Hb 12,1-2: “Corramos com perseverança ao combate proposto, com o olhar fixo no autor e consumador de nossa fé, Jesus.”
Capítulos do vídeo⌄
Resumo do vídeo
Acreditar cegamente: a perseverança quando nada do que se sonhou aconteceu
Gravado numa sexta-feira de julho de 2026, este é o primeiro vídeo em que Gustavo aparece com o violão — comprado na semana anterior, depois de quase uma hora testando instrumentos na loja — e o primeiro em que a música entra como parte da partilha, e não como acompanhamento. Ele abre cantando Apoiado em ti, canção de sua autoria escrita em 2017, e explica por que a escolheu: o tema da noite é a perseverança, o capítulo 5 do seu livro Direção Espiritual, volume III, e a letra já diz tudo o que ele vai desdobrar em quarenta minutos — “vou perseverar em tua santa graça”.
O que vem depois não é uma exposição doutrinal. É um testemunho com o livro aberto na mão, atravessado por dois poemas que ele escreveu há dez anos, num período em que a vida não se parecia nada com o que aparece nas redes sociais.
O capítulo que se chama “Não desista”
Ele lê a página 200: “Como é bom saber que nosso Deus é fiel. Ele não nos abandona nunca! Seja o que quer que façamos, que escolhamos, que sigamos, ou mesmo se nos desviamos e nos afastamos dEle… Ele nunca se afasta de nós”. E emenda o hino da Igreja primitiva que São Paulo ensinou a Timóteo: se soubermos perseverar, com Ele reinaremos; se formos infiéis, Ele continua fiel, e não pode desdizer-se.
É a chave de leitura do capítulo inteiro, e ele a formula em três verbos: insistir, persistir e não desistir — os mesmos de dois textos deste blog, escritos em 2013 e em 2015, que anos depois viraram este capítulo. Antes de seguir, mostra a capa do livro à câmera e conta de onde vem a imagem — o caminho estreito, cheio de curvas e pedras, cujo destino é o céu. Era o sentido do blog que deu origem a tudo, o vounessadirecao.blogspot.com: seguir nessa direção.
De Londrina a Belfast — e a queda que ninguém via
O testemunho é o mesmo que abre o capítulo 1 do livro, mas aqui ele o conta com uma franqueza que o texto impresso não alcança. Saiu de Londrina sem perspectiva de progredir, passou pela Itália e chegou a Belfast, onde vive há onze anos, casou-se e teve os filhos — o quinto está a caminho. Nada disso, diz, teria acontecido sem uma decisão: seguir Jesus, consagrar-se à Virgem Maria como escravo, entregar passado, presente e futuro e deixar que Deus tomasse as rédeas.
Mas a parte que ele faz questão de contar é a outra. Chegou à Irlanda do Norte com uma vida de oração intensa — rosário, missa diária, adoração, Bíblia, catecismo, os textos que viriam a ser este livro — e foi arrancado do lugar onde tinha apoio, amigos e língua. Sem nada disso, não conseguiu se manter firme na graça. Caiu em pecado e, nas suas palavras, tentou se esquecer de quem era.
É a resposta que ele deu quando o produtor de uma emissora católica lhe perguntou o que queria dizer com “viver numa ilusão”. E é o ponto em que ele vira a partilha para quem assiste: principalmente quem sai do Brasil monta no Instagram uma vida fantástica, mas só a própria pessoa e Deus sabem do vazio, do buraco, do vício e da máscara por trás. Ele fecha com Santo Agostinho — o pecado é o motivo da sua tristeza — e acrescenta o outro lado: que a santidade seja o motivo da sua alegria.
Dois poemas escritos no fundo
Os poemas são o coração do vídeo, e ele os lê inteiros. O primeiro, Vida hipócrita de farrapos, é de junho de 2017: “Como nos acovardamos simplesmente diante da verdade de quem somos e como somos… Estamos acostumados demais com o vazio”. Ele comenta que o pecado é exatamente isso — distância de Deus, distância de sentido, e o hábito de conviver com o vazio — e lembra Santa Clara de Assis, que pedia para se ter sempre diante dos olhos de onde se saiu.
