Lc 7,47: "Perdoados lhe são os seus numerosos pecados, porque muito amou; mas a quem pouco se perdoa, pouco ama."

Resumo do vídeo

Perdão, confissão e a graça da contrição perfeita

Gravado no dia da festa de Santo Afonso Maria de Ligório — o doutor da moral que escreveu As Glórias de Maria e a Prática do Amor a Jesus Cristo —, este vídeo é uma partilha de Gustavo sobre três realidades que quase sempre andam juntas e mal compreendidas: o perdão, a confissão e o arrependimento. O ponto de partida é o testemunho que ele acabara de gravar para a Shalom World TV pelas ruas de Belfast, e a consciência de que ficaram coisas por dizer. Este vídeo é, em boa parte, aquilo que ficou de fora.

A tese que atravessa a partilha é simples e exigente: não há alegria fora da santidade, e não há santidade sem uma luta séria contra o pecado — luta que começa numa contrição verdadeira, passa pela confissão e se completa na penitência. Gustavo lê e comenta o encontro de Jesus com a pecadora em Lucas 7, alterna o Evangelho com o próprio testemunho e encerra lendo um poema e cantando uma canção que escreveu, ambos nascidos da sua própria queda e do seu próprio perdão.

Um testemunho que ficou pela metade

Ele recorda de onde saiu: um lugar sem perspectiva de vida, em que nunca imaginara casar, ter filhos, construir uma família ou conseguir um emprego melhor — a única coisa que pedia era fazer a vontade de Deus. Foi essa entrega que abriu tudo. Deus o tirou daquele ambiente, moldou-o por meio de amigos e de tantos que rezaram, fizeram sacrifício e penitência por ele, e o conduziu até a Irlanda do Norte, onde construiu família, recebeu no sacramento do matrimônio uma dignidade que não tinha e espera hoje o quinto filho. Gustavo faz questão de dar nome à gratidão: não chegou sozinho — foi sustentado, levantado e agraciado por muitas mãos ao longo do caminho.

A pecadora aos pés de Jesus (Lucas 7)

O centro da partilha é o episódio de Lucas 7,36-50: uma mulher tida como pecadora entra na casa do fariseu Simão, põe-se a chorar aos pés de Jesus, enxuga-os com os cabelos, beija-os e os unge com o mesmo perfume que usava no pecado. Gustavo — que se inclina a identificá-la com Maria de Betânia, irmã de Lázaro — detém-se num detalhe decisivo: ela leva ao Senhor exatamente aquilo que a prendia, e ali, ao mesmo tempo, estão a contrição e a penitência. Não se importa com o que dirão; só lhe importa o coração contrito diante de Jesus. É o oposto do fariseu, que, seguro da própria imagem, julga em vez de se reconhecer pecador.

Contrição perfeita: a graça de detestar o pecado

A maior graça a pedir, diz Gustavo, é a de uma contrição perfeita — e ele é honesto sobre o quanto ela é rara. Não se trata de sentimento (chorar ou não na confissão pouco importa), mas do desejo do coração de agradar a Deus e, sobretudo, de detestar o pecado. O motivo de tantas contrições fracas é exatamente esse: não odiamos o pecado, nós o amamos; arrependemo-nos e nos confessamos, mas seguimos cravando a lança no coração de Jesus, sem consciência de que o pecado é uma desgraça que ofende a Deus.

A confissão que aperfeiçoa a nossa contrição

Aqui entra o que ele chama de a maior graça de ser católico. Mesmo quando chegamos ao confessionário com um arrependimento falho e fraco, o sacramento da reconciliação toma essa contrição mesquinha, aperfeiçoa-a e a oferece a Deus como uma contrição perfeita; o sacerdote confessa, dá a penitência e absolve. Gustavo alerta, porém, para o hábito de fazer tudo correndo: sair da confissão em estado de graça e já emendar em outras tarefas, sem parar para rezar, agradecer e decidir de fato mudar de vida.

