
Hoje, 29 de setembro, a Igreja celebra os Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael. São os três únicos anjos que a Escritura chama pelo nome — e nenhum desses nomes é enfeite. Cada um é uma frase inteira em hebraico, e diz o que aquele anjo faz.
No calendário da Igreja, hoje não é uma simples memória: é festa, um grau acima. A Missa tem Glória, leituras e oração próprias, e quem reza a Liturgia das Horas lê no Ofício de Leitura uma homilia de São Gregório Magno escrita justamente para explicar quem são estes três.
Três nomes, três frases
- Miguel — Mi-ka-El, “Quem é como Deus?” Repare que é uma pergunta, não um título. É o grito que desfaz toda soberba, e é a arma inteira da história: o arcanjo não vence por ser mais forte, vence por perguntar quem é Deus e saber a resposta. Aparece em Daniel, na Carta de São Judas e no Apocalipse 12,7.
- Gabriel — Gabri-El, “força de Deus”. É o mensageiro. Explica a visão a Daniel, anuncia a Zacarias o nascimento de João, e leva a Nazaré a pergunta de que depende tudo (Lc 1,26-38).
- Rafael — Rafa-El, “Deus cura”. É o companheiro de estrada do livro de Tobias: caminha com o rapaz, lhe arranja casamento, cura a cegueira do pai e só no fim diz quem é.
O que a Igreja ensina sobre os anjos
A existência dos anjos não é devoção opcional nem imagem poética. O Catecismo da Igreja Católica diz que ela é uma verdade de fé (n. 328): o testemunho da Escritura é tão claro quanto a unanimidade da Tradição. Já em 1215, o IV Concílio de Latrão professava que Deus criou do nada, desde o princípio do tempo, as duas criaturas, “a espiritual e a corporal, isto é, a angélica e a do mundo”.
- Espíritos puros. São criaturas puramente espirituais, com inteligência e vontade: “criaturas pessoais e imortais”, que superam em perfeição todas as criaturas visíveis (CIC 330).
- Nome de ofício. O Catecismo (n. 329) cita Santo Agostinho: “‘Anjo’ é nome de ofício, não de natureza. Se perguntas pelo nome da natureza, é espírito; se perguntas pelo ofício, é anjo.”
- De Cristo. “Cristo é o centro do mundo angélico” (CIC 331). Os anjos foram criados por Ele e para Ele (Cl 1,16), e estão presentes em toda a Sua vida: no anúncio a Maria, no canto de Belém, no deserto, na agonia do Horto, no sepulcro vazio e na Ascensão.
- Conosco. “Desde o início até a morte, a vida humana é cercada pela sua proteção e intercessão” (CIC 336). E o Catecismo lembra São Basílio: cada fiel tem a seu lado um anjo como protetor e pastor, para conduzi-lo à vida.
Por isso a Igreja é sóbria com nomes de anjos. O Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, publicado pela Santa Sé em 2001, pede que se evite dar nomes aos santos anjos, exceto a Gabriel, Rafael e Miguel, cujos nomes estão na Sagrada Escritura (n. 217).
Uriel, Jofiel, Selafiel e os outros que circulam em livros apócrifos, em calendários “dos sete arcanjos” e em correntes de internet ficam de fora: a Revelação não nos deu esses nomes, e a Igreja não os usa na oração.
Anjo e arcanjo: a homilia de hoje
A palavra arcanjo aparece só duas vezes na Bíblia: na Carta de Judas (“o arcanjo Miguel”, v. 9) e em 1 Tessalonicenses 4,16, na “voz do arcanjo” que anunciará a volta do Senhor. Quem explica a diferença é São Gregório Magno, papa de 590 a 604, na homilia que a Igreja lê hoje no Ofício de Leitura. Ele parte da mesma distinção de Santo Agostinho — anjo é nome de missão — e continua:
Os que anunciam coisas de menor importância se chamam anjos; os que anunciam as mais altas se chamam arcanjos. Por isso não foi um anjo qualquer, mas o arcanjo Gabriel quem foi enviado à Virgem Maria: convinha que para a maior de todas as mensagens viesse o mais alto dos anjos.
