
Quatro semanas, quatro caminhos: sacerdócio, vida consagrada, matrimônio, laicato. O Mês Vocacional termina hoje, e falta dizer a coisa mais importante — que é também a menos discutida: existe uma vocação anterior às quatro, sem a qual nenhuma delas se sustenta, e essa você já recebeu. Não há nada a descobrir a respeito dela.
Uma frase sem margem
São Paulo escreve aos tessalonicenses uma linha que não deixa espaço para negociar:
“Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação.” (1Ts 4,3)
Repare que não diz “uma das vontades”, nem “a vontade de Deus para alguns”. E não diz que você seja bom, ou correto, ou equilibrado. Diz santo, que é outra ordem de coisa — e diz que essa é a vontade dele a seu respeito, já formada, sem depender de você descobri-la.
O capítulo que o Concílio mudou de lugar
Há um detalhe editorial na Lumen Gentium, a constituição do Vaticano II sobre a Igreja, que vale mais do que muitos parágrafos.
O esquema original tratava do povo de Deus e passava ao estado religioso — a santidade aparecendo, naturalmente, no capítulo dos que fazem votos. Os padres conciliares mudaram isso. Inseriram um capítulo inteiro sobre a vocação universal à santidade, o capítulo 5, e o puseram antes do capítulo sobre os religiosos.
A ordem é o argumento. Primeiro se afirma que todos na Igreja, de qualquer estado ou condição, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade; só depois se fala dos que a buscam por votos. A santidade deixou de ser um andar superior do edifício e passou a ser o chão.
Um efeito prático disso: acabou a desculpa. Se santidade fosse assunto de mosteiro, um pai de família ocupado estaria dispensado com boa consciência. Não está.
O erro de esperar
Aqui está o hábito que este texto existe para desfazer. Muita gente vive à espera de descobrir a sua vocação, como quem aguarda um telegrama que ainda não chegou — e, enquanto não chega, considera a vida espiritual em compasso de espera.
Deus quase nunca começa por aí, e o motivo é lógico antes de ser piedoso:
- Ele pede primeiro a santidade de hoje. A oração desta manhã, o trabalho bem feito desta tarde, a língua travada esta noite. Coisas de tamanho comum, disponíveis agora.
- Quem é fiel nisso acaba descobrindo o resto. A clareza sobre o estado de vida costuma vir dentro de uma vida já ordenada, não antes dela. É o mesmo motivo pelo qual não se enxerga bem no escuro parado.
- Quem espera sentado não ouve nada — e não por castigo. É que não há o que acrescentar a quem não está usando o que já recebeu. Direção espiritual sobre matéria inexistente é conversa.
Dito de outro modo: a pergunta “qual é a minha vocação?” quase sempre chega cedo demais, e a pergunta certa para hoje é muito mais chata — o que Deus está me pedindo antes das seis da tarde?
São Francisco de Sales, que dirigia sobretudo gente casada e ocupada, tinha um diagnóstico afiado para o perfeccionismo espiritual: às vezes desejamos tanto ser anjos que nos esquecemos de ser homens bons.
Ele insistia noutra coisa, e é a mais libertadora deste texto: a devoção precisa ser exercida de maneira diferente pelo artesão, pelo criado, pelo príncipe, pela viúva, pela moça e pela casada — e uma devoção que atrapalhe o ofício de alguém é, por isso mesmo, falsa.
Não se pede a ninguém que deixe de ser quem é. Pede-se que o seja inteiramente para Deus.
O segredo é a junção
Daí a fórmula que resume o mês inteiro, e que é gramaticalmente simples: a santidade não é substituir o que você é, é acrescentar-lhe uma conjunção.
Jovem e santo. Mãe e santa. Engenheiro e santo. Doente e santo. Padre e santo. Viúva e santa.
O erro comum é ler o “e” como “apesar de”. Não é. É a mesma vida, com dono declarado. Ninguém se santifica ao lado da própria vocação, nas horas vagas: santifica-se exatamente com o material dela — as reuniões, as fraldas, os plantões, as provas, as contas.
A multidão do quadro
Volte à imagem no alto desta página. Dürer pintou a Trindade adorada por uma multidão, e vale reparar em quem está ali.
Há papas, bispos e reis, sim — mas eles são minoria e não estão no centro. O grosso da tela é gente comum: camponeses com ferramentas, mães com filhos no colo, artesãos, um casal de idosos, gente sem nome, sem atributo, sem legenda. Dürer inclusive se pintou lá embaixo, pequenininho, no canto da paisagem, segurando uma placa.
É um retrato teologicamente exato do céu. A imensa maioria dos santos nunca foi canonizada e ninguém sabe o nome deles. Não fundaram nada, não escreveram nada, não foram martirizados diante de plateia. Foram fiéis num lugar pequeno durante muito tempo — que é, estatisticamente, o modo normal de chegar lá.
Uma última tarefa, e não é pequena
O mês fecha com o pedido que o abriu, agora invertido. Nas quatro semanas anteriores pedimos por sacerdotes, por religiosos, por famílias e por leigos. Fica o que sustenta os quatro:
- Rezar todos os dias por vocações — na própria família, na paróquia, na diocese. Não em geral: por gente concreta, com nome.
- Escolher uma coisa só para esta semana. Uma. A santidade nunca chegou a ninguém por um plano de doze itens; chega por um hábito pequeno mantido por muito tempo.
- Parar de esperar. Se a sua vocação ainda não está clara, ela vai se esclarecer dentro de uma vida já entregue — e não antes.
A Igreja não precisa de mais espectadores. Precisa de gente que responda — e a primeira resposta, a que não depende de descobrir coisa alguma, cabe inteira no dia de hoje.
Haec est enim voluntas Dei, sanctificatio vestra. Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação. Que Ele nos dê a graça de começar por hoje, e não pelo dia em que tudo estiver claro.
- Semana 1 — O sacerdócio nasceu na Última Ceia
- Semana 2 — Vida consagrada: o cêntuplo já nesta vida
- Semana 3 — O matrimônio e a Igreja doméstica
- Semana 4 — A vocação do leigo
- Frases dos santos — uma coleção crescente, em português e inglês.


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