Penitência: o perdão apaga a culpa, mas a pena permanece

Um segundo alerta é sobre a penitência. O perdão apaga a falta, mas o vício e a inclinação que o pecado deixou não vão embora sozinhos — pedem reparação. Por isso ele lamenta as penitências brandas de hoje ("reza cinco Ave-Marias"), que não corrigem nada, e recorda que o sentido da penitência é justamente corrigir a pessoa do pecado confessado. Contra Lutero — que mandava "pecar com vontade" para que a misericórdia abundasse — Gustavo inverte a fórmula: não se trata de pecar para valer, mas de pedir perdão para valer.

O fariseu que julga e a pecadora que ama

Lendo o resto de Lucas 7, ele mostra por que tão poucos chegam ao lugar daquela mulher: o orgulho. Gostamos que nos reconheçam bons e maravilhosos, e essa imagem que defendemos é um bloqueio à contrição. A palavra de Jesus é clara — "a quem muito se perdoa, muito ama; mas a quem pouco se perdoa, pouco ama". Como o filho pródigo, quem experimenta um perdão grande transborda de amor; e o "irmão mais velho", que nunca caiu tão fundo, corre o risco de servir a Deus sem alegria, com ciúme do perdão alheio. Reconhecer-se pecador, sem máscaras, é o começo de tudo.

"Mundo paralelo": um poema de 2015

Na parte mais pessoal, Gustavo lê um poema que escreveu em 2015, pouco depois de mudar-se para Belfast, quando passou de uma vida de oração, rosário e missa a uma vida de pecado — o que ele chama de viver num mundo paralelo, uma vida dupla. O poema fala do vazio, das máscaras, do medo de olhar para si e da necessidade de "alguém que me faça recordar quem sou eu". Ele o costura com duas imagens: São Paulo, que só se converteu quando ficou cego e foi obrigado a parar de olhar para fora e olhar para dentro; e o filho pródigo, que só voltou quando enxergou a própria miséria. A verdadeira conversão começa quando paramos de julgar os outros e nos olhamos por dentro.

"Eu não te condeno"

Gustavo encerra cantando uma canção que compôs depois de um momento intenso de oração, na qual se coloca, como aquela pecadora, aos pés de Jesus: "Ante o teu amor, eu quero me render de todo coração e proclamar: Tu és Deus da minha salvação." E deixa a pergunta que resume o vídeo inteiro: qual é a sua reação diante de um Deus que diz "eu não te condeno", diante de um Deus que diz "eu te perdoo"? A ele não escandaliza o pecado que confessamos — o que ele quer é conquistar de novo o nosso coração.

A gente não tem que pecar para valer; a gente tem que pedir perdão para valer.

Para levar para a vida

  • Peça a graça de uma contrição perfeita: não basta arrepender-se, é preciso chegar a detestar o pecado.
  • Vá à confissão mesmo sem se sentir perfeitamente contrito — o sacramento aperfeiçoa aquilo que a sua contrição tem de fraco.
  • Depois da absolvição, não saia correndo: reserve um tempo de oração, gratidão e verdadeira mudança de vida.
  • Leve a sério a penitência: o perdão apaga a culpa, mas a raiz do vício só se corrige com reparação.
  • Troque o assento do fariseu pelo lugar da pecadora: pare de julgar e reconheça, sem máscaras, quem você é diante de Deus.
  • Olhe para dentro de si, como Paulo e o filho pródigo — é aí que a conversão verdadeira começa.

Passagens e referências: Lc 7,36-50; Lc 15,11-32 (o filho pródigo); At 9 (a conversão de Paulo); Rm 12,2; Sl 73(72),25-28. Menções a Santo Afonso de Ligório, Santa Catarina de Sena, São Padre Pio e a Martinho Lutero.

Transcrição completa do vídeo

Transcrição integral do áudio do vídeo, organizada em parágrafos para facilitar a leitura.

Além de vós, o que há para mim no céu?
Se vos possuo, nada mais me atrai aqui.
Meu coração pode já desfalecer:
a minha herança eterna é o meu Deus.
O meu Deus é a minha riqueza,
tudo mais perdeu o seu valor.
Desprezei as paixões desta terra
a fim de ganhar Teu olhar
e ficar contigo, meu Rei.
Para mim, a felicidade é minha proximidade de Deus.
Ah, os vossos altares, os vossos altares,
Senhor dos exércitos, meu Rei e meu Deus!

