Dom Fulton J. Sheen
Fulton J. Sheen, fotografado por Fred Palumbo para o New York World-Telegram & Sun. Library of Congress — domínio público.

Nesta quinta-feira, 24 de setembro de 2026, no Dome at America’s Center, em St. Louis, no Missouri, o arcebispo Fulton John Sheen foi declarado Beato. A Missa foi presidida pelo cardeal Luis Antonio Tagle, representando o Papa Leão XIV. O homem que explicava a fé católica para trinta milhões de pessoas ao vivo, num estúdio que tinha um quadro-negro e nada mais, passa a ser proposto pela Igreja como alguém que vale a pena imitar.

O que aconteceu em St. Louis

O rito é curto. O postulador pede, a carta apostólica é lida e, a partir daquele instante, o homem pode ser chamado de Beato, suas relíquias podem ser veneradas publicamente e as dioceses ligadas a ele podem celebrar sua memória num dia fixo. No caso de Sheen, esse dia é 9 de dezembro, o dia em que ele morreu.

A Missa foi anunciada em março por dom Louis Tylka, bispo de Peoria — a diocese onde Sheen nasceu, foi ordenado e serviu primeiro, e que carregou a causa dele por vinte e quatro anos. St. Louis foi escolhida por um motivo prático: esperavam muita gente, queriam um lugar coberto e perto de Peoria.

Quem levou as relíquias ao altar foi a família Engstrom. Para entender por quê, é preciso voltar a um quarto perto de Peoria, em setembro de 2010.

Os sessenta e um minutos

Em 16 de setembro de 2010, Bonnie Engstrom deu à luz o filho James, depois de uma gravidez saudável e sem risco. O que ninguém sabia é que o cordão umbilical tinha um nó verdadeiro, e que esse nó apertou durante o trabalho de parto e cortou o oxigênio do menino.

Ele nasceu sem pulso. O pai, Travis, o batizou ali mesmo. No hospital, em Peoria, a equipe médica trabalhou sobre ele por uma hora e já se preparava para declarar o horário do óbito quando o coração do menino voltou a bater. Nas palavras da mãe, “nunca mais parou”.

Tinham sido sessenta e um minutos sem pulso. Os pais, os amigos e depois — por um post de blog e algumas linhas no Facebook — desconhecidos do mundo inteiro pediam a intercessão de um homem só: Fulton Sheen.

O primeiro exame de imagem mostrou lesão grave no cérebro do menino. Um exame posterior mostrou um cérebro simplesmente normal. James cresceu sem sequela nenhuma.

Beato não é a mesma coisa que Santo

Vale guardar a diferença, porque as duas palavras vivem trocadas no noticiário. A beatificação exige, em regra, um milagre comprovado depois da morte do candidato, e autoriza o culto público num lugar delimitado — uma diocese, um país, uma ordem religiosa. A canonização exige um segundo milagre, ocorrido depois da beatificação, e estende esse culto à Igreja inteira.

Ou seja: Fulton Sheen ainda não é São Fulton Sheen. É o Beato Fulton Sheen, e a Igreja agora espera para ver se Deus dará o segundo sinal.

A investigação não foi leviana. Abriu-se um tribunal em Peoria quando James tinha um ano; os pais entregaram todos os prontuários, e outras quinze pessoas — médicos, a parteira, sacerdotes, amigos — responderam à mesma lista de perguntas, para que as respostas pudessem ser comparadas. O processo seguiu para Roma. Em março de 2014, a junta médica que assessora o Dicastério para as Causas dos Santos declarou a recuperação cientificamente inexplicável, por unanimidade. Em junho, os teólogos concordaram, também por unanimidade, que ela viera pela intercessão de Sheen. Em 6 de julho de 2019, o Papa Francisco assinou o decreto.

De El Paso, no Illinois, ao horário nobre

Fulton Sheen jovem sacerdote
Sheen ainda jovem sacerdote, fotografado por Harris & Ewing. Library of Congress — domínio público.

Nasceu Peter John Sheen em 8 de maio de 1895, em El Paso, no Illinois, numa família de lavradores irlandeses; a casa depois se mudou para Peoria, e ele adotou como seu o sobrenome de solteira da mãe, Fulton.

Foi ordenado sacerdote em 20 de setembro de 1919, na catedral de Santa Maria, em Peoria — cento e sete anos e quatro dias antes da Missa que o fez Beato. Mandado estudar na Europa, em Louvain tornou-se o primeiro americano a receber o Prêmio Cardeal Mercier de Filosofia Internacional. Deu aula por mais de vinte anos na Universidade Católica da América.

Depois vieram os microfones. A partir de 1930 pregava no The Catholic Hour, programa de rádio dominical que chegou a alcançar cerca de quatro milhões de ouvintes. Em 1951 passou para a televisão com o Life Is Worth Living — escalado contra os maiores animadores dos Estados Unidos, e assistido por cerca de trinta milhões de pessoas. Ganhou um Emmy por isso. Ao receber o prêmio, agradeceu aos seus roteiristas:

Acho que chegou a hora de eu prestar homenagem aos meus quatro roteiristas — Mateus, Marcos, Lucas e João.

