São Bernardo de Claraval, de hábito branco, escreve diante da Virgem que lhe aparece com anjos, pintura de Perugino
A visão de São Bernardo, Pietro Perugino (c. 1489), Alte Pinakothek, Munique. Domínio público.

Ele nunca foi papa, nem bispo, nem cardeal, nem rei. Morreu com o mesmo cargo com que começou: abade de um mosteiro no meio do mato. E, no entanto, quando houve dois papas ao mesmo tempo, foi ele quem decidiu qual era o verdadeiro; quando os reis brigaram, foi ele quem arbitrou; quando a Europa marchou para o Oriente, foi porque ele pediu. Bernardo de Claraval é o caso mais extremo da história da Igreja de poder sem cargo — e passou a vida inteira tentando voltar para a cela.

O rapaz que levou a família junto

Nasceu em 1090, na Borgonha, filho de nobres. Aos vinte e dois anos decidiu entrar em Cîteaux, um mosteiro novo, pobre e severo, que estava quase fechando por falta de vocações.

Aqui está o primeiro sinal do que ele era. Bernardo não foi sozinho: convenceu cerca de trinta parentes e amigos a irem com ele — quatro irmãos, um tio, primos. Ao irmão mais novo, deixado para trás porque era criança, disse que ficasse com a herança inteira; o menino respondeu que aquilo era um mau negócio, e depois foi atrás.

Um jovem de vinte e dois anos que aparece na portaria de um mosteiro moribundo com trinta homens atrás dele não é um devoto. É uma força da natureza que ainda não sabe disso.

Três anos depois mandaram-no fundar uma casa nova, num vale que ele chamou de Claraval. Ficou lá trinta e oito anos, e de lá saíram sessenta e oito mosteiros fundados em vida.

“Ninguém pode ser perfeito sem ser diferente”

A pregação dele esvaziava as escolas. Mães escondiam os filhos quando Bernardo chegava numa cidade, porque quem o ouvia costumava sair de lá monge — e a coisa era tão notória que virou piada da época.

O que ele dizia não era complicado. Era só levado a sério até o fim:

“Por que vos admirais? Ninguém pode ser perfeito sem ser diferente.”

São Bernardo de Claraval

O monge que decidiu quem era o papa

Em 1130, dois candidatos foram eleitos papa no mesmo dia: Inocêncio II e Anacleto II. A cristandade se dividiu, e cada rei escolheu o seu. Não havia tribunal para resolver.

Convocaram um concílio em Étampes e entregaram o caso a um único homem: o abade de Claraval. Bernardo examinou, decidiu por Inocêncio II, e depois passou oito anos na estrada convencendo a Europa — foi à França, à Alemanha, à Inglaterra, à Itália, falou com reis e cidades, e ganhou. Um monge sem jurisdição nenhuma resolveu um cisma papal a pé.

Nas décadas seguintes, um antigo aluno dele foi eleito papa com o nome de Eugênio III. Bernardo escreveu-lhe então o De consideratione, um tratado sobre os perigos do próprio ofício papal — provavelmente o texto mais franco já dirigido a um papa por alguém que gostava dele. Avisa-o de que a Cúria vai devorá-lo com processos, que ele deve reservar tempo para pensar, e que herdou não o trono de Constantino, mas a pobreza de Pedro.

A cruzada, e a coisa mais rara que ele fez

Em 1146, o papa lhe pediu que pregasse a Segunda Cruzada. Bernardo pregou — em Vézelay, diante do rei da França, e depois pela Alemanha. Foi provavelmente a campanha de comunicação mais eficaz da Idade Média: multidões se alistaram, faltou pano para as cruzes, ele rasgou o próprio hábito para fazer mais.

A cruzada foi um desastre completo. Os exércitos se perderam, brigaram entre si e voltaram derrotados, e a Europa procurou um culpado. Encontrou-o depressa: o monge que tinha mandado todo mundo ir.

E aqui está o que mais impressiona nele. Bernardo não se defendeu com o argumento óbvio — o de que ele havia pregado e outros haviam comandado mal. Escreveu, no De consideratione, dirigindo-se ao papa e à posteridade, que preferia que as reclamações caíssem sobre ele do que sobre Deus, e assumiu publicamente o peso do fracasso.

É raríssimo. O homem mais influente do continente pôs por escrito, e em vida, que a maior iniciativa da sua carreira tinha dado errado e que a conta era dele.

Doctor Mellifluus

Chamaram-no Doutor Melífluo — “aquele de quem flui o mel” — por causa da doçura do latim dele, e o apelido pegou a ponto de virar título oficial: Pio XII escreveu em 1953 uma encíclica com esse nome, nos oitocentos anos da sua morte.

Vale reparar no contraste. O mesmo homem do latim doce escrevia cartas a reis com uma dureza que hoje custaria uma carreira. Doçura, nele, nunca foi sinônimo de brandura.

Maria, e a estrela

Se há uma herança dele que atravessou tudo, é mariana. Bernardo pregou e escreveu sobre Nossa Senhora com uma ternura que mudou a devoção do Ocidente — e a imagem que ficou é esta:

“Se se levantam os ventos das tentações, se dás com os escolhos das tribulações, olha a estrela, chama Maria. Se ela te segura, não cais; se ela te protege, nada temes.”

Respice stellam, voca Mariam.

São Bernardo, Homilias sobre as glórias da Virgem Mãe
O Memorare é dele?

A oração Lembrai-vos, ó puríssima Virgem Maria é atribuída a São Bernardo por uma tradição de séculos, e é assim que a maioria dos livros a apresenta.

Sendo honesto: a forma que rezamos hoje aparece documentada no século XV, e foi difundida no XVII pelo padre francês Claude Bernard — o que pode explicar a confusão entre os dois Bernardos. O conteúdo, porém, é inteiramente bernardino: é a estrela do mar em forma de súplica.

A Igreja nunca desfez a atribuição, e a oração continua valendo exatamente o mesmo em qualquer das duas hipóteses.

O fim

Morreu em 20 de agosto de 1153, em Claraval, exausto, aos sessenta e três anos, tendo passado a vida reclamando de estar fora do mosteiro e voltando à estrada assim que pediam.

Foi canonizado apenas vinte e um anos depois e declarado Doutor da Igreja em 1830. É o último dos Padres, na expressão consagrada — o fim de uma era e o começo de outra, escrito por um homem cujo único cargo, do princípio ao fim, foi abade.

“Se se levantam os ventos das tentações, olha a estrela, chama Maria. Se ela te segura, não cais; se te protege, nada temes.”— São Bernardo de Claraval
“A medida de amar a Deus é amá-lo sem medida.”— São Bernardo de Claraval
“Todo tempo que nós não empenhamos para a glória de Deus é em vão.”— São Bernardo de Claraval

Sancte Bernarde, ora pro nobis. São Bernardo, rogai por nós — e alcançai-nos a coragem de assumir os nossos erros com o mesmo à-vontade com que assumimos os nossos acertos.

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