São Patrício, bispo da Irlanda, de Giambattista Tiepolo (1746)

17 de março · São Patrício, bispo, apóstolo da Irlanda

Dia de São Patrício: orações, história e o homem por trás das lendas

No dia 17 de março a Igreja celebra São Patrício, o bispo do século V que levou a fé à Irlanda. Na Irlanda o dia é solenidade e dia santo de guarda; nos países de forte imigração irlandesa, dos Estados Unidos à Austrália, é a festa de santo que quase todo mundo percebe.

Por trás dos desfiles há um homem real, que deixou dois textos curtos escritos por ele mesmo. Esta página deixa que ele fale, separa o que sabemos do que a lenda acrescentou depois, explica como a festa cai na Quaresma de 2027 e reúne as orações mais ligadas a ele, com links para os textos completos no site.

Quem foi São Patrício de verdade

Quase tudo o que se sabe com segurança sobre Patrício vem de dois textos latinos que ele mesmo escreveu no século V: a Confissão (Confessio), relato da sua vida e da sua vocação escrito já no fim dela, e a Carta aos soldados de Corótico, um protesto duro contra um chefe guerreiro britânico cujos homens tinham matado e escravizado cristãos irlandeses recém-batizados. Todo o resto, inclusive as grandes Vidas medievais, foi escrito séculos depois.

Pela Confissão sabemos que Patrício era um bretão de família cristã. O pai, Calpúrnio, era diácono, e o avô, Potito, sacerdote; moravam perto de um lugar que ele chama Bannavem Taburniae, que ninguém conseguiu identificar com certeza. Por volta dos dezesseis anos foi capturado por invasores e levado como escravo para a Irlanda, junto com milhares de outros. Passou ali seis anos cuidando de rebanhos, e foi ali, conta ele, que se voltou para Deus de verdade. Avisado em sonho de que um navio estava pronto, fugiu, caminhou até a costa e voltou para a Britânia.

Anos depois, já em casa, sonhou que um homem chamado Victorício vinha da Irlanda com inúmeras cartas, e numa delas ouviu a voz dos irlandeses chamando-o de volta. Voltou como bispo e passou o resto da vida pregando, batizando e ordenando clérigos na Irlanda, correndo perigos reais. A tradição situa a sua morte em 17 de março; o ano é incerto, e as datas mais citadas são 461 e 493.

São Patrício em suas próprias palavras

Os trechos abaixo são traduções nossas do latim de Patrício. Os números são os das seções nas edições modernas.

Confissão 1

Ego Patricius peccator rusticissimus et minimus omnium fidelium et contemptibilissimus apud plurimos…

“Eu, Patrício, pecador, o mais rude dos homens, o menor de todos os fiéis e desprezadíssimo aos olhos de muitos…”

Confissão 16

“Depois que cheguei à Irlanda, eu pastoreava rebanhos todos os dias e rezava muitas vezes ao dia. Cada vez mais crescia em mim o amor de Deus e o seu temor, e a fé aumentava, e o espírito era movido, de modo que num só dia eu fazia até cem orações, e de noite quase outro tanto, mesmo quando ficava nos bosques e no monte. Antes do amanhecer eu era despertado para a oração, com neve, com geada, com chuva, e não sentia mal nenhum.”

Confissão 23

“…e clamavam como a uma só voz: ‘Nós te pedimos, santo jovem, que venhas e caminhes de novo entre nós.’ Fiquei com o coração profundamente comovido, não consegui continuar lendo, e assim acordei.”

Confissão 41

“Como aconteceu que na Irlanda aqueles que nunca tiveram conhecimento de Deus e até agora só adoravam ídolos e coisas impuras se tornaram há pouco povo do Senhor e são chamados filhos de Deus, e que filhos de irlandeses e filhas de chefes são vistos como monges e virgens de Cristo?”

Confissão 62

Et haec est confessio mea antequam moriar.

“E esta é a minha confissão antes de morrer.”

Carta aos soldados de Corótico 1

“Eu, Patrício, pecador, sem dúvida sem instrução, estabelecido na Irlanda, declaro que sou bispo. Tenho toda a certeza de que recebi de Deus aquilo que sou.”

Lenda e história: o trevo e as cobras

Patrício nunca menciona o trevo, e as primeiras Vidas também não. Moedas irlandesas de cobre da década de 1670 parecem mostrar o santo pregando com um trevo na mão, e um diário de viagem de 1681 registra que os irlandeses usavam trevos no dia 17 de março. A fonte escrita mais antiga que se costuma citar para a história de que ele usou a planta de três folhas para explicar a Santíssima Trindade é o botânico Caleb Threlkeld, em 1726, que a apresenta como tradição corrente. Pode guardar uma memória oral antiga, mas não remonta ao próprio Patrício. Como imagem de um só Deus em três Pessoas, continua sendo uma boa lição de catequese, desde que não seja tomada ao pé da letra.

A Irlanda já não tinha cobras muito antes de Patrício: escritores da época romana, como Solino, já o notavam, e os naturalistas explicam o fato pela separação da ilha do continente depois da última era glacial. A história de Patrício expulsando para o mar todos os animais venenosos aparece no fim do século XII: Jocelino de Furness a conta na Vida do santo que escreveu por volta de 1200, e Geraldo de Gales, em 1188, já a mencionava como uma suposição piedosa, preferindo explicar o fato pela natureza da ilha. Muitos a leem como imagem do velho paganismo cedendo lugar ao Evangelho, e isso Patrício viu acontecer de fato, como conta na Confissão 41.