Por dezesseis anos dirigiu também a Sociedade para a Propagação da Fé nos Estados Unidos, levantando uma quantia enorme para as missões — e dando, sem alarde, quase tudo o que lhe chegava às mãos. Foi bispo auxiliar de Nova York em 1951, bispo de Rochester de 1966 a 1969 e, depois, arcebispo titular de Newport, no País de Gales, por nomeação de Paulo VI.

A hora que sustentava a voz

Dom Fulton Sheen em 1956
Dom Sheen em 1956, no auge dos anos de rádio e televisão. ABC Radio — domínio público.

O detalhe que explica todo o resto não é a televisão. É o que ele fez no dia da própria ordenação, e em todos os dias seguintes. Na autobiografia, escreveu:

Resolvi também passar uma Hora Santa contínua, todos os dias, na presença de Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento.
— A Treasure in Clay

Manteve a promessa por sessenta anos, atravessando turnês de conferências, gravações, governo de diocese e doença. Repetia que a hora não era a preparação para o trabalho; o trabalho é que transbordava da hora. Aos sacerdotes que lhe pediam conselho sobre pregação, dizia para fazer a hora primeiro e se preocupar com o sermão depois.

Essa é a parte dele que dá para copiar. Quase ninguém vai receber uma rede de televisão. Qualquer um pode receber uma hora.

Nas palavras dele

Sheen escreveu mais de sessenta livros. Algumas linhas sobreviveram melhor que as outras:

Deus, que fez o sol, fez também a lua. A lua não tira nada do brilho do sol. Toda a luz de Maria é luz refletida de Cristo.
— The World’s First Love
O Rosário é o livro dos cegos, onde as almas veem e encenam o maior drama de amor que o mundo já conheceu.
— The World’s First Love
O nível de qualquer civilização é o nível da sua feminilidade.
— Life Is Worth Living, segunda série (1954), p. 173

E dois meses antes de morrer, em 2 de outubro de 1979, João Paulo II o chamou à frente na catedral de São Patrício, em Nova York, o abraçou diante de toda a assembleia e disse:

Você escreveu e falou bem do Senhor Jesus Cristo. Você é um filho leal da Igreja.

A resposta de Sheen, por escrito, quinze dias antes de morrer, foi uma frase só: “Inclino-me em humilde gratidão pela aprovação pontifícia do meu ministério da Palavra.” Morreu em 9 de dezembro de 1979, aos 84 anos.

Os seis anos em que a causa ficou parada

Vale contar esta parte sem rodeios, porque ela explica por que um milagre aprovado em 2019 só virou beatificação em 2026.

  • A causa foi aberta em Peoria em 2002; Bento XVI o declarou Venerável em 2012.
  • Em 2014 a causa foi suspensa por uma disputa sobre o corpo dele. O testamento de Sheen pedia sepultamento em Nova York; a sobrinha, Joan Sheen Cunningham, o queria na catedral de Peoria. O caso correu na justiça de Nova York e foi decidido a favor dela em junho de 2019. Os restos mortais foram transferidos para a catedral de Santa Maria, em Peoria, em 27 de junho de 2019.
  • A beatificação foi então marcada para 21 de dezembro de 2019 — e cancelada em 3 de dezembro, três semanas antes, depois que alguns bispos dos Estados Unidos pediram à Santa Sé um exame mais detido dos três anos em que ele governou Rochester.
  • O Vaticano voltou a dar sinal verde em fevereiro de 2026, e a data foi anunciada em março.

Seis anos é muito tempo de espera, e os Engstrom os atravessaram com um menino pequeno no meio da história. A mãe resumiu assim, numa entrevista: foi preciso aceitar que o calendário de Deus não era o deles.

O que muda agora

Ele pode ser chamado de Beato. Sua memória pode ser celebrada na liturgia em 9 de dezembro, nos lugares ligados a ele. Suas relíquias podem ser veneradas publicamente. E a Igreja espera um segundo milagre, que é a porta ordinária da canonização — aquela que faria dele, como a diocese dele espera há tanto tempo, um santo nascido e criado nos Estados Unidos.

Até lá, a resposta mais parecida com Sheen que um leitor pode dar não é discutir sobre ele na internet. É achar uma igreja com o Santíssimo exposto, sentar-se e dar a hora.

Beate Fulton, ora pro nobis. Beato Fulton Sheen, rogai por nós — e alcançai-nos a paciência de guardar a hora que ninguém vê.

Onde isto foi conferido

Vatican News (25 de março de 2026); o comunicado de dom Louis Tylka e da Archbishop Fulton J. Sheen Foundation, em celebratesheen.com; o histórico da causa mantido pela Universidade Católica da América; e o relato da própria Bonnie Engstrom sobre o milagre, dado à revista America em julho de 2019.

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