
Hoje, 14 de setembro, a Igreja celebra a Exaltação da Santa Cruz. Vale medir a estranheza da palavra antes de tudo. Exaltar quer dizer levantar bem alto, pôr à vista. E o que se levanta é um instrumento de tortura — a forca mais humilhante que Roma sabia usar, reservada a escravos e sediciosos. Ninguém, no século I, penduraria uma ao pescoço.
326: Helena em Jerusalém
A tradição situa em 326 a viagem de Santa Helena, mãe do imperador Constantino, à Terra Santa, e a descoberta da Cruz sob o templo pagão que Adriano mandara erguer sobre o Calvário para apagar a memória do lugar. O aterro que devia enterrar a lembrança acabou por a conservar.
335: a data que ficou
A festa, porém, não nasce da descoberta: nasce de uma dedicação de igreja. Em 13 e 14 de setembro de 335 foram consagradas as basílicas construídas por Constantino sobre o Calvário e o sepulcro — o Martyrium e a Anástasis.
No segundo dia, a relíquia foi erguida diante do povo pelo bispo, para que todos a vissem. Foi esse gesto — o levantar da Cruz à vista da multidão — que deu nome à festa e a data que guardamos até hoje.
Em 614 os persas de Cosroes II saquearam Jerusalém e levaram a relíquia. Quinze anos depois, o imperador Heráclio venceu-os e trouxe-a de volta.
Conta-se que quis carregá-la ele mesmo pela Via Dolorosa, de púrpura e coroa — e que não conseguiu dar um passo. O patriarca Zacarias tê-lo-á advertido de que aquele peso não combinava com aquele traje. Heráclio despiu a púrpura, tirou a coroa e os sapatos, e então levou a Cruz.
A cena talvez tenha crescido na boca de quem a contou. Mas o que ela ensina é exato, e é o que a festa inteira diz: a Cruz não se carrega de coroa na cabeça.
Por que a Igreja se gloria de uma forca
- Porque foi ali que a dívida foi paga. A Cruz não é venerada como madeira: é venerada como o lugar onde aconteceu o que aconteceu.
- Porque São Paulo já o dizia. “Quanto a mim, não aconteça eu gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14) — o versículo de onde vem a antífona de hoje.
- Porque muda o sinal de tudo o que dói. Depois do Calvário, nenhum sofrimento é apenas desperdício. Isto não torna a dor menor; torna-a habitável.
- Porque amanhã é dela. A Igreja põe Nossa Senhora das Dores no dia 15, colada a esta festa, de propósito. Primeiro a Cruz; depois quem ficou de pé junto dela.
O hino que se canta há mil e quinhentos anos
Por volta de 569, uma relíquia da Cruz chegou a Poitiers, enviada a Santa Radegunda. Para a receber, Venâncio Fortunato escreveu dois hinos — o Vexilla Regis e o Pange lingua gloriosi proelium certaminis. A estrofe abaixo é deste segundo, e a Igreja canta-a na Sexta-feira Santa e nesta festa.
Crux fidélis, inter omnes arbor una nóbilis: nulla silva talem profert, fronde, flore, gérmine. Dulce lignum, dulces clavos, dulce pondus sústinet.
Ó Cruz fiel, árvore única em nobreza entre todas: nenhuma floresta produziu semelhante, em folha, em flor, em fruto. Doce madeiro, doces cravos, doce peso ele sustenta.
Amen.
“Quanto a mim, não aconteça eu gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.”— Gálatas 6,14
“Ó Cruz, única esperança nossa.”— Vexilla Regis, Venâncio Fortunato
“A Cruz é a escola do amor.”— atribuído a São Máximo de Turim
A antífona do dia
Nos autem gloriári opórtet in cruce Dómini nostri Iesu Christi: in quo est salus, vita et resurréctio nostra; per quem salváti et liberáti sumus.
Nós, porém, devemos gloriar-nos na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo: nele está a nossa salvação, a nossa vida e a nossa ressurreição; por ele fomos salvos e libertados.
Amen.
Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi, quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum. Adoramos-vos, ó Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa santa cruz remistes o mundo.
- O Santíssimo Nome de Maria — no dia 12.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.


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