Henry Scott Holland (1847-1918), sermão de 15 de maio de 1910 — não é de Santo Agostinho

Henry Scott Holland (1847-1918), sermão de 15 de maio de 1910 — não é de Santo Agostinho

“A morte não é nada”: quem escreveu de verdade (não foi Santo Agostinho)

O texto lido em tantos velórios vem de um sermão anglicano de 1910

Inglês (original)Português

Death is nothing at all. It does not count.
I have only slipped away into the next room.
Nothing has happened. Everything remains exactly as it was.
I am I, and you are you,
and the old life that we lived so fondly together is untouched, unchanged.
Whatever we were to each other, that we are still.

A morte não é nada. Não conta.
Eu só passei para o quarto ao lado.
Nada aconteceu. Tudo continua exatamente como era.
Eu sou eu, e você é você,
e a vida de antes, que vivemos juntos com tanto carinho, está intocada, inalterada.
O que éramos um para o outro, continuamos a ser.

Call me by the old familiar name.
Speak of me in the easy way which you always used.
Put no difference into your tone.
Wear no forced air of solemnity or sorrow.
Laugh as we always laughed at the little jokes that we enjoyed together.
Play, smile, think of me, pray for me.
Let my name be ever the household word that it always was.
Let it be spoken without an effort, without the ghost of a shadow upon it.

Chame-me pelo velho nome de sempre.
Fale de mim do jeito simples de sempre.
Não mude o tom da voz.
Não assuma um ar forçado de solenidade ou de tristeza.
Ria, como sempre rimos, das pequenas brincadeiras que nos divertiam juntos.
Brinque, sorria, pense em mim, reze por mim.
Que o meu nome continue sendo a palavra de casa que sempre foi.
Que seja dito sem esforço, sem nem a sombra de uma sombra sobre ele.

Life means all that it ever meant. It is the same as it ever was.
There is absolute and unbroken continuity.
What is this death but a negligible accident?
Why should I be out of mind because I am out of sight?
I am but waiting for you, for an interval,
somewhere very near, just round the corner.

A vida significa tudo o que sempre significou. É a mesma de sempre.
Há uma continuidade absoluta, sem nenhuma interrupção.
Que é esta morte, senão um acidente sem importância?
Por que eu sairia do seu pensamento só por ter saído da sua vista?
Estou apenas esperando por você, por um intervalo,
em algum lugar bem perto, logo ali, virando a esquina.

All is well. Nothing is hurt; nothing is lost.
One brief moment and all will be as it was before.
How we shall laugh at the trouble of parting when we meet again!

Está tudo bem. Nada se feriu; nada se perdeu.
Um breve instante, e tudo será como antes.
Como vamos rir do incômodo da separação quando nos encontrarmos de novo!

OrigemHenry Scott Holland (1847-1918), sermão de 15 de maio de 1910 — não é de Santo Agostinho · O texto lido em tantos velórios vem de um sermão anglicano de 1910

A história desta oração

O texto que circula no Brasil como “A morte não é nada”, quase sempre assinado “Santo Agostinho”, não é de Santo Agostinho. É um trecho de um sermão do cônego anglicano inglês Henry Scott Holland (1847-1918), pregado na Catedral de São Paulo, em Londres, no domingo de Pentecostes, 15 de maio de 1910. O rei Eduardo VII tinha morrido no dia 6, e o seu corpo seria exposto em Westminster Hall de 17 a 19 de maio. O sermão se chama “The King of Terrors” (“O rei dos terrores”, expressão do livro de Jó) e parte de 1 João 3,2: “agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser”.

O que o sermão realmente diz

Holland começa dizendo que todos oscilamos entre dois modos de ver a morte. O primeiro é o recuo instintivo diante dela, como o desastre supremo e sem volta, e ele lembra que a própria Escritura dá voz a esse grito. O segundo é o que sentimos olhando o rosto sereno de alguém que amamos: é aí que entram as palavras “A morte não é nada…”, que no sermão são o que esse rosto parece nos dizer em silêncio.

Logo depois, Holland admite que não conseguimos ficar nesse sentimento: vem o “longo e horrível silêncio” da ausência, e o antigo terror volta. A conclusão dele é que a nossa tarefa é “não negar nenhum dos dois juízos, mas combiná-los”, e o caminho é a fé: já somos filhos de Deus e vamos crescer até ver Cristo como ele é. Lido sozinho, o trecho diz menos do que Holland quis dizer.

E Santo Agostinho?

Não se sabe quando nem por quem o nome de Agostinho foi colado ao texto; nada parecido aparece nas obras dele. As versões em português que correm pela internet costumam ser adaptações livres, às vezes misturadas com frases de outros textos. A tradução acima segue de perto o original de Holland. Curiosamente, o trecho tem algo bem católico: quem partiu pede “reze por mim”.

Quando a mãe de Agostinho, Santa Mônica, morreu em Óstia, em 387, ele não disse que a morte não era nada. Nas Confissões (IX, 12) conta que primeiro segurou o choro e se perguntou o que doía tanto dentro dele, “senão a ferida recente de ter sido rompido de repente o costume tão doce e tão querido de vivermos juntos”. Depois, a sós diante de Deus, deixou as lágrimas correrem: “soltei as lágrimas que segurava, para que corressem quanto quisessem, e fiz delas um leito para o meu coração; e ele descansou nelas”. E Mônica, pouco antes de morrer, tinha pedido aos filhos uma coisa só: “que vos lembreis de mim no altar do Senhor, onde quer que estejais” (IX, 11).

Para Agostinho, a morte de quem amamos dói de verdade, e a resposta cristã é chorar diante de Deus, esperar a ressurreição e rezar pelos mortos, sobretudo na Missa.

Perguntas frequentes

“A morte não é nada” é de Santo Agostinho?

Não. O texto é de Henry Scott Holland, cônego anglicano inglês, de um sermão pregado na Catedral de São Paulo, em Londres, em 15 de maio de 1910. Nada parecido aparece nas obras de Santo Agostinho.

Quem foi Henry Scott Holland?

Um sacerdote anglicano inglês (1847-1918), cônego da Catedral de São Paulo, em Londres, e depois professor régio de Teologia na Universidade de Oxford, de 1910 até a sua morte, em 1918.

O que Santo Agostinho disse sobre a morte de quem amamos?

Nas Confissões (IX, 12), ao falar da morte da mãe, Santa Mônica, ele conta que chorou diante de Deus e que as lágrimas foram “um leito para o meu coração”. Ela lhe pediu que se lembrasse dela no altar do Senhor, isto é, que rezasse por ela na Missa.

Posso ler este texto num velório?

Fora da liturgia, num velório, num cartão ou numa homenagem, pode, sabendo de onde vem e o que o autor quis dizer. Na Missa, as leituras são sempre da Sagrada Escritura. E nada substitui as orações da Igreja pelos mortos, como o “Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso”.

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Schola Gregoriana · CC BY-SA