John Henry Newman em traje de cardeal, retrato a óleo de Millais, 1881
John Henry Newman, retrato a óleo de Sir John Everett Millais (1881) — National Portrait Gallery, Londres. Domínio público.

Hoje, 9 de outubro, a Igreja recorda São João Henrique Newman, presbítero e doutor da Igreja — memória facultativa que um decreto de 3 de fevereiro de 2026 inscreveu no Calendário Romano Geral. A data tem razão de ser: foi em 9 de outubro de 1845, em Littlemore, perto de Oxford, que ele pediu para ser recebido na Igreja Católica. Na véspera, escrevera aos amigos sobre o padre que esperava aquela noite: “É um homem simples e santo e, além disso, dotado de poderes notáveis. Ele não sabe da minha intenção; mas pretendo pedir a ele a admissão no único rebanho de Cristo.”

O clérigo de Oxford

Nasceu em Londres, em 21 de fevereiro de 1801. Ordenado diácono anglicano em 1824 e presbítero em 1825, foi por mais de vinte anos fellow do Oriel College e vigário da igreja universitária de St Mary, em Oxford. Estudando a fundo a história da Igreja antiga, sentiu-se atraído, passo a passo, para a fé católica.

Em 1841 publicou o Tract 90, sobre os Trinta e Nove Artigos; em 1842 retirou-se com alguns companheiros para Littlemore, numa vida quase monástica; em 25 de setembro de 1843 pregou o seu último sermão como anglicano, The Parting of Friends. Nesses anos escrevia o Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã. Ele mesmo conta que, antes de chegar ao fim, decidiu ser recebido, e que o livro ficou como estava, inacabado.

9 de outubro de 1845

O homem simples e santo da carta era o passionista italiano Domingos Barberi (1792–1849), hoje beato. Um amigo de Newman em Littlemore fora recebido por ele no dia de São Miguel, na casa passionista de Aston, perto de Stone; no começo de outubro o padre passava por Londres, a caminho da Bélgica, e aceitou desviar-se até Littlemore. Segundo os relatos, chegou ensopado de chuva; Newman ajoelhou-se diante dele e pediu para ser recebido. Confessou-se e fez a profissão de fé; na manhã seguinte, Barberi celebrou a Missa para ele e para dois companheiros.

Anos depois, na Apologia pro Vita Sua, escreveu que, depois de convertido, a sensação era a de “chegar ao porto depois de um mar bravo”.

Uma canção escrita numa calmaria

Em 1833, com a saúde arruinada por uma febre na Sicília, Newman esperou três semanas em Palermo por um navio. Antes de sair do albergue, na manhã da partida, sentou-se na cama e desatou a chorar; ao criado que perguntou o que havia, só soube responder: “Tenho uma obra a fazer na Inglaterra.”

Embarcou num barco de laranjas rumo a Marselha e ficou uma semana inteira parado, sem vento, no Estreito de Bonifácio. Foi ali que escreveu Lead, Kindly Light. Datou o poema: “No mar, 16 de junho de 1833”. Em 2025, ao proclamá-lo doutor da Igreja, Leão XIV citou esses versos na homilia.

De Birmingham a Dublin

Foi ordenado sacerdote católico em Roma, em 30 de maio de 1847, e fundou na Inglaterra o Oratório de São Filipe Néri, em Birmingham, onde viveu quase quarenta anos. Convidado pelos bispos irlandeses, foi o primeiro reitor da Universidade Católica da Irlanda, em Dublin, fundada em 1854, e ficou cerca de quatro anos; dessa experiência saiu A Ideia de uma Universidade. Vieram depois a Apologia (1864) e a Gramática do Assentimento (1870).

Em 12 de maio de 1879, Leão XIII o criou cardeal. Escolheu como lema Cor ad cor loquitur — “o coração fala ao coração”. Morreu em Birmingham, em 11 de agosto de 1890, e foi sepultado em Rednal; na sepultura, a inscrição Ex umbris et imaginibus in veritatem — das sombras e das imagens para a verdade.

O que a Igreja lhe reconheceu

  • Beato e santo. Beatificado por Bento XVI em 19 de setembro de 2010, em Birmingham, e canonizado pelo Papa Francisco em 13 de outubro de 2019.
  • Doutor da Igreja. Proclamado por Leão XIV em 1.º de novembro de 2025, na Missa do Jubileu do Mundo Educativo — o trigésimo oitavo doutor da Igreja.
  • Copadroeiro da educação. No mesmo dia, o Papa o declarou copadroeiro da missão educativa da Igreja, ao lado de Santo Tomás de Aquino.
  • Memória no Calendário Romano. O decreto do Dicastério para o Culto Divino, assinado em 9 de novembro de 2025 e divulgado em 3 de fevereiro de 2026, fixou a memória em 9 de outubro.
“Dez mil dificuldades não fazem uma dúvida.”— John Henry Newman, Apologia pro Vita Sua, cap. 5
“Neste mundo, viver é mudar, e ser perfeito é ter mudado muitas vezes.”— Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã, cap. 1, seção 1 (edição de 1878)
“Ser profundo na história é deixar de ser protestante.”— Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã, Introdução (edição de 1878)

As orações

A Coleta da memória, em latim, termina com as palavras que Newman deixou gravadas na sepultura. Os outros dois textos são dele: o poema de 1833 e a meditação sobre a vocação que o próprio decreto da memória cita.