Além de vós, o que há para mim no céu?
Se vos possuo, nada mais me atrai aqui.
Meu coração pode já desfalecer:
a minha herança eterna é o meu Deus.
O meu Deus é a minha riqueza,
tudo mais perdeu o seu valor.
Desprezei as paixões desta terra
a fim de ganhar Teu olhar
e ficar contigo, meu Rei.
Para mim, a felicidade é minha proximidade de Deus.
Ah, os vossos altares, os vossos altares,
Senhor dos exércitos, meu Rei e meu Deus!

Esse é o tipo de música que você começa a cantar e não tem vontade de parar, né? Fantástico, Juninho Cassimiro, ele só... Parece que cada vez melhora, né? Qual é a felicidade para você? Eu não sei se você chegou num nível na sua vida em que você também pode dizer que, para você, a felicidade é realmente se aproximar de Deus, estar próximo de Deus e viver uma vida, ou tentar viver uma vida que agrada a Deus. Para muitas pessoas é, mas não é para todas, né?

Hoje, celebrando o Santo Afonso Maria de Ligório, doutor da moral, que escreveu As Glórias de Maria, A Prática do Amor a Jesus Cristo. Tem muito para ensinar, né? Mas eu não vou ficar tocando aqui o resto da vida, não. Eu... essa semana tive a graça, a oportunidade de gravar com a Shalom World TV, que é uma mídia católica mundial, assim, desde os Estados Unidos até, acho que, no Japão, em todos os lugares, e eu fui convidado para dar meu testemunho. A gente foi aqui pelas ruas de Belfast, e teve algumas coisas que eu falei, que são muito importantes, mas teve outras que eu deixei de falar, porque você não consegue falar sempre tudo, né? Mas eu acredito assim que o básico, ou o principal, como se diz assim, o mais grosso daquilo que foi o meu encontro com Jesus, a minha mudança de vida, eu disse assim, né? Eu saí das trevas para a luz, da morte para a vida, da tristeza para a alegria, das trevas para a luz. Tudo isso só pode acontecer perante um encontro com Jesus, né? Que muda a sua forma de pensar, que muda a sua forma de agir, tudo na sua vida, até o ponto de você se transformar, como está escrito em Romanos 12, a renovação da mentalidade, o jeito de pensar e tudo.

Algumas das coisas que eu deixei de falar são coisas que às vezes passam despercebidas, ou que às vezes a gente esquece, porque tem tanta coisa quando a gente tem uma história assim, um encontro com Jesus, tem tanta coisa para falar, que às vezes a gente deixa de falar algumas coisas e fala outras, às vezes a gente foca em um aspecto e deixa o outro de lado. Mas assim, eu saí de um lugar sem perspectiva de vida — não é por eu estar em Londrina, mas é por causa da minha condição —, nunca havia pensado em me casar, nunca pensei em ter filhos, nunca pensei em construir uma família, nunca pensei em ter um emprego melhor, nunca pensei em nada dessas coisas, sabe? A única coisa que eu pensava, eu falava: eu quero fazer a vontade de Deus. E Deus, na sua misericórdia, me deu a graça de sair da vida, do estilo de família que eu tinha, do estilo de exemplo que eu tinha ou que eu não tinha. Deus me colocou num lugar estratégico onde eu fui forjado, onde eu fui moldado, onde eu tive a graça de encontrar amigos.

E claro, todas as pessoas que passaram na minha vida, de uma forma ou de outra, sempre me ajudaram, e eu sou grato a todos. Não posso deixar de citar ou de lembrar de todas as pessoas que rezaram por mim, que fizeram um sacrifício, fizeram penitência, o pessoal do meu grupo de oração, as pessoas que me ajudaram assim a não ficar perdido, a me encontrar e a decidir permanecer na graça de Deus, como eu disse no último vídeo, com relação à perseverança, sem pensar. Só tem duas escolhas: ou você desiste, ou você acredita que as coisas vão dar certo, que você vai conseguir até o último dia da sua vida. E Deus vai colocando pessoas que vão te moldando, que vão te ajudando, que vão te levantando, que vão estender a mão para você, que vão te sustentando, que vão te agraciando. Por quê?

