A Santíssima Trindade coroa Nossa Senhora entre nuvens e anjos, pintura de Velázquez
A coroação da Virgem, Diego Velázquez (c. 1635), Museu do Prado. Domínio público.

Há uma pergunta razoável por trás desta festa: rainha por quê? Não foi coroada por ninguém em vida, não governou território nenhum, não casou com rei. A resposta está num detalhe do Antigo Testamento que quase nunca se explica — e, uma vez explicado, resolve de uma vez a realeza de Maria, a sua intercessão e o motivo de os católicos lhe pedirem coisas. No reino de Judá, a rainha não era a esposa do rei. Era a mãe dele.

A gebirah

Os reis de Judá tinham muitas mulheres. Salomão, o caso extremo, tinha centenas. Numa corte assim, “esposa do rei” não é cargo: é uma condição partilhada por dezenas de pessoas, e não serve para governar nada.

Por isso a monarquia davídica institucionalizou outra coisa. Havia um posto oficial, com título próprio — gebirah, a “grande dama” ou rainha-mãe — e ele pertencia sempre à mãe do rei reinante, porque o rei tem muitas esposas e uma só mãe.

Não é dedução: está no texto. O Livro dos Reis apresenta cada novo reinado com uma fórmula fixa, e a fórmula inclui o nome da mãe. “Tinha vinte e cinco anos quando começou a reinar (…) e o nome de sua mãe era…” Isso se repete reinado após reinado. A Escritura registra as rainhas-mães como quem registra ministros de Estado, porque era isso que elas eram.

Um versículo que explica tudo

E há uma cena que mostra o cargo funcionando. Betsabé, mãe de Salomão, vai falar com o filho, que já é rei, para levar-lhe um pedido de outra pessoa:

“Betsabé foi ter com o rei Salomão (…). O rei levantou-se para ir ao seu encontro e prostrou-se diante dela; depois sentou-se no seu trono e mandou colocar um trono para a sua mãe, que se sentou à sua direita. Ela disse: Tenho um pequeno pedido a fazer-te; não mo recuses. O rei respondeu: Pede, minha mãe, porque não to recusarei.” (1Rs 2,19-20)

Leia devagar, porque cada elemento da doutrina católica sobre Maria está ali dentro:

  • O rei se levanta e se curva diante dela. Um monarca absoluto do Oriente antigo não se curva para ninguém — exceto para a mãe.
  • Ela tem trono, e à direita. O lugar do poder delegado. Não é honra decorativa; é lugar institucional.
  • Ela chega intercedendo por outra pessoa. Não pede para si. O ofício da rainha-mãe era exatamente esse: levar ao rei os pedidos de quem não tinha acesso a ele.
  • “Pede, minha mãe, porque não te recusarei.” É a frase que a Igreja repete há dois mil anos com outras palavras.

Rainha porque mãe do Rei

Com isso na mão, o anúncio do Anjo muda de tom. Gabriel não diz a Maria que ela terá um filho bom. Diz-lhe:

“O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.” (Lc 1,32-33)

Uma jovem judia ouvindo isso entendia perfeitamente o que estava sendo dito sobre ela mesma: se aquele menino é o herdeiro davídico, então ela é a gebirah do reino que não acaba. A realeza dela não é um título honorífico acrescentado depois pela devoção popular — é uma consequência automática da maternidade divina.

Ela não é rainha por conquista, nem por casamento, nem por eleição. É rainha por relação: porque o Rei é filho dela, e nenhum rei tem duas mães.

Uma coroa que é obediência

Vale notar que tipo de rainha ela é. A única instrução que o Evangelho registra da boca dela, dirigida a alguém, são cinco palavras em Caná: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5).

É todo o programa de governo desta rainha. Ela não desvia ninguém do Filho — empurra todo mundo para Ele. Quem teme que a devoção mariana roube atenção a Cristo precisa explicar por que a única ordem que ela dá é essa.

Por que a festa cai hoje

Pio XII instituiu a festa em 1954, com a encíclica Ad caeli Reginam, e a fixou inicialmente em 31 de maio. A reforma do calendário, em 1969, mudou-a para 22 de agosto — e a mudança foi deliberada.

Vinte e dois de agosto é exatamente uma oitava depois da Assunção. Não é acaso de calendário: é uma frase dita com datas. Primeiro ela é levada em corpo e alma; oito dias depois, coroada. Chegar e ser coroada são o mesmo acontecimento em dois tempos, e o calendário obriga a lê-los juntos.

No Rosário é a mesma sequência: a Assunção é o quarto mistério glorioso, a Coroação é o quinto. Quem reza o terço já sabe disto de cor, ainda que nunca tenha ouvido a palavra gebirah.

A mulher da coroa de estrelas

E fica a imagem do Apocalipse, que a liturgia usa nos dois dias: “uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas” (Ap 12,1).

Doze estrelas: as doze tribos, os doze apóstolos — Israel e a Igreja na mesma coroa. E logo em seguida o texto mostra essa rainha em fuga, com dores de parto e um dragão à espera. É um retrato honesto do cargo. A realeza dela não a poupou de nada, e é por isso que se pode recorrer a ela sem constrangimento: não é uma rainha distante do que acontece com quem lhe pede.

Regina caeli, laetare. Rainha do céu, alegrai-vos — e fazei conosco o que a rainha-mãe sempre fez: levai ao Rei o pedido de quem não tem acesso a Ele.

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