O Anjo da Guarda, pintura de Guercino: um anjo alado de olhos no céu conduz pela mão um menino que reza
O Anjo da Guarda, de Guercino (1641) — Pinacoteca Civica, Fano. Domínio público.

Hoje, 2 de outubro, a Igreja celebra os Santos Anjos da Guarda. Em Fano, na Itália, há um quadro de 1641 em que um anjo enorme, com os olhos postos no céu, segura pelas mãos um menino que reza. Nada mais é preciso para entender a festa de hoje: ela diz, em palavras, o que o quadro diz em cor — que ninguém caminha só.

O que diz a Escritura

A Bíblia não tem um tratado sobre o anjo da guarda, mas a ideia atravessa os textos. Deus promete ao seu povo: “Eis que eu enviarei o meu anjo, que vá adiante de ti e te guarde no caminho” (Ex 23,20). O salmista canta: “Aos seus anjos deu ordem a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos” (Sl 90,11). E Jesus, falando dos pequeninos: “os seus anjos, nos céus, veem sempre a face de meu Pai” (Mt 18,10).

No livro de Tobias, o arcanjo Rafael faz uma longa viagem ao lado do jovem Tobias sem que ele saiba quem é o companheiro. E quando Pedro, solto da prisão por um anjo, bate à porta da casa onde os irmãos rezavam, ninguém acredita na criada que o anunciou. Dizem: “É o anjo dele” (At 12,15). Muitos veem aí um sinal de que, entre os primeiros cristãos, era natural pensar que cada um tem o seu.

As citações bíblicas acima são traduzidas da Vulgata.

O que ensina a Igreja

O Catecismo resume assim: “Da infância até a morte, a vida humana é cercada pelo cuidado vigilante e pela intercessão deles. ‘Ao lado de cada fiel está um anjo, como protetor e pastor, para conduzi-lo à vida.’” (n. 336). A frase entre aspas simples é de São Basílio Magno (Contra Eunômio, III, 1).

São Jerônimo, por sua vez, comentou a passagem de Mateus com uma frase que São Tomás de Aquino cita na Suma Teológica (I, q. 113, a. 2) para concluir que cada homem tem um anjo da guarda: “Grande é a dignidade das almas, pois cada uma tem, desde o nascimento, um anjo delegado para guardá-la.”

  • Cada pessoa tem o seu. É a conclusão de Jerônimo e de Tomás, e é o que a piedade da Igreja sempre rezou.
  • Da infância à morte. O Catecismo não põe prazo: a vigilância dos anjos acompanha a vida inteira.
  • Sempre diante de Deus. Segundo Jesus, os anjos dos pequeninos veem sem cessar a face do Pai. Guardar e contemplar não se excluem.
  • Protetor e pastor. Basílio junta as duas imagens: o anjo defende e conduz. A Coleta da memória pede as duas coisas, ser defendido e chegar à companhia eterna.

Como a festa entrou no calendário

Esta é uma festa mais recente do que se costuma imaginar. Ela não estava no breviário de São Pio V (1568); entrou primeiro em igrejas locais, como Valência, que obteve aprovação em 1582 para um ofício dos Anjos da Guarda. No início do século XVII, Paulo V a inscreveu no calendário geral, ainda facultativa (as fontes dão 1607 ou 1608). Em 1670, Clemente X a tornou obrigatória para toda a Igreja, em 2 de outubro: o primeiro dia livre depois da festa de São Miguel, de que se acredita ter sido pensada como complemento.

Leão XIII elevou o seu grau em 1883. Hoje é memória obrigatória no Calendário Romano Geral. Em 2 de outubro de 1795, por sinal, Pio VI concedeu indulgência a quem rezasse com devoção a oração Angele Dei, que está mais abaixo.

O quadro de Fano

O Anjo da Guarda de Guercino foi encomendado por Vincenzo Nolfi, magistrado e autor de teatro de Fano, para um altar da igreja de Sant’Agostino. O livro de contas do pintor registra o pagamento em 12 de outubro de 1641. A tela, de quase três metros de altura, ficou no altar até 1944, quando foi retirada para escapar dos bombardeios que atingiram a cidade.

O menino apoia o pé num cubo de pedra, que a crítica lê como imagem de firmeza na fé, em contraste com a paisagem escura à esquerda. O quadro fez o poeta inglês Robert Browning, depois de vê-lo em 1848, escrever um poema que começa assim: “Dear and great Angel, wouldst thou only leave / That child, when thou hast done with him, for me!” — “Querido e grande Anjo, se ao menos deixasses esse menino, quando terminares com ele, para mim!”

“Grande é a dignidade das almas, pois cada uma tem, desde o nascimento, um anjo delegado para guardá-la.”— São Jerônimo, comentário a Mateus 18,10, citado por São Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 113, a. 2
“Ao lado de cada fiel está um anjo, como protetor e pastor, para conduzi-lo à vida.”— São Basílio Magno, Contra Eunômio III, 1, citado no Catecismo da Igreja Católica, n. 336
“Aos seus anjos deu ordem a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos.”— Salmo 90,11

As orações

A oração que não pode faltar é o Angele Dei, curta e muito usada com as crianças. É tradicional e de autor incerto. Depois dela, a Coleta da memória de hoje, em latim e português.

Angele Dei · ao Anjo da Guarda · tradicional
Latim

Angele Dei, qui custos es mei, me tibi commíssum pietáte supérna, illúmina, custódi, rege et gúberna.

Português

Anjo de Deus, que sois o meu guardião, a quem a bondade divina me confiou: iluminai-me, guardai-me, regei-me e governai-me.

Amém.

Coleta · Memória dos Santos Anjos da Guarda
Latim

Deus, qui ineffábili providéntia sanctos Angelos tuos ad nostram custódiam míttere dignáris: largíre supplícibus tuis; et eórum semper protectióne deféndi, et ætérna societáte gaudére.

Português

Ó Deus, que na vossa inefável providência vos dignais enviar os vossos santos Anjos para a nossa guarda: concedei aos que vos suplicam serem sempre defendidos pela proteção deles e gozarem da sua companhia eterna.

Por nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

Sancti Angeli Custodes, orate pro nobis. Santos Anjos da Guarda, rogai por nós — e não nos deixeis largar a vossa mão.

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