O segundo, Estrada resignada, é de julho de 2016 e é o mais duro dos dois: um inventário de tudo o que ele quis ser e não conseguiu. Grande, e nem grande nem pequeno, apenas médio. Forte, e o que percebe é fraqueza e inconstância, “uma vontade dominada pelos desejos infantis”. Maduro, e ainda pior que uma criança mimada. Sábio, e tolo e ignorante, com dificuldade de aprender coisas novas. Bom, e egoísta demais para enxergar além do próprio umbigo. Santo, e “de tanto subir e cair cheguei num ponto estranho demais”.
Perseverar também no que não é espiritual
É a partir daí que o vídeo faz o seu movimento mais útil. Gustavo insiste que perseverança não é assunto só de vida de oração: vale para a academia, para a carreira, para o casamento, para os filhos. E dá o exemplo que mais lhe custou — aprender inglês. “Vocês não sabem como eu sofri para esse inglês entrar na minha cabeça.” Quanto chorou, quanto rezou, o quanto demorou até conseguir entender o jeito como as pessoas falam e respiram entre as palavras.
Reconhece também, sem rodeios, que lhe faltava compaixão: queria que as pessoas andassem no seu passo, e descobriu que não sabia andar no passo delas. E observa que isso não muda da noite para o dia — é coisa lapidada a vida inteira.
Acreditar cegamente é o nome que a fé tem
O verso final de Estrada resignada é onde os dois fios se amarram. Diante de tudo o que não se alcançou, restam duas saídas: parar no meio do caminho, ou continuar até o último dos dias e acreditar cegamente que um dia tudo isso se alcançará. Gustavo faz questão de nomear o que é essa segunda saída: acreditar cegamente é o que se chama fé.
Escrito dez anos antes, o poema terminava numa pergunta em aberto; agora ele responde de dentro da própria história. Não importa se você chegará ao nível que sonhava. A única forma de conseguir alguma coisa — na virtude, na fé, na vocação, no casamento — é acreditar cegamente e continuar até o último suspiro. E lembra a frase de Santa Terezinha: Deus não põe no nosso coração nada que não seja capaz de realizar.
Hebreus 12: correr com o olhar fixo
Para encerrar, ele lê a passagem que também está no livro, comentada antes e depois: cercados de uma tal nuvem de testemunhas, desvencilhemo-nos das cadeias do pecado e corramos com perseverança ao combate proposto, com o olhar fixo no autor e consumador da nossa fé. A parte que ele demora é a da correção — o Senhor corrige a quem ama, e quem permanece sem correção não é filho legítimo —, terminando no versículo que dá o tom de todo o vídeo: “Levantai, pois, vossas mãos fatigadas e vossos joelhos trêmulos”. E os que claudicam, que tornem ao bom caminho e não se desviem.
- Perseverança não é resistir parado: a gente não foi feito para morar na noite escura, mas para atravessá-la.
- Vale para tudo, não só para a vida espiritual — inclusive para o que parece pequeno demais para se levar à oração.
- A vida perfeita das redes é a máscara; o vazio por trás dela tem nome, e Santo Agostinho já o disse.
- Não esqueça de onde saiu — o conselho de Santa Clara é uma defesa contra a versão editada de si mesmo.
- Diante do que não se alcançou, há só duas estradas: desistir no meio, ou acreditar cegamente até o último dia. A segunda tem outro nome: fé.
Passagens e referências: 2Tm 2,11-13; Hb 12,1-13; Pr 3,11. Menções a Santo Agostinho, Santa Clara de Assis e Santa Teresinha do Menino Jesus. Canção de abertura: Apoiado em ti, do próprio autor (2017). Poemas lidos na íntegra: Vida hipócrita de farrapos (junho de 2017) e Estrada resignada (julho de 2016). O trecho lido é do capítulo 5, “Perseverança — Não desista, Deus não desiste de você”, de Direção Espiritual, volume III, com prefácio do Padre Bruno Athila.
Transcrição completa do vídeo⌄
Transcrição integral do áudio do vídeo, organizada em parágrafos para facilitar a leitura. A canção de abertura e os dois poemas são reproduzidos a partir do texto publicado pelo autor; as passagens bíblicas, a partir da edição do livro que ele lê diante da câmera.
