
Hoje, 4 de novembro, a Igreja celebra São Carlos Borromeu, bispo. Em agosto de 1576, quando a peste chegou a Milão, o arcebispo estava fora da cidade, num funeral em Lodi. Voltou imediatamente. Fez o testamento, entregou-se ao seu povo e ficou — e aquela epidemia passou para a história com o nome dele: a peste de São Carlos.
Um sobrinho de Papa
Carlos nasceu em 2 de outubro de 1538 na fortaleza de Arona, à beira do Lago Maior, segundo filho do conde Giberto Borromeo e de Margherita de’ Medici. Aos doze anos recebeu em comenda uma abadia em Arona; as fontes contam que fez questão de que as rendas fossem para os pobres. Estudou direito em Pavia e doutorou-se em 1559.
No fim daquele ano, o irmão da mãe, o cardeal Giovanni Angelo de’ Medici, foi eleito Papa com o nome de Pio IV, e chamou o sobrinho a Roma. Em 31 de janeiro de 1560, aos vinte e um anos, Carlos foi criado cardeal; dias depois, recebeu a administração da arquidiocese de Milão. Na prática, tornou-se o secretário de Estado do tio. Foi em grande parte pela paciência dele que o Concílio de Trento, suspenso desde 1552, voltou a reunir-se em janeiro de 1562 e chegou ao fim em dezembro de 1563. Depois, colaborou na preparação do Catecismo Romano, o catecismo do Concílio.
A decisão de 1562
Em 1562 morreu de repente Federico, o irmão mais velho, e a família esperava que Carlos deixasse o estado eclesiástico, se casasse e assumisse a casa Borromeo. Ele fez o contrário: foi ordenado sacerdote em 4 de setembro de 1563 e bispo em 7 de dezembro do mesmo ano. Bento XVI viu nisso o primeiro e mais radical gesto de reforma: antes de reformar os outros, Carlos reformou a si mesmo.
O Concílio pedia aos bispos que morassem nas suas dioceses, e Milão não tinha um arcebispo residente havia cerca de oitenta anos. Carlos fez a entrada solene na cidade em 23 de setembro de 1565, aos vinte e sete anos, e, com a morte de Pio IV no fim daquele ano, deixou Roma e passou a viver ali de vez.
O pastor de Trento
Em dezoito anos de governo, aplicou o Concílio com uma energia que se tornou modelo para a Igreja inteira:
- Seminários. Fundou os seminários de Milão, para a formação dos padres, e o Colégio Helvético, para o clero da Suíça.
- Visitas e sínodos. Percorreu várias vezes a diocese até os vales mais remotos dos Alpes; reuniu seis concílios provinciais e onze sínodos diocesanos, o último em 1584.
- Catequese. Promoveu as escolas da doutrina cristã para as crianças e fundou, em 1578, os Oblatos de Santo Ambrósio, padres seculares à disposição do bispo.
- Os pobres. Na fome de 1570, segundo a Catholic Encyclopedia, chegou a sustentar três mil pessoas por dia durante três meses, à sua custa.
A reforma teve inimigos. Na noite de 26 de outubro de 1569, enquanto rezava com a sua casa na capela do arcebispado, um membro da ordem dos Humilhados, que resistia à reforma, disparou contra ele um arcabuz a poucos metros. A bala o atingiu, mas não atravessou as vestes; Carlos fez sinal para que terminassem a oração. Dois anos depois, Pio V suprimiu a ordem.
A peste de 1576
De volta a Milão, Carlos fez o testamento em 9 de setembro de 1576 e entregou-se ao povo: visitava as casas dos doentes e o hospital de São Gregório, onde estavam os casos mais graves; convenceu o clero da cidade a fazer o mesmo, gastou o que tinha. Em procissões de penitência caminhou descalço, com uma corda ao pescoço, levando a relíquia do Santo Cravo, venerada na catedral. A epidemia começou a ceder no início de 1577 e desapareceu no ano seguinte. “As almas”, costumava repetir, segundo São João Paulo II, “conquistam-se de joelhos”.
Gastou-se depressa. No fim de outubro de 1584, depois de um retiro no Sacro Monte de Varallo, chegou a Milão com febre e morreu em 3 de novembro, aos quarenta e seis anos. Paulo V o canonizou em 1.º de novembro de 1610 e fixou a festa em 4 de novembro. No Calendário Romano Geral, o dia é de memória obrigatória.
Sobre o lago onde Carlos nasceu ergue-se o Sancarlone: uma estátua de 23,40 metros, sobre um pedestal de granito de 11,70, com o santo de pé, um livro na mão esquerda e a direita levantada para abençoar. Foi desejada pelo primo e sucessor dele, o cardeal Federico Borromeo, desenhada por Giovanni Battista Crespi, o Cerano, e feita de chapas de cobre batidas a martelo; as obras duraram de 1624 a 1698.
Por dentro, uma escada sobe até a cabeça, e o visitante pode olhar o lago pelos olhos do santo. Durante quase dois séculos foi a mais alta estátua visitável por dentro, até a Estátua da Liberdade, em 1886.
“Nada é tão necessário a todos os eclesiásticos quanto a oração mental, que precede todas as nossas ações, as acompanha e as segue. … Se administras os sacramentos, irmão, medita no que fazes; se celebras a missa, pensa no que ofereces; se cantas no coro, pensa a quem falas e o que dizes; se guias as almas, medita com que sangue foram redimidas.”— São Carlos Borromeu, sermão no último sínodo (1584), Acta Ecclesiae Mediolanensis, Milão, 1599, citado por São João Paulo II na homilia de 4 de novembro de 1980
“São Carlos empenhou-se numa profunda reforma da Igreja, começando pela própria vida.”— Bento XVI, mensagem Lumen caritatis, 1.º de novembro de 2010, n. 1
“A sua caridade para com os pobres e os que sofriam brilhou de modo extraordinário durante a peste de 1576, quando o santo arcebispo quis ficar no meio do seu povo, para encorajá-lo, servi-lo e defendê-lo com as armas da oração, da penitência e do amor.”— Bento XVI, Lumen caritatis, n. 2
As orações
As orações que a Igreja reza neste dia são as da missa da memória. A Coleta pede que a Igreja “se renove sem cessar”, a palavra que resume a vida de Carlos; a oração depois da comunhão pede a fortaleza que o fez “fiel no ministério e fervoroso na caridade”. Abaixo, o latim do Missal e a tradução.
Custodi, quaesumus, Domine, in populo tuo spiritum, quo beatum Carolum episcopum implevisti, ut Ecclesia indesinenter renovetur, et, Christi se imagini conformans, ipsius vultum mundo valeat ostendere.
Guardai, Senhor, no vosso povo o espírito com que enchestes o bispo São Carlos, para que a Igreja se renove sem cessar e, conformando-se à imagem de Cristo, possa mostrar ao mundo o seu rosto.
Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho. Amém.
Praestent nobis, quaesumus, Domine, sacra mysteria quae sumpsimus eam animi fortitudinem, quae beatum Carolum reddidit in ministerio fidelem et in caritate ferventem.
Que os sagrados mistérios que recebemos, Senhor, nos deem aquela fortaleza de alma que tornou São Carlos fiel no ministério e fervoroso na caridade.
Por Cristo, nosso Senhor. Amém.
Sancte Carole, ora pro nobis. São Carlos Borromeu, rogai por nós — e pelos nossos bispos e padres, para que sejam fiéis no ministério e fervorosos na caridade.
- São Martinho de Lima — o irmão dominicano de Lima, ontem, dia 3.
- São João Paulo II — Karol, que tinha São Carlos como padroeiro.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.

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