Só para fechar esse ponto, né? Saí lá de onde eu tava, sem perspectiva, vim morar aqui na Irlanda do Norte, construí minha família, me casei aqui, e o casamento, o sacramento do matrimônio, me deu uma dignidade que eu não tinha, uma graça que eu não merecia receber, o dom de ter filhos — porque ter filhos também é um dom, não é uma obrigação de Deus. E estou esperando o quinto filho nascer, e em meio a todas as dificuldades que eu tive antes, e as novas dificuldades que eu tive, superei; e as novas, outras novas dificuldades que eu tenho hoje, que eu também preciso superar com a graça de Deus por meio de muita oração, sacrifício, penitência. Mas, sabe? Acreditando que Deus vai me dar essa graça de ser o melhor pai, de ser o melhor marido, de ser o melhor católico que eu puder com a graça de Deus. Eu digo isso porque eu tenho muita consciência de quem eu sou e de onde eu saí.

Essa passagem aqui é a minha passagem, sabe? Eu não falo para querer falar de ninguém, eu falo para falar de mim. E no capítulo 7 de Lucas existe um encontro em que Jesus dá graça para uma mulher que, acredita-se, é uma prostituta — aí, se é Maria Madalena ou se é Maria de Betânia, é uma discussão. Eu acho que é Maria de Betânia, né, a irmã do Lázaro, que ela também era uma prostituta, prostituta de leprosos, né? Mas assim, esse encontro foi tão importante, tão especial, tão transformador, porque aqui ela já acreditava em Jesus. Ela cria que Jesus era o filho de Deus, que era 100% homem, 100% Deus. E eu partilhei em inglês semana passada, teve muitas coisas que eu não consegui me expressar da forma que eu queria, mas eu sempre peço que o Espírito Santo conduza essas palavras que eu digo, para que possam servir de acordo com a vontade de Deus. Mas eu fiquei, sabe... algumas coisas, quando você faz alguma coisa e você... eu falei: nossa, eu poderia ter dito isso, poderia ter falado sobre isso, e eu fiquei com essa sensação.

Por isso Maria Madalena foi celebrada, acho que duas semanas atrás, e aí essa última semana nós temos, no calendário antigo, Santa Marta; no calendário novo é Marta, Maria e Lázaro. Então essa é Maria de Betânia, a irmã do Lázaro. Acredito que essa seja ela que fez esse ato aqui que eu vou ler. Então, Lucas sete, versículo trinta e seis. "Um fariseu convidou Jesus a ir comer com ele. Jesus entrou na casa dele e pôs-se à mesa. Uma mulher pecadora da cidade" — pecadora da cidade, é a prostituta — "quando soube que estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro cheio de perfume". É o perfume que ela usava para se prostituir. "E estando a seus pés, por trás dele, começou a chorar."

Olha o arrependimento, olha a graça do arrependimento, a contrição! Eu não sei se você já experimentou isso na sua vida, mas que graça tremenda é a contrição, porque a coisa que a gente mais precisa pedir para Deus é a graça de uma contrição perfeita. Porque Deus sempre vai perdoar os nossos pecados. Mas sabe, a dificuldade que a gente tem de se livrar da raiz dos pecados, daquilo que fica, sabe? E isso é uma coisa também que eu, com muito orgulho, digo: quantas vezes eu, sem uma contrição perfeita... Eu tive momentos em que eu fui à confissão com uma contrição perfeita, assim — pelo menos na minha cabeça, né, eu achava que tava perfeito —, eu chorei na confissão, momentos em que eu realmente passei horas pedindo perdão para Deus, momentos de oração, e me confessei assim. E sabe, não tem nada a ver com o que você sente, sabe, eu senti ou não, não importa, mas o seu coração, sabe, o desejo que você tem no coração de agradar a Deus.

O que eu falei na semana passada em inglês, eu disse assim: é que a gente tem que pedir, pela intercessão de Maria Madalena, a graça de detestar o pecado. E o motivo pelo qual a gente não tem uma contrição perfeita é porque a gente não detesta, a gente não odeia o pecado, a gente ama o pecado. A gente se arrepende, a gente se confessa, mas a gente não detesta, sabe, porque a gente não tem noção, não tem consciência de que o pecado é uma desgraça que ofende a Deus, que é uma lança ali no coração de Jesus, e a gente continua enfiando aquela lança e não para, não para, sabe? Mas, ao contrário de Martinho Lutero, que dizia que a gente tem que pecar para valer, para que a misericórdia de Deus venha sobre a nossa vida — a gente não tem que pecar para valer, a gente tem que pedir perdão para valer, a gente tem que pedir a graça de se arrepender de todo o coração e uma contrição perfeita, assim ó, como Maria de Betânia aqui, ó.