Eu vou seguir,
vou conseguir,
apoiado em ti,
vou até o fim.
Vou vencer meus medos,
atravessar as pontes,
escalar montanhas,
expandir meus horizontes.
Vou perseverar em tua santa graça
e me saciar com tua palavra.
Eu vou seguir,
vou conseguir,
apoiado em ti,
vou até o fim.
Vou cruzar os mares,
derrubar gigantes,
renunciar o pecado
e seguir adiante.
Em teus caminhos, Deus, é o meu lugar.
Nem vida ou morte vai me separar…
Do teu amor!
No teu amor…
Em teu amor…
Pelo teu amor…
Eu vou seguir,
vou conseguir,
apoiado em ti,
vou até o fim.
Quanto tempo eu esperava por esse momento, para poder adicionar aos vídeos essa parte de música — porque também faz parte, né, das composições, das graças que Deus me deu de escrever.
Semana passada eu fui na loja e acabei comprando esse violão maravilhoso aqui, da Cort. Não sei se é assim que se fala, mas eu fiquei quase uma hora na loja e testei praticamente todos os violões — claro, na faixa de preço que eu posso comprar. E esse som é fantástico. Eu tive a graça de conduzir a adoração da Legião de Maria semana passada.
E hoje, nessa sexta-feira, eu quero partilhar com você esse tema da perseverança, esse tema maravilhoso que eu tanto gosto, que está no capítulo 5 do meu livro. Eu vou falar também um pouco sobre o livro. Essa música que eu acabei de tocar se chama Apoiado em ti, e ela é perfeita, ela é muito propícia para esse tema de perseverança que nós vamos falar.
Então eu gostaria de começar já lendo um trecho do livro mesmo — o livro Direção Espiritual, volume 3. O Padre Bruno me deu a graça de escrever o prefácio, e ele sintetizou de forma muito maravilhosa, sabe, o que é esse livro, o que o livro representa, o que ele significa para mim. E no capítulo 5 tem o capítulo da perseverança, e diz assim: “Não desista — Deus não desiste de você”.
Eu quero ler um trecho aqui, porque isso pode te inspirar. E perseverança diz respeito a muitas áreas da nossa vida. Você pode estar passando aí por um momento de dificuldade espiritual e, claro, a perseverança é o que você precisa para poder suportar as dificuldades que sobrevêm e passar por elas — porque a gente não foi feito para ficar em dificuldade, a gente não foi feito para ficar em deserto, a gente não foi feito para morar na noite escura, mas para passar por ela.
Então eu quero ler para você esse pequeno trecho e depois nós vamos continuar a nossa partilha aqui. Essa daqui é na página 200 do livro:
“Como é bom saber que nosso Deus é fiel. Ele não nos abandona nunca! Seja o que quer que façamos, que escolhamos, que sigamos, ou mesmo se nos desviamos e nos afastamos dEle… Ele nunca se afasta de nós! Pode ser que não vivamos com Deus, mas Ele sempre vive conosco, nos guarda e nos protege, respeitando sempre nosso livre-arbítrio.”
São Paulo já ensinava a Timóteo dessa forma, e este ensinamento se tornou um hino na Igreja primitiva, que perdura até hoje:
“Eis uma verdade absolutamente certa: se morrermos com Ele, com Ele viveremos. Se soubermos perseverar, com Ele reinaremos. Se, porém, O renegarmos, Ele nos renegará. Se formos infiéis… Ele continua fiel, e não pode desdizer-se.” (2Tm 2,11-13)
Muitas vezes nós não sabemos perseverar. Quais caminhos escolher para perseverar com o nosso Senhor Jesus Cristo? Quais decisões tomar? Como pensar? Como amadurecer em Deus, crescer na sua presença em estatura, sabedoria e graça? Se você está assim, este capítulo é indicadíssimo para você.
Por diversas vezes renegamos ao Senhor. Muitas vezes somos infiéis, nas grandes e nas pequenas coisas. Mas que bom que você está aqui, para juntos nos aprofundarmos neste tema, que já está bem explícito nessa noite. Que bom que começamos com essa passagem.
