São Jerônimo escrevendo, pintura de Caravaggio
São Jerônimo escrevendo, de Caravaggio (1605–1606) — Galeria Borghese, Roma. Domínio público.

Hoje, 30 de setembro, a Igreja celebra São Jerônimo (c. 347–420), presbítero e Doutor da Igreja. Se você alguma vez ouviu uma leitura na Missa, ouviu o trabalho dele por trás. Traduziu do hebraico quase todo o Antigo Testamento e revisou do grego os Evangelhos, numa gruta em Belém — e a Igreja leu, cantou e rezou com aquela tradução durante mais de mil e quinhentos anos.

No calendário, é memória obrigatória. Jerônimo é um dos quatro grandes Doutores da Igreja latina, ao lado de Santo Ambrósio, Santo Agostinho e São Gregório Magno — os quatro que o papa Bonifácio VIII honrou juntos em 1298. É padroeiro dos tradutores, dos bibliotecários e de quem estuda a Bíblia; e, por causa dele, as Nações Unidas fizeram do 30 de setembro o Dia Internacional da Tradução.

O sonho de Antioquia

Nasceu em Estridão, na fronteira da Dalmácia, por volta de 347. Estudou em Roma com os melhores mestres e se apaixonou pelos clássicos latinos — sobretudo por Cícero, cuja prosa ele conhecia de cor.

Por volta de 375, doente e febril em Antioquia, teve o sonho que ele mesmo contou numa carta famosa (Ep. XXII, a Eustóquio). Viu-se arrastado diante do tribunal de Deus. Perguntaram-lhe quem era. Respondeu: cristão. E ouviu a resposta que lhe rachou a vida ao meio:

“Mentes. És ciceroniano, não cristão: onde está o teu tesouro, aí está o teu coração.”

Acordou com a decisão tomada. Foi para o deserto de Cálcis, na Síria, viver como eremita — e ali, entre jejuns, fez uma coisa muito pouco romântica e que mudaria a história da Bíblia: começou a aprender hebraico com um judeu convertido. Odiou cada minuto. Escreveu que trocara a elegância do latim pelo “silvo áspero” daquelas consoantes. Não desistiu.

A Vulgata

Em 382 foi para Roma como secretário do papa São Dâmaso I, que lhe encomendou uma tarefa enorme: pôr ordem nas versões latinas da Escritura, que circulavam em cópias divergentes e às vezes péssimas. Começou pelos Evangelhos.

Depois da morte de Dâmaso, e com Roma hostil, partiu para a Terra Santa. Fixou-se em Belém em 386, ao lado da gruta da Natividade, e ali ficou até morrer, trinta e quatro anos depois.

  • Traduziu do original. A grande decisão de Jerônimo foi ir ao hebraico em vez de traduzir a tradução grega, como todos faziam. Deu a isso o nome de hebraica veritas — a verdade hebraica. Santo Agostinho lhe escreveu preocupado com o escândalo que isso causaria nas paróquias. Jerônimo não recuou.
  • Quase toda, não toda. Entre 390 e 405 traduziu do hebraico os livros do Antigo Testamento; o Novo, ele revisou. Alguns livros ficaram na versão latina antiga, e os Salmos que a Igreja cantou por séculos no Ofício são outra versão dele, feita a partir do grego — o Saltério galicano. Mesmo assim, a Vulgata é, no essencial, obra de um homem só.
  • Com ajuda. O trabalho foi sustentado por Santa Paula e pela filha dela, Santa Eustóquio, romanas nobres que venderam o que tinham, foram para Belém e financiaram os manuscritos e os copistas.
  • Quinze séculos. A versão ficou conhecida como Vulgata — a “divulgada”, a de uso comum. O Concílio de Trento a declarou autêntica em 1546. Só em 1979 a Igreja publicou a sua revisão, a Nova Vulgata, que é hoje a edição típica latina.
  • Comentou o que traduziu. Escreveu comentários a quase toda a Escritura, cartas às centenas e polêmicas ferozes contra tudo o que lhe parecia erro.

Morreu em Belém a 30 de setembro de 420. A tradição diz que os seus restos foram levados mais tarde para Roma e repousam na basílica de Santa Maria Maior — perto do presépio, de novo.

