
Hoje, 2 de novembro, a Igreja celebra a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, o nosso Dia de Finados. Há um pedido, feito no século IV por uma mulher à beira da morte, que resume o sentido deste dia. Santa Mônica estava em Óstia, longe da terra natal, e os filhos se preocupavam com o lugar onde enterrá-la. Ela respondeu: “Ponde este corpo em qualquer lugar; não vos inquieteis com ele. Só vos peço isto: que vos lembreis de mim no altar do Senhor, onde quer que estejais.”
O guia prático deste dia, com as orações e as indulgências, já está no site: Dia de Finados: orações e indulgência plenária. Esta página trata da pergunta anterior: por que rezamos pelos mortos.
Uma oração mais antiga que o cristianismo
A primeira resposta está na Escritura. O Segundo Livro dos Macabeus conta que, depois de uma batalha, Judas Macabeu e os seus foram recolher os corpos dos soldados caídos para enterrá-los. Debaixo das túnicas deles acharam objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, coisa que a Lei proibia. Judas, então, fez uma coleta e mandou doze mil dracmas de prata a Jerusalém, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados dos mortos, “sentindo bem e religiosamente da ressurreição” (2Mc 12,43).
O texto explica a lógica: se Judas não esperasse que os mortos haviam de ressuscitar, rezar por eles seria coisa supérflua e vã. E conclui: “É logo um santo e saudável pensamento orar pelos mortos, para que sejam livres dos seus pecados” (2Mc 12,46). O Concílio Vaticano II cita exatamente esse versículo ao lembrar que a Igreja peregrina, desde os primeiros tempos, cultivou a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios por eles (Lumen Gentium, n. 50).
O que faziam os primeiros cristãos
Nos primeiros séculos, os nomes dos irmãos falecidos eram escritos nos dípticos, as listas lidas na celebração. No começo do século III, Tertuliano registra o costume como coisa já estabelecida: “Fazemos as oblações pelos defuntos, pelos seus natalícios, no dia do aniversário” (De corona, 3). O natalício, para os cristãos, era o dia da morte, o nascimento para a vida eterna.
Santo Agostinho, num sermão sobre os mortos, separa com precisão o que consola os vivos do que ajuda os falecidos. O cortejo, a sepultura cara, o túmulo suntuoso são, diz ele, consolo para os vivos; já pelas orações da Igreja, pelo sacrifício da Missa e pelas esmolas oferecidas por eles, “não se deve duvidar de que os mortos são ajudados”. E acrescenta que isso foi recebido dos Padres e é observado pela Igreja inteira (Sermão 172, 2). As flores e as velas de Finados são um gesto bonito de amor; o que chega aos mortos é a oração.
“Lembrai-vos de mim no altar”
O pedido de Mônica está nas Confissões do filho (IX,11,27). Ela morreu em Óstia, no nono dia da doença, aos cinquenta e seis anos; Agostinho tinha trinta e três. Ele conta que ela não pediu um túmulo escolhido nem um enterro suntuoso, nem fez questão de ser sepultada junto ao marido, como antes desejara; quis apenas que se fizesse memória dela no altar, onde se oferece a vítima santa que apagou a dívida que pesava contra nós.
No fim do livro IX, Agostinho transforma esse pedido numa oração e a estende aos leitores: que todos os que lerem aquelas páginas se lembrem, no altar, de Mônica e de Patrício. Dezesseis séculos depois, quem lê as Confissões continua cumprindo o pedido.
A oração pelos mortos é antiga, mas o dia próprio é medieval. Santo Odilão, abade de Cluny (morto em 1048 ou 1049), mandou que todos os mosteiros ligados a Cluny fizessem, a cada ano, a comemoração de todos os fiéis defuntos no dia seguinte a Todos os Santos, com orações, Missas e esmolas aos pobres. A data tradicional é 998, mas a Catholic Encyclopedia observa que provavelmente foi depois de 1030. O costume passou a outros mosteiros e dioceses e chegou a Roma no século XIII.