Então eu vou te mostrar aqui, ó, a capa do livro. O livro é um e-book, tem 264 páginas em português. Eu fiz a versão em inglês — ela é diferente da versão em português. E aqui está a capa, ó, bem linda. É exatamente o que significa, ou o que significava, o meu blog de direção espiritual: vounessadirecao.blogspot.com era o nome do blog. Então é “seguir nessa direção”. Como você pode ver aqui, o caminho é estreito, o caminho não é fácil, não é só reta, tem várias curvas, tem pedras no caminho — mas o destino é o céu. Então é isso que importa.
Esse caminho de direção espiritual que eu proponho através desse livro se chama Conversão e Perseverança. E no capítulo um eu já falo sobre a minha vida, falo de onde eu vim. Eu partilho um testemunho de vida, depois um testemunho de conversão: como eu deixei de ser a pessoa que eu era e como eu me tornei a pessoa que eu sou hoje. As experiências que eu tive com Deus, as graças que eu recebi, os milagres que eu presenciei, as curas, as libertações, as palavras que Deus dirigiu a mim diretamente e também através de outras pessoas. Até eu sair da minha realidade, morando em Londrina, sem perspectiva nenhuma de progredir, e vir morar aqui em Belfast, na Irlanda do Norte.
Peguei um avião, fui para a Itália; da Itália vim para cá, e faz 11 anos que eu moro aqui na Irlanda do Norte, aqui na cidade de Belfast. Me casei aqui na cidade, tive meus filhos, estamos esperando o nosso quinto filho agora.
E sabe, tudo aquilo que Deus fez na minha vida, tudo aquilo que Deus me deu a graça de vivenciar, me trouxe ao momento que eu vivo hoje. Mas isso só foi possível por causa de uma decisão. Eu tomei a decisão de seguir Jesus. Eu tomei a decisão de me consagrar à Virgem Maria, escravo. Eu tomei a decisão de entregar minha vida inteira — o meu passado, o meu presente, o meu futuro — nas mãos de Deus, e deixei que Ele tomasse as rédeas, conduzisse e guiasse a minha vida.
Mas eu passei por muitas dificuldades, eu passei por muitas tribulações, eu passei por muitos momentos de pecado, eu passei por muitos momentos em que eu pensei em desistir. Eu realmente pensei em abandonar tudo, em largar, em querer me afundar no mundo, no pecado, naquilo que visivelmente era para trazer alegria, naquilo que visivelmente era para ser motivo de júbilo, para ser motivo de gozo, para ser motivo de ânimo, para ser motivo de felicidade — mas que na verdade é tudo um simulacro, é tudo uma falsidade. Essa é a realidade.
E daqui a uma semana e meia eu vou partilhar sobre a minha vida, sobre como eu tive uma experiência com Jesus, numa emissora católica internacional chamada Shalom. Uma das coisas que me perguntaram, quando eu me preparava para poder partilhar sobre esse momento que eu vou partilhar ainda — o rapaz que vai organizar as gravações me perguntou: “Me diz o que que você quer dizer quando você diz que você viveu numa ilusão, que você viveu numa falsidade?”
E eu disse para ele o seguinte: quando eu me mudei para Belfast, eu tinha uma vida. Depois de ter passado por todas as dificuldades no Brasil, eu alcancei a graça de chegar aqui. Eu era virgem, eu tinha uma vida de oração intensa, eu rezava o rosário, eu ia para a missa todo dia, eu fazia adoração, eu lia a Bíblia, eu lia o catecismo, eu escrevia sobre esses temas de direção espiritual que deram origem a esse livro. Eu tinha uma vida muito regrada. Mas eu fui tirado de um lugar onde eu tinha um apoio, um suporte, eu tinha amigos, e fui colocado num local onde eu não sabia falar a língua, onde eu não tinha apoio, onde eu não tinha suporte — e não consegui me manter firme na graça. Caí em pecado e tentei me esquecer de quem eu era.
