
Dezessete anos. É esse o número que importa nesta festa, e é o motivo de ela ser útil. Mônica rezou pela conversão do filho durante dezessete anos — e não dezessete anos de esperança crescente, mas dezessete anos em que tudo piorou: ele largou a fé da mãe, entrou numa seita, teve um filho fora do casamento, mudou de país para se livrar dela e mentiu na cara dela para conseguir. Se você está rezando por alguém há muito tempo e nada acontece, esta é a santa que sabe exatamente onde você está.
Uma menina que bebia escondido
Começa com uma história que a própria Mônica contou ao filho, e que o filho — sendo quem era — publicou num livro que o mundo inteiro leria.
Menina, em Tagaste, era encarregada de tirar vinho do barril na despensa. Passou a dar uns goles antes de levar a jarra à mesa. Um gole virou dois; dois viraram costume. Até que, numa discussão, a serva que a acompanhava a chamou de bêbada. Foi só isso. A vergonha daquela palavra a curou de uma vez.
Vale reparar em duas coisas. A primeira é que Agostinho pôs isso nas Confissões — sobre a própria mãe, já morta, num texto destinado à posteridade. A segunda é que ela contou. Uma mulher que nunca fingiu ser de outra matéria que não a nossa, e um filho que não a maquiou, é uma combinação rara em hagiografia.
Casada com Patrício
Casou-se cedo com Patrício, funcionário municipal pagão, de temperamento violento e infiel. Não foi um casamento fácil, e Mônica desenvolveu um método que Agostinho registra com admiração e algum humor: nunca discutia com o marido quando ele estava com raiva; esperava. Depois, com ele calmo, explicava.
As amigas apareciam com marcas de agressão e perguntavam-lhe como é que ela, casada com aquele homem, nunca apanhava. A resposta dela era desconcertante e é dela mesma: que reparassem na própria língua — que muitos maridos bateram depois de ouvir, não antes.
Patrício foi batizado um ano antes de morrer. Ela levou décadas nisso também.
A noite em que ele mentiu para ela
Agostinho cresceu brilhante e insuportável. Aos dezessete foi para Cartago, arranjou uma companheira, teve um filho — Adeodato — e entrou no maniqueísmo, seita que desprezava tudo o que a mãe acreditava. Ela chorou tanto que um bispo, cansado das visitas dela, disse-lhe a frase que ficou:
“Vai, e deixa-me. Assim como vives, é impossível que pereça o filho de tantas lágrimas.”
Um bispo de Tagaste a Mônica — Confissões, III, 12Mas o pior ainda não tinha acontecido. Agostinho decidiu ir para Roma, e Mônica, que já o seguia por toda parte, resolveu ir junto. Ele não queria.
Então mentiu. Disse-lhe que ia apenas despedir-se de um amigo que embarcava, deixou-a rezando numa capela junto ao porto de Cartago, e zarpou de noite. Ela acordou no cais, sozinha, e o navio já ia longe. Agostinho descreve a cena nas Confissões com uma vergonha que ainda se sente dezesseis séculos depois — e escreve que ela chorou, e que, no dia seguinte, tomou o navio seguinte.
Milão
Alcançou-o em Roma, depois em Milão, e ali aconteceu a virada — não porque ela dissesse alguma coisa nova, mas porque estava lá quando as coisas se moveram. Foi Mônica quem o levou a ouvir Santo Ambrósio pregar, e Agostinho foi por curiosidade retórica: queria avaliar o estilo do orador. Ficou pelo conteúdo.
Ela viu o filho batizado por Ambrósio na Páscoa de 387. Tinha cinquenta e cinco anos e um filho de trinta e três. Levou dezessete anos.
A janela de Óstia
Estavam voltando para a África, à espera de navio na cidade portuária de Óstia, quando aconteceu a cena que é, provavelmente, o trecho mais bonito já escrito por um filho sobre uma conversa com a mãe.
Os dois estavam debruçados numa janela que dava para um jardim interno, sozinhos, falando com muita doçura sobre como seria a vida eterna dos santos. E, conversando, a conversa foi subindo: passaram pelos corpos, pelo céu, pelo sol e pelas estrelas, chegaram às próprias almas — e, num instante, tocaram de leve o que procuravam, e voltaram ao som das próprias vozes.
Ela então lhe disse que já não tinha nada a fazer neste mundo. Que a única coisa que a segurava era o desejo de vê-lo católico antes de morrer, e que Deus lhe tinha dado aquilo com sobra.
Cinco dias depois adoeceu. Em nove dias estava morta, aos cinquenta e seis anos.
Mônica tinha passado a vida planejando ser enterrada ao lado do marido, em Tagaste. Chegou a mandar preparar o túmulo. Era coisa importante para uma mulher do século IV.
No leito de morte, em Óstia, os filhos perguntaram-lhe se não a incomodava morrer tão longe de casa. A resposta dela cancela tudo o que tinha planejado antes:
“Enterrem este corpo em qualquer lugar; não se preocupem com isso. Só lhes peço uma coisa: que se lembrem de mim no altar do Senhor, onde quer que estejam.”
É a definição mais limpa que existe do que é rezar pelos mortos — e vinda de quem tinha acabado de ganhar, no último minuto, a única coisa que pedira a vida inteira.
Por que essa santa serve
Há um jeito ruim de contar esta história: o de que a oração de Mônica “funcionou”, como se fosse um método com resultado garantido. Não é isso o que está no texto.
- Demorou dezessete anos, e ela não sabia que seriam dezessete. Podiam ser quarenta. Podia não acontecer.
- Piorou antes de melhorar. Cada ano trouxe uma notícia pior que a do anterior. Ela continuou.
- Ela errou o método algumas vezes. Perseguiu, insistiu, chorou onde talvez devesse calar. Agostinho diz com todas as letras que a mãe o amava “mais do que muitas mães” e que nem sempre isso ajudou.
- Não foi ela quem o converteu. Foi Ambrósio pregando, foi um livro, foi uma voz de criança num jardim. Ela só garantiu que ele estivesse por perto quando acontecesse — o que é exatamente o que uma mãe pode fazer.
É por isso que ela é a padroeira das mães, das esposas de maridos difíceis e, sobretudo, de quem reza por alguém que não está voltando. Amanhã a Igreja celebra o filho: Santo Agostinho. As duas festas em dois dias seguidos não são coincidência de calendário. São uma frase dita em duas partes, e a primeira parte é a que custou dezessete anos.
Sancta Monica, ora pro nobis. Santa Mônica, rogai por nós — e alcançai a quem reza há anos sem ver nada a graça de não parar no ano que faltava.
- Santo Agostinho de Hipona — o filho, celebrado amanhã.
- O matrimônio e a Igreja doméstica — a casa como primeiro lugar da fé.
- Não desista — sobre continuar quando não se vê resultado.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.


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