A ordem dos dois dias não é acaso: primeiro a Igreja festeja os que já estão na glória; depois, reza pelos que ainda se purificam.
Por que rezar, e não apenas lembrar
- O amor não termina com a morte. A comunhão dos santos une os vivos, os que se purificam e os que estão na glória num só corpo, e quem é do mesmo corpo pode ajudar os outros membros.
- A Escritura o aprova. O “santo e saudável pensamento” de 2Mc 12,46 é a base bíblica que a Igreja sempre citou.
- A tradição é constante. Dos dípticos e de Tertuliano a Agostinho e Odilão, a Igreja nunca deixou de oferecer sufrágios pelos mortos.
- A Missa vem em primeiro lugar. Mônica não pediu flores nem mármore, mas o altar.
- É um ato de esperança. Só reza pelos mortos quem crê na ressurreição, como Judas Macabeu.
“Ponde este corpo em qualquer lugar; não vos inquieteis com ele. Só vos peço isto: que vos lembreis de mim no altar do Senhor, onde quer que estejais.”— Santa Mônica, em Santo Agostinho, Confissões IX,11,27
“As pompas do funeral, o cortejo das exéquias, o cuidado caro da sepultura, a construção suntuosa dos túmulos são, de algum modo, consolo para os vivos, e não ajuda para os mortos.”— Santo Agostinho, Sermão 172, 2
As orações
Primeiro, a oração de Santo Agostinho pela mãe, que fecha o livro IX das Confissões (trechos de IX,13,35 e 37); depois, a Coleta da primeira Missa do dia de Finados, em latim. As outras orações deste dia, o Requiem aeternam, o De profundis e a oração de Santa Gertrudes, estão no guia de Finados.
Ego itaque, laus mea et vita mea, Deus cordis mei, sepositis paulisper bonis eius actibus, pro quibus tibi gaudens gratias ago, nunc pro peccatis matris meae deprecor te. Exaudi me per medicinam vulnerum nostrorum, quae pependit in ligno et sedens ad dexteram tuam te interpellat pro nobis. … Dimitte, Domine, dimitte, obsecro, ne intres cum ea in iudicium. …
Sit ergo in pace cum viro … Et inspira, Domine meus, Deus meus, inspira servis tuis, fratribus meis, … ut quotquot haec legerint, meminerint ad altare tuum Monnicae, famulae tuae, cum Patricio, quondam eius coniuge.
Eu, pois, meu louvor e minha vida, Deus do meu coração, deixando por um momento de lado as boas obras dela, pelas quais te dou graças com alegria, agora te suplico pelos pecados de minha mãe. Ouve-me pelo remédio das nossas feridas, que esteve pregado no lenho e, sentado à tua direita, intercede por nós. … Perdoa, Senhor, perdoa, eu te suplico: não entres em juízo com ela. …
Que ela esteja, pois, em paz com o marido … E inspira, meu Senhor, meu Deus, inspira os teus servos, meus irmãos, … para que todos os que lerem estas páginas se lembrem, no teu altar, de Mônica, tua serva, e de Patrício, que foi seu esposo.
— Santo Agostinho, Confissões IX,13,35.37
Preces nostras, quaesumus, Domine, benignus exaudi, ut, dum attollitur nostra fides in Filio tuo a mortuis suscitato, in famulorum tuorum praestolanda resurrectione spes quoque nostra firmetur. Per Dominum nostrum Iesum Christum Filium tuum, qui tecum vivit et regnat in unitate Spiritus Sancti, Deus, per omnia saecula saeculorum.
Ouvi com bondade, Senhor, as nossas preces, para que, ao crescer a nossa fé no vosso Filho ressuscitado dos mortos, se firme também a nossa esperança na ressurreição que os vossos servos aguardam. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos.
Amém.
Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis. Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso, e a luz perpétua os ilumine.
- Dia de Finados: orações e indulgência plenária — o guia prático, com as condições e o texto das orações.
- Novena pelas almas do Purgatório — nove dias de oração pelos falecidos.
- Todos os Santos — a véspera, e Santa Mônica, a mãe que pediu o altar.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.

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