
Hoje, 6 de outubro, a Igreja lembra São Bruno. Escrevendo da Calábria a um amigo de juventude, ele disse: “O arco, se fica sempre retesado, perde a força e serve menos para o seu ofício.” Quem diz isso é um homem que passou quase duas décadas dirigindo a escola da catedral de Reims e depois foi viver, por escolha, onde quase ninguém o veria nem ouviria.
De Colônia a Reims
Nasceu em Colônia, por volta de 1030, estudou em Reims e voltou lá como mestre. A partir de 1057 dirigiu a escola da catedral, e as fontes o mostram como filósofo e teólogo respeitado; em 1075 tornou-se chanceler da arquidiocese. Um de seus alunos foi Eudes de Châtillon, que viria a ser o papa Urbano II.
A carreira acabou de forma pouco tranquila. O arcebispo Manassés de Gournay era corrupto, e Bruno e dois outros cônegos o denunciaram; Manassés foi suspenso no concílio de Autun, em 1077, e reagiu mandando derrubar as casas dos acusadores e confiscar seus bens. Em 1080 foi afinal deposto. Bruno, a essa altura, já estava deixando Reims.
Sabemos de uma promessa que Bruno fez antes de deixar o mundo, e sabemos por uma carta dele mesmo. Escrevendo a seu velho amigo Raoul le Verd, prepósito de Reims, ele lembra: certo dia, os dois e um terceiro, Fulcius, o Zarolho, estavam num jardim junto à casa de um certo Adão, conversando sobre as falsas alegrias do mundo e as da glória eterna. Ali, “ardendo de amor divino”, prometeram ao Espírito Santo largar em breve o mundo e tomar o hábito monástico.
Só que Fulcius foi a Roma, adiaram a decisão até a volta dele, e o fervor esfriou. Bruno a cumpriu; pela carta, Raoul ainda não. A carta, escrita da Calábria, é uma longa insistência, carinhosa e firme, para que o amigo cumpra o que jurou.
1084: a Chartreuse
Bruno partiu com companheiros, passou pela comunidade de Molesme e chegou a Grenoble, onde o bispo Hugo o acolheu. Em 1084, com seis companheiros (o mestre Landuíno, os dois Estêvãos, de Bourg e de Die, o capelão Hugo e os irmãos leigos André e Guérin), instalou-se num vale isolado dos Alpes, a Chartreuse. Segundo a tradição, o bispo tinha visto em sonho sete estrelas indicando o lugar. Construíram um oratório e, em volta, pequenas celas separadas.
A vida ali era de silêncio e solidão, e essa é a ideia que o nome dele deixou para a Igreja: um lugar onde se possa viver diante de Deus sem que ninguém precise ver.
Urbano II, a Calábria e a morte
Por volta de 1090, o ex-aluno virou papa e chamou o mestre a Roma para ajudar nas reformas da Igreja. Bruno obedeceu, mas resistiu quando quiseram fazê-lo arcebispo de Reggio, na Calábria: recusou e indicou um antigo discípulo. Em 1091 retirou-se com companheiros para um ermo na diocese de Squillace, onde o conde Rogério da Sicília lhes deu terras e, em 1095, custeou o mosteiro de Santo Estêvão.
Bruno morreu em 6 de outubro de 1101, em Serra San Bruno, cercado pelos irmãos. Nunca houve um processo de canonização formal: o papa Leão X, em 1514, autorizou o culto dele para a Ordem, e Gregório XV, em 17 de fevereiro de 1623, estendeu a festa à Igreja inteira.
- Silêncio e solidão. Cada monge vive em sua cela, e a vida em comum é reduzida ao essencial: o ofício e alguns momentos de convívio, como o passeio de domingo (o spatiamentum).
- Nunca reformada. A própria Ordem diz que, por ter guardado tão bem o espírito do fundador, nunca precisou de “reforma”. Hoje há pouco mais de vinte cartuxas no mundo.
- O lema. Stat crux dum volvitur orbis: “A cruz permanece firme enquanto o mundo gira.”
- Uma lenda para não repetir. Conta-se que a conversão de Bruno veio quando um célebre doutor de Paris, no próprio velório, teria falado três vezes do esquife. É lenda tardia: os contemporâneos e os primeiros biógrafos não a mencionam, e o próprio Bruno, na carta a Raoul, nunca a cita.
“Quão belo, quão proveitoso e quão doce é permanecer na escola dele, sob a disciplina do Espírito Santo, e alcançar a filosofia divina, que sozinha dá a verdadeira bem-aventurança: quem não o veria?”— São Bruno, carta a Raoul le Verd (Migne, PL 152, col. 422); tradução do latim
“Foge, meu irmão, foge de todas essas moléstias e misérias, e passa da tempestade deste mundo para o pouso seguro e tranquilo do porto.”— São Bruno, carta a Raoul le Verd (PL 152, col. 422); tradução do latim
As orações
O trecho mais célebre da carta, escrito da Calábria, é quase uma definição da vida cartuxa. Aqui, em latim e em tradução do latim:
Quid vero solitudo eremíque silentium amatóribus suis utilitátis iucunditátisque cónferat, norunt hi solum, qui experti sunt. Hic namque viris strenuis tam redire in se licet, quam libet; et habitare secum, virtutumque germina instanter excolere, atque de paradisi feliciter fructibus uti. Hic oculus ille conquiritur, cuius sereno intuitu vulneratur Sponsus amore, quo mundo et puro conspicitur Deus. Hic otium celebratur negotiosum, et in quieta pausatur actione. Hic pro certaminis labore repensat Deus athletis suis mercedem optatam, pacem videlicet, quam mundus ignorat, et gaudium in Spiritu Sancto.
O que a solidão e o silêncio do ermo trazem de proveito e de doçura a quem os ama, só sabem os que o experimentaram. Aqui, com efeito, os homens de ânimo forte podem recolher-se em si mesmos tantas vezes quanto queiram, habitar consigo, cultivar com empenho os germes das virtudes e alimentar-se, felizes, dos frutos do paraíso. Aqui se procura aquele olhar cujo aspecto sereno fere de amor o Esposo, e com o qual, limpo e puro, se vê Deus. Aqui se celebra um ócio bem ocupado e se repousa numa ação tranquila. Aqui, pela fadiga do combate, Deus dá aos seus atletas o prêmio desejado: a paz que o mundo ignora e a alegria no Espírito Santo.
— São Bruno, carta a Raoul le Verd (Migne, PL 152, col. 421–422)
Deus, qui sanctum Brunónem ad serviéndum tibi in solitúdine vocásti, eius nobis intercessióne concéde, ut, per huius mundi varietátes, tibi iúgiter vacémus.
Ó Deus, que chamastes São Bruno para vos servir na solidão, concedei-nos, por sua intercessão, que, em meio às vicissitudes deste mundo, nos mantenhamos sempre livres para vós.
Amém.
Sancte Bruno, ora pro nobis. São Bruno, rogai por nós, e ensinai-nos a calar o suficiente para ouvir.
- Santa Faustina Kowalska — a santa que escreveu que o silêncio é uma espada, no dia 5.
- Nossa Senhora do Rosário — a memória do dia 7.
- São Francisco de Assis — outro que trocou a cidade pela solidão, no dia 4.
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.

Comentários