O gênio difícil, e o leão

Jerônimo não era simpático e não fingia ser. As cartas dele estão cheias de sarcasmo; brigou com Rufino, que fora amigo de infância, e não poupou ninguém. Ele mesmo sabia disso: pediu perdão, mais de uma vez, pela língua.

A lenda do leão — o que ele teria curado tirando um espinho da sua pata, e que ficou morando no mosteiro — é medieval, e provavelmente veio de uma confusão com outro santo. A Igreja nunca a ensinou como fato. Ficou na pintura porque diz uma verdade sobre ele: um homem de temperamento leonino, domesticado pela Palavra.

A frase que ficou

Está no prólogo do comentário dele ao profeta Isaías — o texto que a Igreja lê hoje no Ofício de Leitura — e é a frase pela qual é lembrado:

«Ignoratio Scripturárum…»
Latim

Ignorátio Scripturárum ignorátio Christi est.

Português

Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo.

— São Jerônimo, prólogo ao Comentário a Isaías

Não é uma frase sobre erudição. É sobre conhecer alguém. Ele passou trinta e quatro anos numa gruta traduzindo palavra por palavra porque estava convencido de que, do outro lado daquele texto, havia uma Pessoa — e que quem não abre o livro fica sem conhecê-la.

O que a Igreja disse dele

Poucos santos foram citados tantas vezes pelos papas e pelos concílios, e quase sempre pelo mesmo motivo: ele é o homem que ensina a Igreja a ler.

  • O Concílio Vaticano II pôs a frase dele no coração da Dei Verbum, a constituição sobre a Revelação (n. 25): o Concílio exorta todos os fiéis a aprender, pela leitura frequente das divinas Escrituras, “a sublime ciência de Jesus Cristo”, “porque ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo”. O Catecismo repete a mesma citação (n. 133).
  • Bento XV, nos 1.500 anos da sua morte, dedicou a ele uma encíclica inteira, a Spiritus Paraclitus (1920), sobre a inspiração e a leitura da Bíblia.
  • Bento XVI falou dele em duas catequeses das quartas-feiras, em novembro de 2007, e resumiu a lição: devemos aprender com Jerônimo a amar a Palavra de Deus e a lê-la em diálogo pessoal com Ele.
  • O papa Francisco escolheu duas vezes o dia de hoje. Em 30 de setembro de 2019 assinou a Aperuit illis, que instituiu o Domingo da Palavra de Deus, celebrado no 3º domingo do Tempo Comum. E em 30 de setembro de 2020, nos 1.600 anos da morte de Jerônimo, publicou a carta Scripturae Sacrae affectus — cujo título é tirado da própria coleta da Missa de hoje.
Meia hora com o livro

A Igreja chega a premiar a leitura. O Manual das Indulgências concede indulgência plenária a quem lê a Sagrada Escritura com a veneração devida à palavra de Deus, como leitura espiritual, durante ao menos meia hora — com as condições de sempre: confissão, comunhão, oração pelas intenções do Papa e nenhum apego ao pecado. Para quem não lê a Bíblia, hoje é o dia de começar; para quem já lê, é o dia de fazer isso com essa intenção.

Como ele ensinava a ler

Jerônimo não deixou um método; deixou conselhos, espalhados pelas cartas, a monges, a mães de família, a jovens padres. Todos dizem a mesma coisa: a Bíblia não é para consultar, é para conviver com ela.

  • Ao jovem padre Nepociano: “Lê com frequência as divinas Escrituras; mais ainda, que a leitura sagrada nunca saia das tuas mãos” (Carta LII).
  • A Eustóquio: “Que o sono te surpreenda com o livro na mão, e que a página santa ampare o teu rosto quando ele cair” (Carta XXII).
  • Ao monge Rústico: “Ama a ciência das Escrituras, e não amarás os vícios da carne” (Carta CXXV).

As leituras da Missa de hoje dizem o mesmo. Na primeira, São Paulo lembra a Timóteo que desde criança ele conhece as Sagradas Letras, e que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça” (2Tm 3,14-17). No Evangelho, Jesus fala do escriba que se tornou discípulo do Reino, “semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13,52). É difícil não ouvir de novo o sonho de Antioquia: o tesouro dele mudou de lugar, e dali tirou coisas novas e velhas até o fim.