Acontece que, nessa vida de pecado que eu passei aqui, tentando me adaptar, tentando fazer amigos, tentando ter um relacionamento, tentando viver na graça, me manter em estado de graça — entre as minhas quedas e o levantar, entre os meus choros, as lágrimas, os momentos de oração, entre as dificuldades que eu passei, tentando viver de uma forma que as coisas fizessem sentido dentro de mim, que eu deixasse de ser hipócrita, que eu deixasse de viver com máscaras…
E eu quero ler isso daqui para você. Porque às vezes a pessoa tem a impressão — principalmente quando você sai do Brasil — dá a impressão que você está vendo uma vida maravilhosa. A pessoa coloca lá no Instagram, coloca nas redes sociais, ela tenta passar uma imagem de que está vivendo uma vida fantástica, maravilhosa. Mas só ela mesma e Deus sabem, às vezes, o vazio; às vezes o buraco em que ela está enfiada, o vício que ela criou para si mesma, a máscara que ela está usando, que faz com que ela, lá no seu interior, lá no seu íntimo, sinta tristeza.
E Santo Agostinho dizia: “O pecado é o motivo da sua tristeza”. Então, para você que está passando por dificuldade, você que está sentindo tristeza: saiba que o pecado é o motivo da sua tristeza — mas deixe que a santidade seja o motivo da sua alegria.
Quero ler para você esse poema que eu escrevi. Isso daqui é um dos poemas que eu escrevi neste momento que eu passei, assim, de adaptação, de dificuldade, de cair, levantar, de tentar me encontrar, de tentar fazer sentido as coisas, de tentar viver na vida da graça. Não tem jeito: o pecado é o motivo da tristeza. Então eu vivia em angústia, vivia em momentos de euforia — que não é alegria —, e depois, a maior parte do tempo, eu vivia na tristeza, nesse sentimento de filho pródigo, que sempre quer voltar mas nunca consegue, nunca consegue, sabe? Então, esse poema que eu escrevi se chama Vida hipócrita de farrapos. Eu escrevi em junho de 2017, e ele vai dessa forma:
Por que tudo ao nosso redor é tão falso?
Por que a maioria das pessoas se contenta
a basear suas vidas inteiras na mentira?
Quantas ilusões e ideias de falsas felicidades
nos são propostas todos os dias — incessantemente.
Como nos acovardamos simplesmente diante da verdade
de quem somos e como somos.
Não temos coragem de assumir nossa história,
nem nossa vida, nem nosso destino, nem nossas verdades.
Estamos acostumados demais com o vazio.
Amoldados e conformados com a situação
de perigo constante — que nos cerca,
de medo ambulante — que nos persegue,
de razões vagas — que nos rodeiam,
de limitações impertinentes — que nos violam
e fazem de nós uma caricatura avultante
do que até nós mesmos temos medo de encarar.
Como nos tornamos bizarros quando fugimos
dos gritos e apelos mais alarmantes
que existem dentro de nós — e queremos abafar,
vivendo uma vida hipócrita de farrapos,
onde a morte se tornou nossa regra básica de viver…
Quem vive no pecado vive na mentira. E aqui me lembra Santa Clara de Assis: ela dizia para sempre ter diante dos seus olhos, sempre ter essa perspectiva de onde você saiu.
“Como nos acovardamos simplesmente diante da verdade de quem somos e como somos. Não temos coragem de assumir nossa história, nem nossa vida, nem nosso destino, nem nossas verdades. Estamos acostumados demais com o vazio.” E o pecado é isso: é a distância de Deus, é a distância de sentido, e é se acostumar com o vazio. Meu Deus, isso não é vida.
Nossa, como isso é forte, hein? Uma vida hipócrita de farrapos. Uma vida na mentira, na migalha — é a vida do filho pródigo.
Mas, como eu disse, a perseverança também pode ser com relação a outras áreas da sua vida. Eu vou falando as coisas e vou lembrando os poemas, as coisas que eu escrevi. Eu tenho um para esse também. Quando morando aqui, eu tive a coragem de me encarar e eu vi que tudo que eu sempre sonhei na vida eu não alcancei. Tudo que eu sempre queria, sabe?