"Estando a seus pés, por trás dele, começou a chorar." Sabe, as lágrimas que às vezes o Espírito Santo traz, assim — você às vezes não precisa entender, mas sabe, a graça de você realmente ter um choro amargo, um choro de dor, assim, que parece que rasga, assim, por dentro, seu coração totalmente despedaçado por você ter ofendido a Deus. Muitos, às vezes, vão passar pela vida e nunca vão chegar a isso. Sabe, você ter que ser como Maria de Betânia? Sabe por quê? Porque a gente é orgulhoso, porque a gente não para para pensar o que é o nosso pecado, a gente não tem momento, a gente vive uma vida tão agitada, sabe, dentro ou fora da igreja, e a gente fica assim, tão distraído com tantas coisas, e a gente acha assim que a gente faz o quê, a gente se arrepende mais ou menos, vai para a confissão e depois assim esquece, mas a raiz ali, ó, fica ali, a gente não tenta pagar o preço para poder melhorar. Por isso que a gente tem que melhorar, né? Mas enfim, eu tenho vários, como se diz, vários parênteses aqui.

O primeiro parênteses: a maior graça que a gente tem de ser católico é, mesmo sem uma contrição perfeita — que é o que a gente precisa para alcançar a graça do perdão de Deus —, mesmo sem uma contrição perfeita, quando a gente vai se confessar e a gente, do nosso modo falho, a gente fala para o padre os nossos pecados, a gente se arrepende desses pecados, e o padre nos dá a penitência e nos dá a absolvição — o sacramento da reconciliação como que pega aquele arrependimento falho, aquele arrependimento fraco, aquela contrição mesquinha, e aperfeiçoa e oferece a Deus uma contrição perfeita. Isso é maravilhoso, sabe? Isso é fantástico. E o padre nos dá a absolvição, e em alguns momentos ali você sai da confissão, você tá num estado de graça tão tremendo, com uma união tão perfeita com Deus. O problema é que muitas vezes a gente faz as coisas correndo também, né? Assim, corre e sai da confissão, já tem que fazer outras coisas, não tem tempo, sabe, de parar de rezar, de conversar com Deus, de fazer um momento sério, de mudança de vida, de conversão, de penitência.

E outra coisa — parênteses —, a penitência que o padre dá ali, muitas vezes é muito fraca. A gente precisa de uma penitência mais forte. Na época de Santo Agostinho, havia o tipo de penitência em que a pessoa ficava ali até o resto da vida — ficar sem refrigerante, dando um exemplo nada a ver aqui, mas, por exemplo, era esse tipo de penitência. Então, as penitências de hoje em dia precisam ser mais rigorosas, porque o sentido da penitência é para a pessoa se corrigir do pecado que ela confessou, e muitas vezes o padre só fala "reza cinco ave-marias, reza dez ave-marias", isso daí não corrige nada, sabe? A penitência é válida, é uma graça, mas ela precisava ser mais severa. Enfim, com relação ao perdão, o perdão é maravilhoso, apaga as suas faltas, mas as penas, sabe, aquele vício que ficou por causa do pecado, ele não vai embora. Precisa de penitência. Então, a contrição perfeita e depois a penitência seria... a gente precisa progredir na vida da graça. Isso é o que falta às vezes.

Mas enfim, a gente, ao invés de ser como Maria de Betânia aqui, ó — eu vou parar de falar Maria de Betânia, porque não tá explicitamente, embora seja muito provável que seja ela. Mas essa pecadora... A gente, ao invés de tá chorando... É isso que a gente vai fazer aqui, ó. Eu vou falar aqui, ó, é versículo trinta e oito. "E estando a seus pés, por detrás dele, começou a chorar. Pouco depois, suas lágrimas banhavam os pés do Senhor, e ela os enxugava com os cabelos, beijava-os e ungia-os com perfume." Ela pegou aquilo que ela usava para o pecado e ela derrubava, colocava ali nos pés de Jesus. Ela, assim... é a penitência dela. Ela já tem a contrição, ela tem a penitência ali. Nos pés de Jesus, ela já está quebrando aquilo que ela usava para o pecado.