Coleta · Memória de São João Henrique Newman
Latim

Deus, qui sanctum Ioánnem Henrícum, presbýterum, lumen benígnum tuum sequéntem pacem in Ecclésia tua inveníre contulísti, concéde propítius ut, eius intercessióne et exémplo, ex umbris et imagínibus in plenitúdinem veritátis tuæ perducámur.

Português

Ó Deus, que concedestes a são João Henrique, presbítero, que, seguindo a vossa luz benigna, encontrasse a paz na vossa Igreja: concedei-nos, propício, que, por sua intercessão e exemplo, sejamos conduzidos das sombras e das imagens à plenitude da vossa verdade.

Per Dominum. — Texto latino do decreto do Dicastério para o Culto Divino (9/11/2025); tradução nossa.

Lead, Kindly Light · poema de Newman, 1833
Inglês

Lead, Kindly Light, amid the encircling gloom,
    Lead Thou me on!
The night is dark, and I am far from home—
    Lead Thou me on!
Keep Thou my feet; I do not ask to see
The distant scene—one step enough for me.

I was not ever thus, nor pray’d that Thou
    Shouldst lead me on.
I loved to choose and see my path, but now
    Lead Thou me on!
I loved the garish day, and, spite of fears,
Pride ruled my will: remember not past years.

So long Thy power hath blest me, sure it still
    Will lead me on,
O’er moor and fen, o’er crag and torrent, till
    The night is gone;
And with the morn those angel faces smile
Which I have loved long since, and lost awhile.

Português

Guia-me, Luz benigna, em meio à treva que me cerca,
    guia-me tu!
A noite é escura e estou longe de casa —
    guia-me tu!
Guarda os meus pés; não peço para ver
a cena distante — basta-me um passo.

Nem sempre fui assim, nem te pedi
    que me guiasses.
Eu gostava de escolher e de ver o meu caminho; agora,
    guia-me tu!
Amava o dia ofuscante e, apesar dos temores,
o orgulho mandava na minha vontade: não te lembres dos anos passados.

Tanto tempo o teu poder me abençoou que certamente ainda
    me guiará,
por charneca e brejo, por penhasco e torrente, até que
    a noite passe;
e, com a manhã, sorriam aqueles rostos de anjos
que amei há muito tempo e perdi por algum tempo.

— Verses on Various Occasions, n.º 90 (“The Pillar of the Cloud”); tradução nossa

Deus me criou para um serviço · Meditations and Devotions
Inglês

God has created me to do Him some definite service; He has committed some work to me which He has not committed to another. I have my mission—I never may know it in this life, but I shall be told it in the next. Somehow I am necessary for His purposes, as necessary in my place as an Archangel in his—if, indeed, I fail, He can raise another, as He could make the stones children of Abraham. Yet I have a part in this great work; I am a link in a chain, a bond of connexion between persons. He has not created me for naught. I shall do good, I shall do His work; I shall be an angel of peace, a preacher of truth in my own place, while not intending it, if I do but keep His commandments and serve Him in my calling.

Therefore I will trust Him. Whatever, wherever I am, I can never be thrown away.

Português

Deus me criou para prestar-lhe algum serviço determinado; confiou-me uma obra que não confiou a outro. Tenho a minha missão — talvez nunca a conheça nesta vida, mas me será dita na outra. De algum modo sou necessário aos seus desígnios, tão necessário no meu lugar quanto um Arcanjo no dele — e, se eu falhar, ele pode suscitar outro, como podia fazer das pedras filhos de Abraão. Contudo tenho parte nesta grande obra; sou um elo numa corrente, um vínculo entre pessoas. Não me criou em vão. Farei o bem, farei a sua obra; serei um anjo de paz, um pregador da verdade no meu lugar, mesmo sem o pretender, contanto que guarde os seus mandamentos e o sirva na minha vocação.

Por isso confiarei nele. Seja o que for, esteja onde estiver, jamais poderei ser jogado fora.

— Newman, Meditations and Devotions, Parte III, meditação de 7 de março; tradução nossa

Sancte Ioánnes Henríce, ora pro nobis. São João Henrique Newman, rogai por nós — e alcançai-nos seguir a luz mesmo quando só se enxerga um passo.

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