Teve momentos da minha vida em que eu ia para a academia e eu queria ficar forte, queria ser cara musculoso — e chegou um momento em que eu não consegui. Teve um momento da minha vida em que eu queria ser inteligente, sabe, queria realmente me destacar — mas eu vi que eu não sou inteligente, não. Teve vários momentos em que eu queria progredir na minha carreira e ganhar muito dinheiro, e também não consegui. E teve um momento da minha vida em que eu queria ser santo, eu queria fazer a vontade de Deus, e também não consegui. Eu escrevi isso também.
Só porque eu falei do tema — que a perseverança pode estar relacionada a coisas que não são estritamente coisas espirituais. Eu quero ler para você esse poema. Espero que vocês gostem, né, de eu ficar parando aqui para ler no meio das coisas que eu estou falando. Então, esse se chama Estrada resignada. Se você entrar no meu blog, no meu site, está lá. Eu escrevi em julho de 2016 — olha só, nesse período em que eu estava vivendo dificuldade, em que eu, como eu disse, me encarei no espelho e vi o que eu era, o que eu tinha, o que aconteceu na minha vida, e onde eu queria chegar e onde eu não consegui chegar.
Sempre quis ser grande — como alguém que se destaca,
não apenas fisicamente — mas em todos os sentidos.
Minha grande tristeza é que não apenas não sou grande,
mas também não sou pequeno — apenas médio.
Então numa multidão posso passar despercebido.
Sempre quis ser forte — no corpo e na alma,
cheio de músculos que as pessoas — e também eu mesmo —
pudessem apreciar e relevar isso em mim,
com uma decisão firme e determinada
de não voltar atrás em minhas aspirações.
Então o que percebo é fraqueza e inconstância,
um mísero e frágil corpo
numa alma deteriorada pelo peso dessas fraquezas
e uma vontade dominada pelos desejos infantis.
Sempre quis ser e parecer maduro,
ou pelo menos mais do que sou — precoce,
onde principalmente mulheres enxergassem tal maturidade
e me dissessem o quanto apreciam isso em mim.
Mas a realidade diz o oposto — sem precisar de palavras:
além de não ter uma mente e nenhum comportamento maduros,
ainda consigo ser pior que uma criança mimada,
que dadas as circunstâncias — parece que nunca vai crescer.
Sempre quis ser sábio e inteligente,
como alguém que tem conhecimento das coisas,
que a vida ensinou na teoria e na prática,
que sabe o que faz e faz uso do seu intelecto.
Mas conforme o tempo passa — e cada vez passa mais rápido —
percebo o quanto sou tolo e ignorante,
como o conhecimento não se fixa em minha mente
e como tenho dificuldade para aprender coisas novas.
Não é fácil viver desnorteado — numa cultura errante.
Sempre quis ser uma pessoa boa — que ajuda os outros
e se preocupa com os problemas e sofrimentos alheios.
Mas de tão egoísta não consigo enxergar além do meu umbigo.
Quero que todos me ouçam e me estendam a mão;
inconscientemente vi que não lhes tenho compaixão.
Sempre quis ser santo — e isso eu desejei muito,
mergulhando de cabeça na vida espiritual — uma vida de oração.
Sem pensar nas consequências, partilhei isso com o mundo,
e em cada obstáculo eu via uma escada de subida.
Mas de tanto subir e cair cheguei num ponto estranho demais.
Pensando em tudo que eu sempre quis — em toda a minha vida,
percebo que nunca fui e nunca consegui ser — nada do que eu sempre sonhei.
O que posso fazer agora é desistir nessa estrada resignada,
ou continuar até o último dos meus dias
e acreditar cegamente que um dia tudo isso alcançarei…
“Uma vontade dominada pelos desejos infantis.” Olha como isso daqui às vezes é a realidade de muitos de nós. Quais são os desejos infantis que você carrega hoje? Que você acha que precisa conquistar? Que você precisa satisfazer? Se você fizer uma leitura dentro de você mesmo, às vezes você vai chegar nessa conclusão também.