Os nomes, diz Gregório, foram dados a alguns “para designar o ministério” que exerceram quando vieram até nós. Sempre que é preciso realizar algo de poder admirável, Miguel é enviado, para que a obra e o nome mostrem que ninguém pode fazer o que Deus faz. Gabriel, a força de Deus, anunciou Aquele que vinha vencer as potências do mal. E Rafael é a medicina de Deus, porque, ao tocar os olhos de Tobit, dissipou as trevas da sua cegueira.
É uma chave de leitura para a festa inteira: cada um dos três aparece na Escritura numa missão — combater, anunciar, curar. E as três missões continuam.
Uma festa que era três
Até 1969 as datas eram separadas. O dia 29 de setembro era de São Miguel — e não pela vitória sobre o dragão, mas pela dedicação de uma basílica em sua honra na via Salária, perto de Roma, no século V. Gabriel era celebrado em 24 de março, véspera da Anunciação, e Rafael, em 24 de outubro.
A reforma do calendário juntou os três no dia 29 e deixou o dia 2 de outubro para os Santos Anjos da Guarda, que continuam com memória própria. A Igreja celebra primeiro os três que têm nome e, três dias depois, o anjo sem nome que cada um de nós tem ao lado.
As leituras da Missa de hoje foram escolhidas a dedo. A primeira é Daniel 7, com “milhares de milhares” servindo diante do Ancião, ou Apocalipse 12, com Miguel contra o dragão. O salmo é o 137(138), que canta a Deus “na presença dos anjos”. E o Evangelho é o chamado de Natanael (Jo 1,47-51), onde Jesus promete: “Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”. É a escada que Jacó viu em sonho (Gn 28,12) — e agora a escada é Cristo.
Em inglês a data conserva o nome antigo, Michaelmas, que durante séculos marcou o fim da colheita, o pagamento das rendas e o início do ano letivo em Oxford e Cambridge — coisa que ainda hoje se chama Michaelmas term.
A tradição conta que São Miguel apareceu numa gruta do monte Gargano, na Apúlia, e pediu que o lugar não fosse consagrado por mãos humanas, porque ele próprio o consagrara. O santuário existe desde então — é o mais antigo do Ocidente dedicado ao arcanjo, e nunca foi consagrado por bispo nenhum.
Dali nasceu uma linha de santuários que atravessa a Europa e que a piedade popular liga em reta: Gargano, Sacra di San Michele no Piemonte, Mont-Saint-Michel na Normandia, St Michael’s Mount na Cornualha, Skellig Michael na Irlanda. Curiosamente, quase todos em altos e em ilhas — sempre em lugares de onde se vê ao longe.
A oração da Missa de hoje
A coleta desta festa é antiquíssima: já está nos sacramentários romanos do primeiro milênio, quando o dia 29 ainda era só de São Miguel. Em uma frase, diz tudo o que a Igreja pede hoje — que os que servem a Deus no céu guardem a nossa vida na terra.
Deus, qui miro órdine Angelórum ministéria hominúmque dispénsas, concéde propítius, ut, a quibus tibi ministrántibus in cælo semper assístitur, ab his in terra vita nostra muniátur. Per Dóminum nostrum Iesum Christum Fílium tuum, qui tecum vivit et regnat in unitáte Spíritus Sancti, Deus, per ómnia sæcula sæculórum.
Ó Deus, que distribuís com admirável ordem os ministérios dos anjos e dos homens, concedei-nos, propício, que a nossa vida na terra seja protegida por aqueles que no céu estão sempre diante de vós, servindo-vos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.
Amen.
São Miguel: a oração de Leão XIII
Em 1886, o papa Leão XIII mandou rezar esta oração no fim de todas as Missas rezadas, junto com as Ave-Marias e a Salve-Rainha. Deixou de ser obrigatória com a reforma litúrgica, mas nunca saiu da boca da Igreja. Em 1994, São João Paulo II pediu que ninguém a esquecesse. E em 29 de setembro de 2018 — nesta mesma festa — o papa Francisco pediu a todos os fiéis que, durante o mês de outubro, terminassem o terço de cada dia com o Sub tuum praesidium e com esta oração. Como a festa cai às portas de outubro, o mês do Rosário, o convite continua de pé.
Sancte Míchael Archángele, defénde nos in prælio; contra nequítiam et insídias diáboli esto præsídium. Ímperet illi Deus, súpplices deprecámur: tuque, Princeps milítiæ cæléstis, Sátanam aliósque spíritus malignos, qui ad perditiónem animárum pervagántur in mundo, divína virtúte in inférnum detrúde.
