
Hoje, 1º de outubro, a Igreja celebra Santa Teresinha do Menino Jesus, virgem e doutora da Igreja. Morreu em 30 de setembro de 1897, aos vinte e quatro anos, num convento de Lisieux de que quase ninguém ouvira falar — e cem anos depois um papa a declarou doutora da Igreja universal. Quem lê o que ela escreveu entende por quê: em vez de um sistema, deixou uma frase de menina, “a minha vocação é o Amor”.
Uma vida curta e escondida
Nasceu em Alençon, na Normandia, em 2 de janeiro de 1873, e entrou no Carmelo de Lisieux em 9 de abril de 1888, aos quinze anos. Dali não saiu mais. Por fora, nada chamava atenção: uma jovem carmelita entre as outras.
O que ficou foi o que ela escreveu por obediência: três manuscritos, dirigidos à sua irmã Paulina (a madre Inês de Jesus), à irmã Maria e à priora. Reunidos, saíram em 1898 com o título História de uma alma. Pio XI a canonizou em 17 de maio de 1925 e a fez, em 14 de dezembro de 1927, padroeira das missões, ao lado de São Francisco Xavier — ela, que viveu toda a vida adulta atrás da clausura. São João Paulo II a proclamou doutora da Igreja em 19 de outubro de 1997.
A pequena via
O centro do seu ensinamento está no último manuscrito, redigido no verão de 1897. Ela se sentia pequena demais para “a rude escada da perfeição” e, como não podia crescer, foi procurar nas Escrituras outro caminho. Achou duas frases: “Se alguém é pequenino, venha a mim” (Pr 9,4, na Vulgata) e a promessa de Isaías de que Deus consola como uma mãe que carrega o filho ao colo (Is 66,12-13). Daí a conclusão, tão simples que desarma:
“O elevador que deve me levar ao Céu são os vossos braços, ó Jesus! Para isso não preciso crescer; ao contrário, é preciso que eu continue pequena, que me torne cada vez mais.” (Manuscrito C, folio 3 recto)
São João Paulo II, na carta apostólica em que a proclamou doutora, chamou essa via de “o caminho evangélico da santidade para todos”.
- Aceitar-se pequena. “Crescer é impossível; devo suportar-me tal como sou, com todas as minhas imperfeições”, escreve ela. A santidade não começa pelo esforço de ser outra pessoa.
- Confiar em vez de contar méritos. No Ato de Oferecimento, ela declara que comparecerá diante de Deus “de mãos vazias”.
- Fazer do amor a vocação. Em setembro de 1896 escreveu que, no coração da Igreja, seria o Amor — e que assim seria tudo.
- Continuar depois da morte. Suas irmãs anotaram que ela prometera passar o céu fazendo o bem sobre a terra. Daí a imagem das rosas, que a devoção popular lhe atribui.
9 de junho de 1895: o Ato de Oferecimento
Era o domingo da Santíssima Trindade. Teresinha escreveu depois: “recebi a graça de compreender mais do que nunca quanto Jesus deseja ser amado”. Ela pensava nas almas que se oferecem como vítimas à Justiça de Deus, e perguntou ao Senhor se só a Justiça receberia essas ofertas: “o vosso Amor Misericordioso não precisa delas também?” Depois da Missa, segundo o relato de sua irmã Celina, levou-a à priora, que era então a madre Inês, e pediu licença para que as duas se oferecessem como vítimas ao Amor Misericordioso. A licença veio, embora a madre não entendesse muito bem do que se tratava.
Em dois dias ela pôs o texto no papel. Na terça-feira, 11 de junho, as duas irmãs se ajoelharam diante da estátua da Virgem do Sorriso, junto da cela de Teresinha, e ela leu a oração em voz alta.
O centro do texto é o pedido de ser consumida pelo Amor. E ela o levou a sério: escreveu à madre Inês que, desde aquele dia, “o Amor me penetra e me envolve, a cada instante esse Amor Misericordioso me renova e purifica a minha alma” (Manuscrito A, folio 84 verso).
A imagem que abre esta página é um recorte de uma foto de grupo, tirada no pátio do Carmelo na segunda-feira de Páscoa, 15 de abril de 1895, por Celina, irmã de Teresinha, que entrara no Carmelo em 1894 e levara consigo uma máquina fotográfica.