“Ainda consigo ser pior que uma criança mimada, que dadas as circunstâncias parece que nunca vai crescer.” Será que você às vezes já passou por isso também? Olhando para você e tentando, tentando por todos os caminhos, sabe, ser feliz — e não consegue nada. Pelo amor de Deus, como isso é difícil, hein? Meu Deus, quando é que você vai crescer? Quando é que você vai amadurecer? Quando é que você vai dar um passo na fé? Quando é que você vai dar um passo na sua carreira? Quando é que você vai dar um passo na sua vocação? Quando é que você vai, pela graça da perseverança, superar essa noite escura, essas dificuldades que você está passando?
“Não é fácil viver desnorteado numa cultura errante.” E aqui eu digo também, principalmente por causa da minha dificuldade de aprender inglês. Nossa, gente, vocês não sabem como eu sofri para aprender inglês, para esse inglês entrar na minha cabeça, para eu conseguir falar e entender as pessoas. Eu sofri muito. Hoje eu gravo aí um vídeo no Instagram falando com as pessoas quase, né, quase bonito, quase certinho — cometo bastante erro ainda, mas consigo entender, consigo falar, consigo ser entendido. Mas como eu chorei, como eu rezei, como eu passei por dificuldade para aprender isso, para esse conhecimento se fixar na minha cabeça: o inglês, as palavras, o jeito que as pessoas falam, o jeito que elas respiram para falar entre as palavras. Sabe como foi difícil viver desnorteado? Mas também desnorteado porque está sem rezar, está afastado, está em pecado.
“Sempre quis ser uma pessoa boa, que ajuda os outros e se preocupa com os problemas e sofrimentos alheios. Mas de tão egoísta não consigo enxergar além do meu umbigo. Quero que todos me ouçam e me estendam a mão; inconscientemente vi que não lhes tenho compaixão.” Ter compaixão, né? Como Jesus: andar no ritmo das pessoas. Tem gente que vai mais rápido, tem gente que vai mais devagar. Em qualquer hora da vida você pode pensar nisso.
E eu percebi que eu não tenho compaixão, sabe? Eu não quero andar no mesmo passo, quero andar no meu passo. Eu quero que as pessoas me acompanhem — mas, na hora de eu ajudar as pessoas, na hora de eu poder ter compaixão, eu percebi que eu não tinha, não tenho. É difícil, sabe? Isso não é coisa que é da noite para o dia, é coisa que é moldada, é coisa que é lapidada a vida inteira.
“Sempre quis ser santo — e isso eu desejei muito, mergulhando de cabeça na vida espiritual, uma vida de oração, sem pensar nas consequências. Partilhei isso com o mundo. Em cada obstáculo eu via uma escada de subida, mas de tanto subir e cair cheguei num ponto estranho demais.” Será que você está nesse ponto estranho hoje, onde você não sabe quem você é, o que você quer da vida — e a sua vida de oração, a sua vida na graça, o estado da sua vocação? Será que você se sente como eu me senti quando eu escrevi isso daqui, em 2016, dez anos atrás? Um ponto estranho demais. Só você e Deus podem falar, a partir da sua própria experiência, a partir daquilo que você está vivendo hoje.
“Pensando em tudo que eu sempre quis em toda a minha vida, percebo que nunca fui e nunca consegui ser nada do que eu sempre sonhei.” E como isso é duro admitir, hein? “O que posso fazer agora é desistir” — olha só o nosso tema aqui, nessa estrada resignada. A estrada é essa daqui, ó: vai parar no meio do caminho, ou continuar até o último dos meus dias e acreditar cegamente que um dia tudo isso alcançarei.
Olha só, o tema da perseverança. Você só vai conseguir perseverar, você só vai conseguir dar um passo, se você tomar consciência disso. Ou você desiste, olhando para as dificuldades, para os empecilhos, para os problemas, para as coisas que fazem você querer desistir; ou você continua até o seu último suspiro, até o último dia, acreditando cegamente que você vai alcançar tudo. Isso é uma atitude de fé. Isso é maravilhoso.
Julho de 2016 — acabou de fazer dez anos que eu escrevi isso. Acreditar cegamente: isso é a fé. É pela fé que eu, tendo a história que eu tenho, vindo de onde eu vim, passando pelas coisas que eu passei no Brasil e aqui na Irlanda do Norte, acredito cegamente que um dia tudo isso alcançarei.
