A Virgem Maria em oração, pintura do Sassoferrato
A Virgem em oração, de Giovanni Battista Salvi, o Sassoferrato (séc. XVII). Domínio público.

Hoje, 12 de setembro, a Igreja celebra o Santíssimo Nome de Maria. É a festa de uma palavra — e, ao contrário do que se esperaria de uma devoção tão suave, nasceu de um campo de batalha.

11 de setembro de 1683

Viena estava cercada havia dois meses pelo exército otomano de Kara Mustafá. A cidade era a porta da Europa central e estava prestes a cair; as minas já tinham aberto brecha nas muralhas.

O papa Inocêncio XI gastara o pontificado a tentar juntar os príncipes cristãos, que preferiam guerrear uns contra os outros. Conseguiu-o à última hora. No dia 12 de setembro, o rei da Polônia João III Sobieski desceu do monte Kahlenberg com a maior carga de cavalaria da história e desfez o cerco.

O despacho que Sobieski mandou a Roma é uma correção deliberada de César. Onde o imperador escrevera vim, vi, venci, o rei escreveu:

“Venimus, vidimus, Deus vicit” — viemos, vimos, Deus venceu.

Inocêncio XI, em ação de graças, estendeu à Igreja inteira a festa do Nome de Maria, que até então se celebrava só em alguns lugares — a mais antiga é de Cuenca, em Espanha, desde 1513.

Saiu do calendário, e voltou

A reforma de 1969 retirou a festa do calendário geral. O critério era razoável: havia muitas memórias marianas e algumas repetiam-se.

Mas a devoção não morreu, e em 2002 João Paulo II repô-la como memória facultativa. É por isso que muitos missais antigos a têm e alguns modernos não — não houve contradição, houve uma volta.

O que o nome quer dizer

Ninguém sabe ao certo. Miryam, em hebraico, é anterior à Escritura como nome próprio — a irmã de Moisés já se chamava assim — e os estudiosos propõem várias raízes:

  • Senhora, de uma raiz que significa altura, eminência. É a leitura mais aceita hoje.
  • Amada, ou “a que é amada por Deus”, de uma raiz egípcia — plausível, dado o contexto do Êxodo.
  • Estrela do mar, a mais célebre, e a mais frágil. São Jerônimo escreveu stilla maris, gota do mar; um copista trocou por stella, estrela, e a troca deu ao Ocidente o Ave Maris Stella e mil anos de poesia. Um erro de cópia que a Igreja inteira acabou por adotar.

Vale reter a honestidade da coisa: a etimologia é incerta, e a Igreja nunca fez dela um artigo de fé. O que se celebra hoje não é uma definição — é um nome que se pronuncia.

Por que um nome

Chamar alguém pelo nome é a coisa mais simples que existe, e é o que se faz quando não há mais nada a fazer. A festa de hoje não pede orações longas. Pede que a palavra esteja à mão.

“Olha para a estrela, chama por Maria.”— São Bernardo de Claraval
“Viemos, vimos, Deus venceu.”— João III Sobieski, depois de Viena, 12 de setembro de 1683
“O nome de Maria é júbilo no coração, mel na boca, melodia no ouvido.”— atribuído a São Bernardo

As orações

A passagem abaixo é de São Bernardo, na segunda homília super Missus est. É o texto que fixou esta devoção no Ocidente:

São Bernardo · Mariam invoca
Latim

In perículis, in angústiis, in rebus dúbiis, Maríam cógita, Maríam ínvoca… Ipsam sequens non dévias, ipsam rogans non despéras, ipsam cógitans non erras.

Português

Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, chama por Maria… Seguindo-a, não te desvias; rogando-lhe, não desesperas; pensando nela, não erras.

— São Bernardo, Homilia II super Missus est

E esta é a Coleta da memória de hoje:

Coleta · Santíssimo Nome de Maria
Latim

Concéde, quæsumus, omnípotens Deus, ut fidéles tui, qui sub sanctíssimæ Vírginis Maríæ nómine et protectióne lætántur, eius pia intercessióne a cunctis malis liberéntur in terris, et ad gáudia ætérna perveníre mereántur in cælis.

Português

Concedei, ó Deus todo-poderoso, que os vossos fiéis, que se alegram sob o nome e a proteção da santíssima Virgem Maria, sejam livres de todos os males na terra pela sua piedosa intercessão, e mereçam alcançar no céu as alegrias eternas.

Amen.

Sancta Maria, ora pro nobis. Santa Maria, rogai por nós — vós, cujo nome cabe inteiro num suspiro.

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