Ao invés de sermos isso, como essa pecadora, a gente está nessa outra pessoa aqui: "Ao presenciar isto, o fariseu que o tinha convidado disse consigo mesmo: Se este homem fosse profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que o toca, pois é pecadora." É isso que a gente faz. A gente, na maior parte das vezes, ao invés de reconhecer quem a gente é, se humilhar, pedir a contrição, fazer a penitência, a gente fica julgando aqui. É isso que a gente faz. Por isso que a gente nunca chega nesse estágio que essa mulher chegou aqui. Porque a gente mantém uma imagem tão boa diante das pessoas, a gente gosta que as pessoas reconheçam que a gente é bom, que a gente é fantástico, que a gente é maravilhoso, mas, por causa disso, é um bloqueio, assim, ó. A gente nunca vai chegar na contrição perfeita. A gente tem que quebrar esse orgulho e parar de julgar, de achar que a gente é melhor que as pessoas.

Versículo 40. Então Jesus lhe disse: "Simão, tenho uma coisa a dizer-te." "Fala, mestre", disse-lhe. "Um credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários e o outro cinquenta. Não tendo eles com o que pagar, perdoou a ambos a sua dívida. Qual deles o amará mais?" Simão respondeu: "A meu ver, aquele a quem ele mais perdoou." Jesus replicou-lhe: "Julgaste bem." E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: "Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para lavar os pés" — que era o costume da época — "mas esta, com as suas lágrimas, regou-me os pés e enxugou-os com seus cabelos."

Ela não se importou, sabe, tinha terra, tinha a sujeira no pé de Jesus. Quando a pessoa está com o coração realmente cheio dessa contrição, o coração arrependido daquilo que ela fez, daquilo que ela é, e ela quer mudar de vida, ela não se importa com esses pormenores, sabe? "Não me deste o ósculo" — outra coisa, chegando à casa, dava-se o ósculo santo — "mas esta, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com perfume, ungiu os pés."

"Por isso te digo..." — olha aqui, essa contrição maravilhosa e a penitência junto, essa aqui a gente precisa aprender, que essa pecadora... meu Deus do céu! Por isso que Jesus falou: as prostitutas precedem os fariseus, os doutores da lei, no reino de Deus. Porque elas se arrependem, elas não ficam mantendo imagem, não. Todo mundo sabe que elas são prostitutas, elas não mentem, elas reconhecem que elas são pecadoras. E não estou falando isso para a gente viver uma vida de pecado público, mas para a gente reconhecer aquilo que a gente é, independente do nível, sabe? Tem gente que tem pecado terrível, pecado que clama a ira de Deus. E tem gente que tem pecado mortal, tem gente que tem pecado venial, tem gente que tem vício, pecadinhos também, que são terríveis, coisas pequenas, às vezes fazer uma fofoca, às vezes falar mal dos outros, às vezes não ter uma coisa boa para falar, sabe, ficar resmungando. Então, existe um nível.

Mas a pessoa que comete o pecado, assim ó, horrendo, pecado terrível, aquele pecado que clama a ira de Deus, aquele pecado que é, assim, um absurdo dos absurdos, essa pessoa... "Por isso te digo: seus numerosos pecados foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor; mas ao que pouco se perdoa, pouco ama." Esse é o negócio, esse é o negócio. O amor, sabe, a contrição, a graça do amor a Deus é uma graça que vem do amor. E, como Jesus disse, a quem... aqui está no lodo, sabe — lá eu estou colocando aqui para expressar, né, como se fosse um pecado muito horrendo, um pecado médio, um pecado pequeno —, assim, a pessoa que cometeu esse pecado e foi perdoada, assim, é o pecado da prostituição. O amor que a pessoa, sabe, é a graça de Deus que surge, é gigantesca, e ela não se importa com o que as pessoas vão dizer, não se importa com o que os outros vão falar, não se importa com o que vai acontecer, não se importa com nada. A única coisa com que ela está se importando é que o coração dela, assim ó, contrito, se apresentando diante de Jesus. Que coisa maravilhosa!