Não importa, sabe? Não importa se você vai chegar no nível que você almejava, que você sonhava, que você queria. Muitas pessoas têm esse desejo de ser melhor, de progredir, de dar um passo, de aprender alguma coisa, de progredir na virtude, de dar um passo na fé, de ser santo, de fazer a vontade de Deus, de melhorar no seu relacionamento com a sua família, de melhorar no seu relacionamento com o seu esposo, a sua esposa, com seus filhos. A única forma de você conseguir alguma coisa é se você acreditar cegamente e continuar até o último dia, até o último suspiro. É a única forma.
E esse vídeo já passou dos 30 minutos. Mas eu queria terminar com essa passagem do livro de Hebreus, para que a gente possa seguir o exemplo de Jesus. Parece que o tema que eu fui falar começou aqui, parou ali, voltou aqui — mas, sabe, tudo isso é a graça de você entender as coisas, de você planejar, de você rezar e de você confiar em Deus. Confiar cegamente que você vai alcançar. Pode ser que você não alcance do jeito que você queria, mas você vai alcançar se você perseverar, se você não desistir, se você insistir. É a primeira parte do capítulo 5 do livro: insistir, persistir e não desistir.
E nada e ninguém melhor do que o nosso Senhor Jesus Cristo. Nesse mês de julho, que o sangue de Jesus nos envolva, nos proteja, e nos dê essa graça, e nos dê esse dom da perseverança, e nos dê essa intuição, essa inspiração, esse desejo, essa vontade, essa ganância de, até as últimas consequências, até os últimos dias, até o nosso último dia, até o nosso último suspiro, confiar cegamente que a gente vai alcançar aquilo que Deus coloca no nosso coração. Aquela frase de Santa Terezinha do Menino Jesus, né: não tem nada que Deus coloca no nosso coração que Ele não seja capaz de realizar.
Então eu vou ler para você aqui, para a gente finalizar, o capítulo 12 de Hebreus. Ele está também no livro — eu faço um comentário antes e faço um comentário depois dessa passagem. E se esse vídeo te inspirou, te convido a comprar o livro: Direção Espiritual, começando da conversão, passando pelas dificuldades, conhecendo as coisas de Deus, os caminhos, escolhendo o caminho de Deus, perseverando, caindo, levantando, perseverando, seguindo cegamente.
“Desse modo, cercados como estamos de uma tal nuvem de testemunhas, desvencilhemo-nos das cadeias do pecado. Corramos com perseverança ao combate proposto, com o olhar fixo no autor e consumador de nossa fé, Jesus. Em vez de gozo que se lhe oferecera, ele suportou a cruz e está sentado à direita do trono de Deus. Considerai, pois, atentamente aquele que sofreu tantas contrariedades dos pecadores, e não vos deixeis abater pelo desânimo. Ainda não tendes resistido até o sangue, na luta contra o pecado — contra a tristeza, contra aquilo que te coloca para baixo. Estais esquecidos da palavra de animação que vos é dirigida como a filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes, quando repreendido por ele; pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho. Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Mas se permanecêsseis sem a correção, que é comum a todos, seríeis bastardos e não filhos legítimos. Aliás, temos na terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, os olhamos com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o qual nos dará a vida. Os primeiros nos educaram para pouco tempo, segundo a sua própria conveniência, ao passo que este o faz para o nosso bem, para nos comunicar sua santidade. É verdade que toda correção parece, de momento, antes motivo de pesar que de alegria; mais tarde, porém, granjeia aos que por ela se exercitaram o melhor fruto de justiça e de paz. Levantai, pois, vossas mãos fatigadas e vossos joelhos trêmulos, e dirigi os vossos passos pelo caminho certo. Os que claudicam, tornem ao bom caminho e não se desviem.” (Hb 12,1-13)
Como isso é maravilhoso, como essa palavra é maravilhosa. Palavra do Senhor. Graças a Deus.
É isso que eu quero deixar para você: que esse vídeo possa te inspirar a renovar o seu ânimo, a confiar cegamente que aquilo que você anseia, aquilo que você no íntimo da sua alma deseja, você alcance. E que Deus te abençoe.


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