São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate; sede o nosso amparo contra a maldade e as ciladas do demônio. Que Deus o repreenda, instantemente o pedimos; e vós, Príncipe da milícia celeste, pela virtude divina precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos que vagueiam pelo mundo para perdição das almas.
Amen.
Há séculos a Igreja também confia a ele a hora da morte. Na Missa de defuntos, o ofertório pede que “o porta-estandarte São Miguel” conduza as almas “à luz santa” — signifer sanctus Michael repraesentet eas in lucem sanctam. E este é o nome inteiro, que é a oração mais curta que existe:
Quis ut Deus?
Quem é como Deus?
Amen.
Uma oração a São Gabriel
Até 1969, São Gabriel tinha a sua própria Missa no dia 24 de março, véspera da Anunciação. A coleta daquela Missa é uma oração pequena e perfeita para hoje: pede a proteção de quem trouxe a Nazaré a notícia de que dependia toda a nossa salvação. Em 1951, o papa Pio XII o declarou padroeiro das telecomunicações — de quem trabalha com rádio, telefone, televisão e, hoje, com tudo o que leva uma notícia de um lugar a outro. É também a quem recorrer antes de uma conversa difícil ou de uma palavra que precisa ser dita.
Deus, qui inter céteros Angelos, ad annuntiándum Incarnatiónis tuæ mystérium, Gabriélem Archángelum elegísti: concéde propítius; ut, qui festum eius celebrámus in terris, ipsíus patrocínium sentiámus in cælis: Qui vivis et regnas cum Deo Patre in unitáte Spíritus Sancti, Deus, per ómnia sæcula sæculórum.
Ó Deus, que, entre os demais anjos, escolhestes o arcanjo Gabriel para anunciar o mistério da vossa Encarnação, concedei-nos, propício, que, celebrando a sua festa na terra, sintamos no céu a sua proteção. Vós que viveis e reinais com Deus Pai, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.
Amen.
Uma oração a São Rafael
A festa de São Rafael era no dia 24 de outubro. É o arcanjo de quem está a caminho: padroeiro dos viajantes, dos doentes e de quem cuida deles, e, pela história de Tobias e Sara, de quem pede a Deus o cônjuge certo. Ele próprio resume a sua missão no fim do livro: “Quando tu e Sara oráveis, era eu quem apresentava as vossas orações diante da glória do Senhor” (Tb 12,12). A coleta da sua antiga Missa pede exatamente isto: que o companheiro de Tobias seja também o nosso.
Deus, qui beátum Raphaélem Archángelum Tobíæ fámulo tuo cómitem dedísti in via: concéde nobis fámulis tuis; ut eiusdem semper protegámur custódia et muniámur auxílio. Per Dóminum nostrum Iesum Christum Fílium tuum, qui tecum vivit et regnat in unitáte Spíritus Sancti, Deus, per ómnia sæcula sæculórum.
Ó Deus, que destes o bem-aventurado arcanjo Rafael como companheiro de viagem ao vosso servo Tobias, concedei a nós, vossos servos, que sejamos sempre guardados pela sua proteção e fortalecidos pelo seu auxílio. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.
Amen.
“Houve uma batalha no céu: Miguel e os seus anjos combateram contra o dragão.”— Apocalipse 12,7
“Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para te falar e te anunciar esta boa-nova.”— Lucas 1,19
“Eu sou Rafael, um dos sete anjos que estão diante do Senhor.”— Tobias 12,15
“Sempre que é preciso realizar algo de poder admirável, é Miguel quem é enviado, para que a obra e o nome mostrem que ninguém pode fazer o que Deus faz.”— São Gregório Magno, Homilia sobre os Evangelhos
“Onde há um anjo, há sempre o céu.”— atribuído a São João XXIII
Sancti Angeli custodes nostri, defendite nos in prælio. Santos Anjos, nossos guardiões, defendei-nos no combate.
- Novena de Nossa Senhora do Rosário — de 28 de setembro a 6 de outubro; um bom lugar para terminar o terço com São Miguel, como pediu o papa Francisco.
- Padre Pio — que mandava o seu anjo da guarda a quem lhe escrevia, no dia 23.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.

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