Mas "ao que pouco se perdoa, pouco ama". Parece assim que a pessoa que... como se fosse o filho pródigo, né? O encontro do filho pródigo com o pai, o tanto de perdão, o tanto de amor, a saudade que ele tava da casa do pai, e o pai manda dar uma festa. Parece assim o perdão e o amor violento. Mas aquele que estava lá, como se, assim, só cometeu um pecado venial, assim, nunca cometeu um pecado mortal, nunca fez essas coisas horrendas... A pessoa fica com ciúmes, a pessoa fica, sabe, com uma inveja do outro. "E disse a ela: perdoados te são os teus pecados. Os que estavam com ele à mesa começaram a dizer: então quem é este homem que até perdoa pecados? Mas Jesus, dirigindo-se à mulher, disse-lhe: tua fé te salvou, vai em paz."

Não sei se você assistiu o vídeo anterior, onde eu dizia que o pecado é motivo da tristeza. Enquanto a gente não se livrar do pecado, enquanto a gente não abandonar o pecado, enquanto a gente não entrar numa luta com o pecado, a gente nunca vai ser feliz, sabe, porque a santidade é o motivo da nossa alegria. Nessa vida, na nossa alma sempre vai estar um buraco, e quanto maior o pecado, maior o buraco. É por isso que, quando a gente recebe o perdão de Jesus, parece que, assim, um buraco violento é tampado, assim, você começa... você viu, mas você não merece, sabe, você reconhece, você fala: nossa, o meu pecado era tão grande, Deus me perdoou, Deus me restituiu, Deus tampou o buraco da minha alma, e você transborda de amor. E as pessoas que não têm essa experiência às vezes não entendem isso.

Mas sabe que muitas vezes o irmão do filho pródigo, essas pessoas que às vezes não cometem pecados absurdos, que têm a oportunidade de viver uma vida na graça, de perfeição, de santidade tão violenta... O Padre Pio disse que ele não cometia pecado mortal, só tinha pecado venial. O que foi esse santo, né? Mas muitas pessoas vivem uma vida paralela, vivem uma vida com Deus e vivem uma vida no mundo. A maior parte das pessoas que vivem assim, como se fosse assim, mais ou menos nessa faixa, assim ó... Eu queria ler isso daqui, é um poema que eu escrevi em 2015, logo quando eu me mudei para Belfast. E, da vida de violência espiritual, sabe, de graça, de rosário, de missa, de área de oração, eu passei a viver uma vida de pecado terrível, e eu percebi que eu estava no mundo paralelo. Então esse é o nome desse poema, eu vou ler aqui: Mundo Paralelo.

Não há verdadeiramente um prazer genuíno
nessa vida vazia de sentidos e razões,
tudo é sem graça, sem rumo e sem valor.
A regra de ouro é viver sem pensar.

É verdade. Você vive de balada em balada, de festa em festa, e nesse intervalo você não pensa, você quer se encher de coisas. É por isso que as pessoas não gostam do silêncio. É por isso que as pessoas não querem refletir de forma profunda, como o Paulo, sabe, depois da conversão. O Saulo, ele só se converteu porque ele ficou cego, porque ele parou de olhar para fora, parou de julgar, e ele foi obrigado a olhar para dentro dele. Às vezes a gente só vai se converter, a gente só vai realmente mudar de vida, a gente só vai ter um encontro com Deus quando a gente olhar para a gente mesmo. O filho pródigo só decidiu sair da vida que ele estava vivendo depois que ele gastou os bens que o pai dele tinha dado, quando ele olhou para ele e enxergou a miséria que ele estava vivendo, e ele sente saudade do amor do pai. A gente só vai mudar de vida quando a gente olhar para dentro da gente mesmo, a gente vê o que a gente é. Então, a regra de ouro dessa sociedade maluca em que a gente vive hoje em dia é viver sem pensar. E aí sou eu dizendo:

Estou num ponto posto onde tudo é escuro,
uma vida animalesca e falsa foi o que eu ganhei
quando me afastei da verdade que sustenta o universo.

Uma vida animalesca e falsa. Santa Catarina de Sena dizia: quando a gente se afasta de Deus, a gente vive como um animal.

