
Hoje, 1 de julho, o calendário tradicional celebra a festa do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e todo o mês que com ela se abre pertence a essa mesma devoção. Junho acaba de se encerrar com o Sagrado Coração; julho retoma o que junho começou — pois o Coração e o Sangue jorram do mesmo lado aberto. Este é um pequeno guia sobre por que o mês é dedicado ao Precioso Sangue, de onde vem a devoção, e uma consagração que você pode rezar, em latim e português, para torná-la sua.
Por que julho pertence ao Sangue
O ano da Igreja é tecido em silêncio. Em junho ela nos coloca diante do Sagrado Coração de Jesus, o Coração humano de Deus aberto pela lança do soldado. Daquela mesma ferida, diz-nos São João, “saíram imediatamente sangue e água” (Jo 19,34). Julho apenas segue o curso: do Coração aberto ao Sangue que dele brotou. As duas devoções não são rivais, mas um só movimento — o amor, e o preço que o amor pagou. Não é por acaso que o mês do Precioso Sangue vem logo depois do mês do Coração.
O preço da nossa redenção
A Escritura nunca fala do Sangue de Cristo como um pormenor. Ele é a própria moeda do nosso resgate. “Fostes resgatados”, escreve São Pedro, “não por coisas corruptíveis, como o ouro ou a prata, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha” (1 Pd 1,18–19). “Nele temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados” (Ef 1,7). Por esse Sangue Deus fez “a paz… pelo sangue da sua cruz” (Cl 1,20); por ele “somos purificados de todo pecado” (1 Jo 1,7); e no Apocalipse os santos são os que “lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro” (Ap 7,14). Honrar o Precioso Sangue é honrar o preço com que fomos comprados — e a Eucaristia, onde esse Sangue nos é verdadeiramente dado a beber, é o centro pulsante de toda a devoção.
De onde vêm a devoção — e o mês
O amor ao Sangue de Cristo é tão antigo quanto o Calvário, e o encontramos ardendo em Santa Catarina de Sena, que assinava as suas cartas “no doce Sangue de Jesus” e não se cansava de exortar as almas a “afogar-se” nele. Mas a devoção tomou a sua forma moderna e organizada por meio de um grande apóstolo do século XIX, São Gaspar del Bufalo (1786–1837), fundador dos Missionários do Preciosíssimo Sangue, a quem o Papa João XXIII chamou “o verdadeiro e maior apóstolo da devoção ao Preciosíssimo Sangue”. A sua filha espiritual Santa Maria De Mattias difundiu-a entre as mulheres, pelas Adoradoras do Sangue de Cristo, e a romana Arquiconfraria do Preciosíssimo Sangue levou-a ao mundo inteiro.
A liturgia acompanhou. O Beato Pio IX, ao regressar a Roma em 1849, depois do exílio em Gaeta — onde um missionário do Precioso Sangue o havia consolado —, estendeu a festa do Preciosíssimo Sangue a toda a Igreja. São Pio X fixou a sua data em 1 de julho (1914). Pio XI elevou-a de grau em 1933, para coroar o décimo nono centenário da nossa Redenção. Assim o mês inteiro passou a ser dedicado ao Precioso Sangue. Na reforma do calendário após o Concílio, a festa própria foi unida a Corpus Christi — hoje a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo —, mas a dedicação de julho e a devoção permanecem, e a bela Ladainha do Preciosíssimo Sangue foi aprovada por São João XXIII para toda a Igreja em 1960.
Ato de Consagração ao Preciosíssimo Sangue
A devoção torna-se real quando entregamos algo. Esta consagração pode ser rezada hoje, no primeiro dia do mês, e renovada a cada manhã de julho. Reze-a em latim, em português, ou verso a verso nos dois:
Latine
Domine Iesu Christe, qui de latere tuo aperto Sanguinem et aquam in pretium redemptionis nostrae effudisti:
ego, licet omnium peccatorum indignissimus, Pretiosissimo Sanguini tuo me totum consecro.
Accipe, quaeso, corpus et animam meam, cogitationes, verba et opera mea, et omnia Sanguine tuo pretioso asperge.
Fac ut per singulos vitae meae dies virtutem eius honorem et praedicem; et in hora mortis meae sit mihi fons salutis et ianua caeli.
Sanguis Christi, inebria me; Sanguis Christi, salva me. Amen.
Português
Senhor Jesus Cristo, que do vosso lado aberto derramastes Sangue e água como preço da nossa redenção:
eu, ainda que o mais indigno de todos os pecadores, consagro-me inteiramente ao vosso Preciosíssimo Sangue.
Recebei, eu vos peço, o meu corpo e a minha alma, os meus pensamentos, as minhas palavras e as minhas obras, e aspergi tudo com o vosso Precioso Sangue.
Fazei que, em cada dia da minha vida, eu honre e proclame a sua força; e, na hora da minha morte, seja ele para mim fonte de salvação e porta do céu.
Sangue de Cristo, inebriai-me; Sangue de Cristo, salvai-me. Amém.
Como viver o mês
A devoção pede pouco e dá muito. Viva-a com simplicidade ao longo de julho:
- Reze o Ato de Consagração acima no primeiro dia do mês e renove-o a cada manhã.
- Uma vez por semana, reze a Ladainha do Preciosíssimo Sangue, ou a Coroa que recorda as sete efusões do seu Sangue — a Circuncisão, a Agonia no Horto, a Flagelação, a Coroação de espinhos, o caminho da Cruz, a Crucifixão e a abertura do lado.
- Na Missa e na Comunhão, onde o Sangue é realmente dado, ofereça-o ao Pai em reparação pelos pecados e pelas almas do purgatório — a clássica oferta do Precioso Sangue.
- Faça sua a antiga oração Anima Christi: “Sangue de Cristo, inebriai-me … dentro das vossas chagas escondei-me.”
O que dizem os santos e a Escritura
“Fostes resgatados … não por ouro ou prata, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha.”— 1 São Pedro 1,18–19
“Afogai-vos no Sangue de Cristo crucificado.”— Santa Catarina de Sena, Cartas
“Do lado de Cristo, como de uma fonte, brotaram sangue e água — e destes nasceu a Igreja.”— segundo São João Crisóstomo, Catequese 3
“Eles o venceram pelo sangue do Cordeiro.”— Apocalipse 12,11
- A Ladainha do Preciosíssimo Sangue — latim e português, para rezar aqui — a ladainha completa, pronta para rezar na página.
- A glória da cruz — um poema sobre a Cruz de onde jorra o Sangue que nos salva.
- Os hinos eucarísticos de Santo Tomás de Aquino — latim e português lado a lado, onde o Adoro te canta: “lava-me, imundo, no teu Sangue”.
Um só amor, uma só ferida, um só preço. Em junho adoramos o Coração que foi aberto; em julho adoramos o Sangue que dele correu. Consagre-se a ele neste mês e deixe que cada dia de julho seja vivido sob essa torrente que salva. Sanguis Christi, salva me.


Comments Comentários