Painel do Cordeiro Místico de van Eyck: o Cordeiro sobre um altar, cercado de anjos, num prado verde; à frente, a fonte da vida; dos quatro lados chegam grupos de profetas, apóstolos, bispos, confessores e virgens mártires com palmas; no alto, a pomba do Espírito Santo
A Adoração do Cordeiro Místico, painel central do Retábulo de Gante, de Hubert e Jan van Eyck (concluído em 1432) — Catedral de São Bavão, Gante. Domínio público.

Hoje, 1.º de novembro, a Igreja celebra a solenidade de Todos os Santos. Neste ano o dia cai num domingo, e a festa toma o lugar dele. Na primeira leitura da Missa, São João conta o que viu: “Depois disto vi uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações e tribos, e povos e línguas, que estavam em pé diante do trono e à vista do Cordeiro, cobertos de vestiduras brancas e com palmas nas suas mãos” (Ap 7,9). É essa multidão que a Igreja festeja hoje: não só os santos do calendário, mas todos os que já estão com Deus.

Uma multidão de todas as nações

Quando um dos anciãos pergunta a João quem são aqueles vestidos de branco, a resposta vem logo: “Estes são os que vieram de uma grande tribulação, e lavaram as suas roupas, e as embranqueceram no sangue do Cordeiro” (Ap 7,14). Não são heróis que se fizeram sozinhos; são pessoas lavadas por Cristo. Por isso a festa de hoje inclui gente que nenhum processo de canonização registrou: avós, operários, mães de família, crianças, monges esquecidos, cujo nome só Deus sabe.

O Concílio Vaticano II descreve a Igreja inteira em três estados: uns ainda caminham na terra, outros, depois desta vida, estão sendo purificados, e outros já estão na glória, contemplando a Deus. Todos, diz a constituição Lumen Gentium (n. 49), estão unidos no mesmo amor e cantam a Deus o mesmo hino. Hoje a Igreja olha para os que já chegaram; amanhã, no Dia de Finados, reza pelos que ainda se purificam.

De onde vem a festa

A festa nasceu dos mártires. Nos primeiros séculos, cada comunidade celebrava o aniversário da morte de um mártir no lugar do martírio. Com as grandes perseguições, sobretudo a de Diocleciano, os mártires ficaram tantos que não havia dias suficientes para todos, e surgiu um dia comum: em Antioquia, no domingo depois de Pentecostes; Santo Efrém, o Sírio, e São João Crisóstomo já falam dele no século IV.

Em Roma, em 13 de maio de 609 ou 610, o Papa Bonifácio IV consagrou o antigo Panteão a Santa Maria e a todos os mártires. Mais de um século depois, Gregório III (731–741) dedicou na Basílica de São Pedro um oratório aos santos apóstolos e a todos os santos, mártires e confessores; a tradição liga esse gesto ao 1.º de novembro, embora os historiadores discutam a data exata. Em 835, a pedido do Papa Gregório IV, o imperador Luís, o Piedoso, fez de 1.º de novembro um dia santo em todo o Império franco. A data já era conhecida na Irlanda e na Inglaterra do Norte: alguns manuscritos dos martirológios irlandeses, por volta do ano 800, trazem nesse dia a comemoração de todos os santos do mundo.

O Cordeiro de Gante

A pintura do alto desta página é o painel central do Retábulo de Gante, na Bélgica, obra dos irmãos Hubert e Jan van Eyck, instalado na catedral de São Bavão em 6 de maio de 1432. No centro, o Cordeiro sobre o altar derrama o sangue num cálice de ouro; à frente corre a fonte da vida. De todos os lados chega a multidão: profetas e sábios antigos à esquerda, os apóstolos e o clero à direita, confessores ao fundo e, do outro lado, as virgens mártires com suas palmas — Santa Inês com o cordeirinho, Santa Bárbara com a torre.

Os historiadores da arte observam que a disposição dos grupos parece seguir a própria liturgia de Todos os Santos. Albrecht Dürer foi vê-lo em 1521.

Por que celebrar quem não precisa de nós

São Bernardo de Claraval fez a si mesmo essa pergunta num sermão para esta festa: para que servem aos santos os nossos louvores e as nossas solenidades? E respondeu sem rodeios: a eles, para nada. Quem ganha somos nós. Lembrar os santos acende, diz ele, um desejo forte; o primeiro é o de gozar da companhia deles, de ser concidadão dos patriarcas, dos profetas, dos apóstolos e dos mártires, e de se alegrar com eles na comunhão dos santos.

O Evangelho do dia, as bem-aventuranças (Mt 5,1-12), mostra o caminho por onde eles passaram: “Bem-aventurados os limpos de coração: porque eles verão a Deus” (Mt 5,8). E o Concílio lembra que esse caminho não é para poucos: todos os fiéis, de qualquer estado ou condição, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade (Lumen Gentium, n. 40).

  • A comunhão dos santos. A Igreja do céu, a que se purifica e a que caminha na terra formam um só corpo em Cristo.
  • Os santos sem nome. A festa inclui todos os que estão com Deus, e não apenas os que a Igreja canonizou.
  • A vocação de todos. A santidade é o destino comum dos batizados, e não um privilégio de poucos.
  • A intercessão. Quanto mais intercessores, diz a Coleta, maior a abundância da misericórdia que se pede.
  • Uma ponte para Finados. Depois de festejar os que chegaram, a Igreja reza, no dia seguinte, pelos que ainda esperam.
“Os santos não precisam das nossas honras, e a nossa devoção nada lhes acrescenta. Se veneramos a memória deles, o proveito é nosso, não deles.”— São Bernardo de Claraval, Sermão V na festa de Todos os Santos, 5
“Lá estão eles mesmos; nós, só com os nossos desejos. Eles estão lá pela presença; nós, pela memória.”— São Bernardo de Claraval, Sermão V na festa de Todos os Santos, 5

As orações

Duas orações da própria festa: a Coleta da Missa, que pede misericórdia abundante porque os intercessores são muitos, e a antífona do Magnificat das Vésperas, que retoma o Apocalipse e que tantos compositores puseram em música.

Coleta · Solenidade de Todos os Santos
Latim

Omnipotens sempiterne Deus, qui nos omnium Sanctorum tuorum merita sub una tribuisti celebritate venerari, quaesumus, ut desideratam nobis tuae propitiationis abundantiam, multiplicatis intercessoribus, largiaris. Per Dominum nostrum Iesum Christum Filium tuum, qui tecum vivit et regnat in unitate Spiritus Sancti, Deus, per omnia saecula saeculorum.

Português

Deus eterno e todo-poderoso, que nos concedestes venerar numa só celebração os méritos de todos os vossos santos, nós vos pedimos: já que se multiplicam os nossos intercessores, derramai sobre nós a abundância da vossa misericórdia, que tanto desejamos. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos.

Amém.

O quam gloriosum · Antífona do Magnificat, Vésperas de Todos os Santos
Latim

O quam gloriosum est regnum, in quo cum Christo gaudent omnes Sancti! Amicti stolis albis, sequuntur Agnum quocumque ierit.

Português

Ó quão glorioso é o reino em que todos os santos se alegram com Cristo! Vestidos de túnicas brancas, seguem o Cordeiro aonde quer que ele vá.

Ap 7,9-14; 14,4

Omnes Sancti et Sanctae Dei, intercedite pro nobis. Todos os santos e santas de Deus, intercedei por nós.

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