O dia de São Patrício na Quaresma de 2027

Em 2027, o dia 17 de março cai numa quarta-feira da quinta semana da Quaresma. Na Irlanda é solenidade e dia santo de guarda, de modo que a Missa é a de São Patrício e os fiéis devem participar dela. No calendário romano geral, usado no Brasil e na maior parte dos países, São Patrício é memória facultativa; num dia de semana da Quaresma só pode ser lembrado como comemoração, com a oração do santo dita na Missa do dia, salvo onde um calendário local lhe dê grau mais alto.

Como 17 de março de 2027 não é sexta-feira, a questão da abstinência de carne não se coloca neste ano. Nos anos em que cai numa sexta, a resposta depende do lugar: onde o dia é solenidade, como na Irlanda, a lei da abstinência não se aplica (Código de Direito Canônico, cân. 1251); nos outros lugares cabe ao bispo local conceder dispensa, como muitos já fizeram, e por isso convém conferir o que diz a própria diocese. Onde o dia é solenidade, quando 17 de março cai na Semana Santa a festa é transferida: em 2008 os bispos irlandeses a celebraram em 15 de março.

Dois dias depois, na sexta-feira 19 de março de 2027, vem a solenidade de São José, e por ser solenidade a abstinência das sextas-feiras não se aplica nesse dia em toda a Igreja.

A Couraça de São Patrício

A oração que muita gente chama de “oração de São Patrício” é a Couraça, em latim Lorica, também conhecida como o Grito do Cervo: “Cristo comigo, Cristo diante de mim, Cristo atrás de mim…”. Foi escrita em irlandês antigo e se conservou numa coleção de hinos irlandeses do século XI. A tradição a atribui ao próprio Patrício, embora os estudiosos datem o texto por volta do século VIII e o considerem obra de um clérigo irlandês posterior. Seja quem for o autor, é uma das grandes orações de proteção do Ocidente cristão e a oração natural para o dia 17 de março. O texto completo está na sua própria página.

O hino “Hail, Glorious St Patrick”

O hino mais conhecido ao santo foi escrito por uma irmã da Misericórdia irlandesa, a Irmã Agnes, nascida Eliza McSweeney em Cobh, no condado de Cork, que entrou no convento da Misericórdia de Charleville na década de 1840. Ele aparece pela primeira vez por volta de 1853, como o nº 14 de uma coletânea chamada Easy Hymns, atribuído à “Irmã Agnes, do Convento de Charleville”. Mais tarde ela partiu com as primeiras Irmãs da Misericórdia para Bathurst, na Austrália, e morreu lá no início do século XX. Esta é a primeira estrofe, como aparece no Catholic Prayer Book do cardeal Moran, de 1883, seguida de uma tradução nossa:

Hail, glorious St. Patrick, dear Saint of our isle!
On us, thy poor children, bestow a sweet smile;
And now thou art high in the mansions above,
On Erin's green valleys look down in thy love.

“Salve, glorioso São Patrício, querido santo da nossa ilha! Sobre nós, teus pobres filhos, derrama um doce sorriso; e agora que estás no alto, nas moradas do céu, sobre os verdes vales da Irlanda olha com amor.” No canto, o último verso costuma ser repetido como refrão.

Uma oração tradicional a São Patrício

A coleta da Missa de São Patrício no antigo Missal Romano é uma oração curta e sóbria, que qualquer pessoa pode fazer sua no dia 17 de março. Eis o latim com uma tradução nossa:

Deus, qui ad praedicandam gentibus gloriam tuam beatum Patricium Confessorem atque Pontificem mittere dignatus es: eius meritis et intercessione concede; ut, quae nobis agenda praecipis, te miserante adimplere possimus. Per Dominum nostrum Iesum Christum Filium tuum, qui tecum vivit et regnat in unitate Spiritus Sancti, Deus, per omnia saecula saeculorum. Amen.

Ó Deus, que vos dignastes enviar o bem-aventurado Patrício, vosso Confessor e Pontífice, para pregar a vossa glória aos povos, concedei-nos, por seus méritos e intercessão, que possamos cumprir, pela vossa misericórdia, aquilo que nos mandais fazer. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.

As palavras do próprio Patrício também servem de oração. Num longo trecho de ação de graças (Confissão 34) ele pergunta: “Quem sou eu, Senhor, e qual é a minha vocação, para que tenhais agido comigo com tamanho poder divino?”

Perguntas frequentes

O dia de São Patrício é dia santo de guarda?

Na Irlanda, sim: é solenidade e um dos dias santos de guarda do país, e os católicos de lá devem participar da Missa. No Brasil e na maior parte dos países é memória facultativa, sem obrigação, embora ir à Missa continue sendo a melhor maneira de celebrar o dia.

Pode-se comer carne no dia de São Patrício durante a Quaresma?

Em 2027 a questão não se coloca, porque 17 de março é quarta-feira. Quando cai numa sexta-feira, a abstinência não se aplica onde o dia é solenidade, como na Irlanda; nos outros lugares depende de dispensa do bispo, e convém conferir o que diz a diocese.

São Patrício usou mesmo o trevo para explicar a Trindade?

Não há provas antigas disso. Patrício nunca menciona o trevo, e a forma escrita mais antiga da história que se costuma citar é de 1726. Pode ecoar uma tradição oral mais antiga, mas é lenda, não história.

O que São Patrício escreveu de fato?

Restam duas obras em latim aceitas como dele: a Confissão e a Carta aos soldados de Corótico, ambas do século V. A Couraça é tradicionalmente atribuída a ele, mas os estudiosos datam o texto de época posterior.

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Schola Gregoriana · CC BY-SA