Santo Agostinho escrevendo, de mitra e paramentos dourados, segurando um coração em chamas, pintura de Philippe de Champaigne
Santo Agostinho, Philippe de Champaigne (c. 1650), Los Angeles County Museum of Art. Domínio público.

Ele abre o livro mais influente da sua vida com uma frase e passa as trezentas páginas seguintes tentando prová-la — usando a si mesmo como evidência: “fizeste-nos para Ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti”. Não é uma bela frase de abertura. É uma tese, e as Confissões são o processo em que Agostinho apresenta as provas, todas contra ele mesmo.

As peras

Se você só lembra de uma história das Confissões, é provável que seja esta — e quase sempre é contada errado.

Com dezesseis anos, ele e um bando de amigos derrubaram uma pereira de um vizinho durante a noite e levaram tudo. Não comeram: jogaram aos porcos.

Décadas depois, bispo, ele volta ao caso e o examina com uma insistência que já foi chamada de exagero. Mas o ponto dele é preciso, e o exagero é aparente: as peras eram ruins. Ele tinha peras melhores em casa. Não roubou por fome, nem por gula, nem por necessidade — roubou porque era proibido. E é isso que o aterroriza aos quarenta e poucos anos: a descoberta de que houve um momento em que quis o mal pelo próprio mal, sem lucro nenhum. Só pelo prazer de estar do lado de fora da regra, e — acrescenta — porque estava com os amigos, e sozinho não teria feito.

É a análise mais honesta do pecado já escrita, e é sobre fruta estragada.

A mulher que ele não nomeia

Aos dezessete foi estudar em Cartago, e ali começou a vida que a mãe passaria dezessete anos tentando desfazer. Entrou no maniqueísmo, ganhou fama como professor de retórica e passou a viver com uma mulher.

Viveram juntos quinze anos e tiveram um filho, Adeodato — “dado por Deus”. Ele diz que lhe foi fiel todo esse tempo.

Depois, em Milão, com a carreira andando, a família arranjou-lhe um casamento vantajoso, e a mulher foi mandada de volta à África sem o filho. Agostinho escreve que ela partiu jurando nunca conhecer outro homem, e que o coração dele, onde ela estava colado, foi cortado e ficou ferido, arrastando sangue. Em seguida — e é aqui que dói — confessa que, não suportando a espera de dois anos até o casamento, arranjou outra companheira nesse intervalo.

Ele nunca escreve o nome dela. Alguns leem isso como frieza; a leitura mais provável é a oposta: era a única pessoa do livro que ele podia proteger, e protegeu.

“Dá-me castidade — mas ainda não”

A oração mais citada dele é uma que ele confessa envergonhado, porque descreve exatamente a nossa:

“Dá-me castidade e continência — mas não já.”

Da mihi castitatem et continentiam, sed noli modo.

Santo Agostinho, Confissões, VIII, 7

Ele explica o mecanismo com uma clareza clínica: temia que Deus o ouvisse depressa demais, porque queria ser curado da doença, e não que a doença lhe fosse tirada. Qualquer pessoa que já tenha pedido a Deus para largar alguma coisa depois de amanhã sabe que a frase é sobre ela.

Tolle, lege

A virada é em Milão, num jardim, aos trinta e um anos, e é uma cena de colapso — não de iluminação serena. Ele já estava convencido intelectualmente havia tempo e não conseguia mover a vontade. Escreve que se arrastou para debaixo de uma figueira e chorou como quem finalmente para de fingir.

E então ouviu, de uma casa vizinha, uma voz de criança repetindo num jogo: tolle, legepega e lê. Voltou, abriu ao acaso a carta de São Paulo aos Romanos e caiu em: “revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não vos preocupeis com a carne para satisfazer os seus desejos” (Rm 13,14).

Diz que não precisou ler mais. Foi batizado por Santo Ambrósio na Páscoa de 387, junto com o filho.

O primeiro livro do gênero

As Confissões são geralmente chamadas de a primeira autobiografia do Ocidente, e a descrição é justa por um motivo específico: antes dele ninguém tinha escrito sobre a própria vida interior — sobre a memória, o desejo, o tempo, a vergonha — como quem investiga um objeto.

E o título engana. Confessio, em latim cristão, não quer dizer principalmente “admissão de culpa”: quer dizer louvor, reconhecimento em voz alta. O livro é uma oração escrita — dirigida a Deus do começo ao fim, na segunda pessoa. Nós somos apenas quem está ouvindo por cima do ombro.

Hipona

Queria voltar à África e viver retirado com amigos, estudando. Não deu. Numa visita a Hipona, o povo o cercou dentro da igreja e exigiu que fosse ordenado padre — literalmente aos gritos, com ele chorando. Quatro anos depois virou bispo, e ficou trinta e cinco anos.

Governou uma diocese portuária pequena, ouviu causas civis a manhã inteira porque o bispo era juiz, pregou várias vezes por semana e, no que sobrava, escreveu cerca de cinco milhões de palavras: as Confissões, A Cidade de Deus, o De Trinitate, mais de trezentas cartas e centenas de sermões taquigrafados enquanto falava. Um dos seus biógrafos observou que ninguém na Antiguidade deixou tanto material — e ele fez tudo isso nas horas vagas de um bispo de província.

Os salmos na parede

O fim tem a mesma honestidade do resto. Em 430, os vândalos atravessaram o norte da África e puseram cerco a Hipona. Agostinho tinha setenta e cinco anos e via arder tudo o que tinha construído.

Adoeceu durante o cerco. Pediu então que copiassem os salmos penitenciais em folhas grandes e os pregassem na parede diante da cama, para poder lê-los deitado. Passou os últimos dias assim: o maior teólogo da história do Ocidente, sozinho num quarto, lendo salmos de arrependimento colados na parede, chorando.

Morreu em 28 de agosto de 430, com a cidade sitiada. A biblioteca dele sobreviveu ao cerco — foi praticamente a única coisa que sobreviveu — e é a razão de nós termos os textos.

Por que o coração inquieto

Fica a tese do começo, agora com as provas apresentadas. Agostinho não descobriu que estava errado sobre o que queria; descobriu que estava errado sobre onde aquilo estava. Ele quis beleza, prazer, reputação, amizade, verdade — e o argumento das Confissões não é que essas coisas sejam más, mas que nenhuma delas é grande o bastante para caber um ser humano.

“Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei! Eis que estavas dentro de mim e eu fora, e fora Te procurava.”

Sero te amavi, pulchritudo tam antiqua et tam nova, sero te amavi!

Santo Agostinho, Confissões, X, 27

É por isso que este santo não envelhece. A inquietação que ele descreve é a mesma que faz alguém, hoje, trocar de aba pela quadragésima vez numa noite procurando não sabe o quê. Ele só teve a coragem incomum de escrever aonde aquilo o levou, e quanto tempo levou para chegar.

“Fizeste-nos para Ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti.”— Santo Agostinho, Confissões, I, 1
“Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei!”— Santo Agostinho, Confissões, X, 27
“Dá-me castidade e continência — mas não já.”— Santo Agostinho, Confissões, VIII, 7

Sancte Augustine, ora pro nobis. Santo Agostinho, rogai por nós — e alcançai-nos a graça de reconhecer, mais cedo do que vós, onde é que estava aquilo que procurávamos fora.

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