 2,13-14). Sair de noite, com um recém-nascido, para um país estrangeiro.
  • III — A perda do Menino no Templo (Lc 2,43-45). Três dias sem saber onde ele está.
  • IV — O encontro a caminho do Calvário. Ela vê o que fizeram dele.
  • V — A crucifixão. São João anota que estavam de pé junto à cruz (Jo 19,25).
  • VI — O corpo descido nos seus braços.
  • VII — O sepultamento. A pedra rolada, e depois um dia inteiro de nada.

Repare no que a lista faz: espalha a dor por uma vida inteira, em vez de a concentrar numa tarde. É por isso que ela é reconhecível — a maioria das pessoas carrega a sétima dor, a da espera sem notícia, muito mais vezes do que a quinta.

De onde vem a festa

A devoção é medieval e nasceu com a Ordem dos Servos de Maria — os servitas, fundados em Florença em 1233. Foram eles que compuseram a coroa das Sete Dores: sete grupos de sete Ave-Marias, um para cada dor.

Houve, durante séculos, duas celebrações: uma na sexta-feira antes do Domingo de Ramos e outra em setembro. Em 1913, São Pio X fixou a de setembro no dia 15, colada à Cruz do dia anterior; e em 1969 a reforma do calendário tirou a da Quaresma do calendário geral, por repetir a mesma festa.

O mês inteiro é dela

Na sucessão tradicional das devoções mensais, setembro é o mês das Sete Dores de Nossa Senhora — como outubro é do Rosário e maio de Maria em geral.

Não é um preceito, é um costume; e é um costume que se cumpre com pouco: uma dor por semana, ao longo do mês, chega para se chegar ao dia 15 sabendo o que se comemora.

«Stabat» — o primeiro verbo

O hino Stabat Mater, do século XIII e atribuído a Jacopone da Todi, é cantado nesta memória. A palavra com que abre é a que carrega tudo: stabatestava de pé.

Não desmaiada, não levada para casa por parentes bem-intencionados, não virada para o outro lado. De pé, onde dava para ver tudo. Há uma diferença entre suportar uma cruz e ficar de pé junto de uma: a primeira é feita a você; a segunda você escolhe.

Stabat Mater · primeira estrofe
Latim

Stabat Mater dolorósa iuxta crucem lacrimósa, dum pendébat Fílius. Cuius ánimam geméntem, contristátam et doléntem, pertransívit gládius.

Português

Estava a Mãe dolorosa, junto à cruz, lacrimosa, enquanto pendia o Filho. Cuja alma, gemendo, contristada e sofrendo, uma espada trespassou.

Amen.

“Junto à cruz de Jesus estavam sua mãe e a irmã de sua mãe.”— João 19,25
“Também a tua alma será trespassada por uma espada.”— Lucas 2,35
“Ela ofereceu no Calvário aquele mesmo Filho que dera à luz em Belém.”— atribuído a Santo Alfonso de Ligório

A oração do dia

Coleta · Nossa Senhora das Dores
Latim

Deus, qui Fílio tuo in cruce exáltato compatiéntem Matrem astáre voluísti, da Ecclésiæ tuæ, ut, beátæ Vírginis cónsors in passióne effécta, Christi resurrectiónis partíceps esse mereátur.

Português

Ó Deus, que quisestes que junto ao vosso Filho, elevado na cruz, estivesse de pé a Mãe compadecida, concedei à vossa Igreja que, associada à Virgem bem-aventurada na paixão, mereça ser participante da ressurreição de Cristo.

Amen.

Sancta Mater dolorosa, ora pro nobis. Nossa Senhora das Dores, rogai por nós — e alcançai-nos a graça de ficar de pé onde não podemos mudar nada.

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