É a ela que se devem as fotografias autênticas de Teresinha, até a última, de 30 de agosto de 1897, um mês antes da morte.
“Enfim encontrei a minha vocação: a minha vocação é o Amor!… No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o Amor.”— Santa Teresinha, Manuscrito B, folio 3 verso (setembro de 1896)
“O elevador que deve me levar ao Céu são os vossos braços, ó Jesus!”— Santa Teresinha, Manuscrito C, folio 3 recto (1897)
“Quero passar o meu céu fazendo o bem sobre a terra.”— Santa Teresinha, segundo as anotações das irmãs (17 de julho de 1897) — frase registrada por testemunhas, não escrita por ela
As orações
O Ato de Oferecimento é a oração que não pode faltar neste dia. Vão abaixo dois trechos do texto de 1895, em francês, com tradução para o português; o Ato completo está em qualquer edição da História de uma alma.
O mon Dieu ! Trinité bienheureuse, je désire vous aimer et vous faire aimer, travailler à la glorification de la sainte Église, en sauvant les âmes qui sont sur la terre et en délivrant celles qui souffrent dans le purgatoire. Je désire accomplir parfaitement votre volonté et arriver au degré de gloire que vous m’avez préparé dans votre royaume ; en un mot, je désire être sainte, mais je sens mon impuissance et je vous demande, ô mon Dieu, d’être vous-même ma sainteté.
[…]
Au soir de cette vie, je paraîtrai devant vous les mains vides, car je ne vous demande pas, Seigneur, de compter mes œuvres. Toutes nos justices ont des taches à vos yeux. Je veux donc me revêtir de votre propre Justice et recevoir de votre Amour la possession éternelle de Vous-même. Je ne veux point d’autre Trône et d’autre Couronne que Vous, ô mon Bien-Aimé !
Ó meu Deus, Trindade bem-aventurada, desejo amar-vos e fazer-vos amar, trabalhar pela glorificação da santa Igreja, salvando as almas que estão na terra e libertando as que sofrem no purgatório. Desejo cumprir perfeitamente a vossa vontade e chegar ao grau de glória que me preparastes no vosso reino; numa palavra, desejo ser santa, mas sinto a minha impotência e peço-vos, ó meu Deus, que sejais vós mesmo a minha santidade.
[…]
Ao entardecer desta vida, comparecerei diante de vós de mãos vazias, pois não vos peço, Senhor, que conteis as minhas obras. Todas as nossas justiças têm manchas aos vossos olhos. Quero, pois, revestir-me da vossa própria Justiça e receber do vosso Amor a posse eterna de vós mesmo. Não quero outro Trono nem outra Coroa que não sejais vós, ó meu Bem-Amado!
…
Afin de vivre dans un acte de parfait Amour, je m’offre comme victime d’holocauste à votre Amour miséricordieux, vous suppliant de me consumer sans cesse, laissant déborder en mon âme les flots de tendresse infinie qui sont renfermés en vous, et qu’ainsi je devienne martyre de votre Amour, ô mon Dieu !
[…]
Je veux, ô mon Bien-Aimé, à chaque battement de mon cœur, vous renouveler cette offrande un nombre infini de fois, jusqu’à ce que, les ombres s’étant évanouies, je puisse vous redire mon Amour dans un Face à Face éternel !
Para viver num ato de perfeito Amor, ofereço-me como vítima de holocausto ao vosso Amor misericordioso, suplicando-vos que me consumais sem cessar, deixando transbordar em minha alma as ondas de ternura infinita que estão encerradas em vós, e que assim eu me torne mártir do vosso Amor, ó meu Deus!
[…]
Quero, ó meu Bem-Amado, a cada batida do meu coração, renovar-vos esta oferta um número infinito de vezes, até que, dissipadas as sombras, eu possa repetir-vos o meu Amor num Face a Face eterno!
— Maria Francisca Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, carmelita indigna. Festa da Santíssima Trindade, 9 de junho de 1895.
Sancta Teresia a Iesu Infante, ora pro nobis. Santa Teresinha, rogai por nós — e ensinai-nos a ser pequenos.
- Novena a Santa Teresinha — nove dias com a santa das rosas.
- Santos Anjos da Guarda — amanhã, dia 2.
- São Francisco de Assis — o Cântico das Criaturas, no dia 4.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.

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