
Hoje, 11 de outubro, a Igreja recorda São João XXIII — é a data da sua memória facultativa, que neste ano cai num domingo — e o dia em que, em 1962, ele abriu o Concílio Vaticano II. À noite, diante dos fiéis reunidos numa procissão de tochas, o Papa improvisou: “Parece até que a lua se apressou, esta noite — olhem lá para o alto! — a contemplar este espetáculo.”
Angelo Roncalli, de Sotto il Monte
Nasceu em 25 de novembro de 1881, em Sotto il Monte, na província de Bérgamo, numa família de camponeses. Entrou no seminário diocesano aos onze anos e foi ordenado sacerdote em 1904. Serviu como secretário do bispo de Bérgamo e, depois, na diplomacia da Santa Sé: em 1921 na Obra da Propagação da Fé, em 1925 na Bulgária, em 1935 na Turquia e na Grécia, em 1944 como núncio na França. Em 1953 foi feito cardeal e patriarca de Veneza.
Em 28 de outubro de 1958, aos setenta e seis anos, foi eleito Papa e tomou o nome de João. Pouco menos de dois meses depois, em 26 de dezembro, foi visitar os presos da cadeia romana de Regina Coeli.
O anúncio e o Concílio
Em 25 de janeiro de 1959, na basílica de São Paulo Fora dos Muros, anunciou que convocaria um concílio ecumênico. Convocou-o formalmente em 25 de dezembro de 1961, com a constituição apostólica Humanae salutis, e uma carta de 2 de fevereiro de 1962 fixou o dia da abertura: 11 de outubro. Naquele dia, cerca de dois mil e quatrocentos bispos entraram em procissão na Basílica de São Pedro.
O discurso de abertura, Gaudet Mater Ecclesia (“A Mãe Igreja se alegra”), começa lembrando que o dia é de Nossa Senhora: o Concílio se inicia “sob os auspícios da Virgem Mãe de Deus, cuja dignidade materna hoje se celebra com alegria”. Dali em diante, o Papa recusa os “profetas de desgraça, que anunciam sempre o pior, como se o fim do mundo estivesse próximo”, e explica o que quer do Concílio: não uma lista de condenações, mas o anúncio da mesma fé de modo que os homens de hoje possam ouvi-la.
Naquela noite de 11 de outubro, o Papa falou sem papel. Lembrou que o dia era de Nossa Senhora e que alguém ali havia mencionado Éfeso e as lâmpadas acesas em volta da basílica, que ele mesmo vira — “não naquele tempo, é claro, mas recentemente” — e que evocam a proclamação da maternidade divina de Maria. Depois quis mandar para casa uma imagem, não uma doutrina: “Voltando para casa, vocês encontrarão as crianças; façam uma carícia nas crianças e digam: ‘Esta é a carícia do Papa’. Encontrarão alguma lágrima para enxugar. Façam alguma coisa, digam uma palavra boa. O Papa está conosco, especialmente nas horas de tristeza e de amargura.”
O texto está no site do Vaticano, com a marca da fala de improviso, e é a razão de o dia 11 de outubro ser, na memória popular, o dia da lua e da carícia.
O Papa bom, e o que ficou
João XXIII não viu o Concílio terminar. Morreu em 3 de junho de 1963, entre a primeira e a segunda sessão; quem o encerrou, em 8 de dezembro de 1965, foi Paulo VI. Foi beatificado por João Paulo II em 3 de setembro de 2000 e canonizado pelo Papa Francisco em 27 de abril de 2014, na mesma cerimônia que São João Paulo II. Na homilia da canonização, Francisco disse que, ao convocar o Concílio, João XXIII “mostrou uma requintada abertura ao Espírito Santo”, e que gostava de pensar nele “como o papa da abertura ao Espírito Santo”.
- O Concílio Vaticano II. Aberto em 11 de outubro de 1962 e encerrado em 8 de dezembro de 1965, deixou quatro constituições: sobre a liturgia, a Igreja, a Revelação e a Igreja no mundo de hoje.
- Mater et Magistra (15 de maio de 1961). Encíclica sobre “o cristianismo e o progresso social”: a Igreja como mãe e mestra dos povos.
- Pacem in Terris (11 de abril de 1963). Assinada na Quinta-feira Santa, menos de dois meses antes da sua morte, é dirigida não só aos católicos, mas “a todos os homens de boa vontade”.
- A oração por um novo Pentecostes. As últimas linhas da Humanae salutis, transcritas abaixo, pedem ao Espírito Santo que renove os prodígios da Igreja “como num novo Pentecostes”.
“Voltando para casa, façam uma carícia nas crianças e digam: ‘Esta é a carícia do Papa’.”— São João XXIII, saudação aos participantes da procissão de tochas, 11 de outubro de 1962
“Neste tempo, a Esposa de Cristo prefere usar o remédio da misericórdia em vez de empunhar as armas do rigor.”— São João XXIII, Gaudet Mater Ecclesia, discurso de abertura do Concílio, 11 de outubro de 1962
“Uma coisa é o depósito da fé, isto é, as verdades contidas na nossa venerável doutrina; outra coisa é o modo como são anunciadas, sempre, porém, no mesmo sentido e com o mesmo significado.”— São João XXIII, Gaudet Mater Ecclesia, 11 de outubro de 1962
As orações
A oração do Papa está no final da Humanae salutis, a bula que convocou o Concílio: em latim, é a súplica que, nas palavras dele, subia todos os dias ao Espírito Santo de todos os cantos da terra. A Coleta da sua memória, também em latim, é a da Missa do dia 11.
Renova aetate hac nostra per novam veluti Pentecosten mirabilia tua, atque Ecclesiae Sanctae concede, ut cum Maria, Matre Iesu, unanimiter et instanter in oratione perseverans, itemque a Beato Petro ducta, divini Salvatoris regnum amplificet, regnum veritatis et iustitiae, regnum amoris et pacis. Amen.
Renovai, em nossa época, os vossos prodígios, como por um novo Pentecostes, e concedei à Santa Igreja que, perseverando unânime e assiduamente na oração com Maria, Mãe de Jesus, e guiada por São Pedro, estenda o reino do divino Salvador, reino de verdade e de justiça, reino de amor e de paz.
Amém. — Texto latino: Humanae salutis, § 23 (vatican.va); tradução nossa
Omnípotens sempitérne Deus, qui per orbem terrárum in beáto Ioánne, papa, Christi boni pastóris vivum effulgére fecísti exémplum, concéde nobis, quæsumus, ut, eius intercessióne, abundántiam christiánæ caritátis lætánter effúndere valeámus.
Deus onipotente e eterno, que fizestes resplandecer por toda a terra, no bem-aventurado papa João, o exemplo vivo de Cristo, o bom pastor: concedei-nos, por sua intercessão, poder derramar com alegria a abundância da caridade cristã.
Per Dominum. — Texto latino oficial (Congregação para o Culto Divino, 2014); tradução nossa
Sancte Ioánnes, ora pro nobis. São João XXIII, rogai por nós — e alcançai-nos levar uma carícia do Papa a quem está em casa, chorando.
- São João Henrique Newman — o doutor da Igreja do dia 9.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.

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