A oração da Missa de hoje

A coleta pede exatamente o que a vida dele foi: gosto vivo pela Escritura, e nela uma fonte.

Coleta · Memória de São Jerônimo
Latim

Deus, qui beáto Hierónymo presbýtero suávem et vivum Scriptúræ Sacræ afféctum tribuísti, da, ut pópulus tuus verbo tuo ubérius alátur, et in eo fontem vitæ invéniat. Per Dóminum nostrum Iesum Christum Fílium tuum, qui tecum vivit et regnat in unitáte Spíritus Sancti, Deus, per ómnia sæcula sæculórum.

Português

Ó Deus, que concedestes ao presbítero São Jerônimo um amor suave e vivo pela Sagrada Escritura, fazei que o vosso povo se alimente mais abundantemente da vossa palavra e nela encontre a fonte da vida. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.

Amen.

A antiga oração da festa

Até 1969, o Missal lhe dava outro título, que diz tudo: Doctor maximus, o “Doutor Máximo” na explicação das Sagradas Escrituras. A coleta antiga não pede só amor à Bíblia — pede que façamos o que ele ensinou “com a boca e com as obras”.

Coleta antiga · Missal Romano, 30 de setembro
Latim

Deus, qui Ecclésiæ tuæ in exponéndis sacris Scriptúris beátum Hierónymum Confessórem tuum, Doctórem máximum provídere dignátus es: præsta, quæsumus; ut, eius suffragántibus méritis, quod ore simul et ópere dócuit, te adiuvánte, exercére valeámus. Per Dóminum nostrum Iesum Christum Fílium tuum, qui tecum vivit et regnat in unitáte Spíritus Sancti, Deus, per ómnia sæcula sæculórum.

Português

Ó Deus, que vos dignastes dar à vossa Igreja o bem-aventurado Jerônimo, vosso confessor, como Doutor Máximo na explicação das Sagradas Escrituras, concedei-nos, vos pedimos, que, ajudados pelos seus méritos e com o vosso auxílio, possamos pôr em prática o que ele ensinou com a boca e com as obras. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.

Amen.

Uma oração de São Jerônimo

A tradição devocional guarda uma oração atribuída a ele. Não se sabe em que obra está, e não tem original latino conhecido; mas é inteiramente dele no tom: um homem que conhecia de cor as parábolas do Evangelho e se reconhecia nos dois feridos delas — o homem assaltado no caminho de Jericó e a ovelha perdida.

Oração atribuída a São Jerônimo

Senhor, mostrai-me a vossa misericórdia e alegrai o meu coração. Sou como o homem que descia para Jericó e caiu nas mãos dos ladrões, ferido e deixado meio morto: ó Bom Samaritano, vinde em meu socorro. Sou como a ovelha que se desgarrou: ó Bom Pastor, procurai-me e trazei-me de volta para casa, segundo a vossa vontade. Fazei que eu habite na vossa casa todos os dias da minha vida, e vos louve para sempre com os que lá estão.

Amém.

Antes de abrir a Bíblia

E, para quem quiser seguir o conselho dele hoje mesmo, um verso do Salmo 118(119), na Vulgata que ele deixou — para rezar antes de ler:

Salmo 118,18 · Vulgata
Latim

Revéla óculos meos, et considerábo mirabília de lege tua.

Português

Abri os meus olhos, e contemplarei as maravilhas da vossa lei.

Amen.

“Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo.”— São Jerônimo, prólogo ao Comentário a Isaías
“És ciceroniano, não cristão: onde está o teu tesouro, aí está o teu coração.”— a voz do sonho, Carta XXII
“Lê com frequência as divinas Escrituras; mais ainda, que a leitura sagrada nunca saia das tuas mãos.”— São Jerônimo, Carta LII
“Ama a ciência das Escrituras, e não amarás os vícios da carne.”— São Jerônimo, Carta CXXV

Sancte Hieronyme, ora pro nobis. São Jerônimo, rogai por nós — e alcançai-nos abrir o livro que temos em casa e nunca abrimos.

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