O vazio do meu peito é enorme e cheio de solidão.

Não importa com quantas pessoas você esteja, você vai estar sempre sentindo esse sentimento de solidão, porque, embora você esteja rodeado de pessoas, você está longe de Deus, você sempre vai sentir esse vazio, esse buraco no seu peito.

Coleciono mágoas e ilusões por fingir o que não sou
para que gostem de mim, mas percebo que, no fim,
as pessoas percebem minhas máscaras e se afastam,
no mundo onde um tenta se apoiar na mentira do outro.
Tento me encontrar para não decepcionar aqueles
que acreditaram na mentira que contei
quando me esqueci de quem eu sou.

Quem você é? A gente vive tentando esquecer quem a gente é, e a gente tenta viver uma vida de pecado assim, esquecendo da nossa experiência com Deus, como se fosse possível viver longe de Deus, e a gente se convence, sabe, porque passa um tempo, você acha que você é aquilo mesmo, e você esqueceu quem você é, de onde Deus te tirou.

O maior erro da personalidade é não ser você mesmo.
Para que se iludir se um dia a verdade tudo vai revelar?

Mesmo que seja com a morte, a verdade vai tudo revelar.

Momentos mesquinhos de escolhas erradas me torturam.
Tenho medo de pensar no que me aconteceu ou o que fiz comigo mesmo.
Contei tanta mentira que até eu mesmo acabei acreditando.
Me enganei e me esqueci qual é a minha verdadeira identidade.
Rasguei minha história e joguei minhas pérolas no lixo.
Prensei meu ego contra a parede e me perdi.
Preciso de alguém que me faça recordar quem sou eu.

Jesus tá aí para isso.

Necessito o quanto antes acordar dessa insônia, que é um pesadelo.

Insônia do pecado. Se você está vivendo longe de Deus, se você está vivendo uma insônia e um pesadelo, você precisa acordar, você precisa de um chacoalhão, você precisa, sabe? Às vezes quebrar a sua cara, às vezes acontecer uma desgraça para você acordar. E a graça que Deus precisa te dar é permitir que essa desgraça aconteça, porque você não acorda, você está numa sonolência em que você não percebe o mal que você está fazendo para você mesmo e para os outros.

Dessa dormência infinita que tortura a minha alma,
em busca de uma alegria inanimada e sonsa.
Me ajudem a levantar dessa condição sórdida,
cheia de uma infantil e vaga ideia crucial
de viver no mundo paralelo e, claro,
o lado escuro do mal.

Às vezes, a realidade que a gente vive é essa: o mundo paralelo. Sabe, a gente vive duas vidas, mas Deus sabe o que a gente está fazendo. E essa é a graça que a gente tem que pedir, pela intercessão de Maria de Betânia, pela intercessão de Maria Madalena, pela intercessão daqueles que eram considerados, sabe, os piores, como o Santo Agostinho, que também vai ser celebrado nesse mês — a gente vai falar sobre ele —, mas a graça de fazer como Maria e reconhecer quem Jesus é. Quem Jesus é para você.

Eu já passei por essa experiência várias vezes, sabe, de estar ali, e as pessoas com pedras, assim, para atirar. Jesus, com uma palavra... O que é um homem contra uma multidão? Não consegue fazer nada. Mas Jesus, com uma palavra, conseguiu desarmar todos aqueles que estavam para atirar contra aquela mulher e para atirar contra mim. Ele diz: quem? Onde estão aqueles que te condenaram? Não tem ninguém? Ela falou: não. Eu também não te condeno. Nossa! Qual que é a sua reação diante de um Deus que diz "eu não te condeno"? Qual que é a sua reação diante de um Deus que diz "eu te perdoo"? "Ah não, uma senhora não entende, o pecado que eu cometi..." Jesus entende. "Eu não te condeno." Essa música que eu escrevi, depois de um momento intenso de oração, Deus me deu a graça de transmitir aquilo que eu vivi, aquilo que eu sou, aquilo que eu passei. Mais uma vez, esse sou eu, como essas prostitutas aos pés de Jesus, reconhecendo aquilo que ele é e aquilo que ele fez na minha vida.

Meu Deus da minha salvação, em Ti quero viver.
Ante o teu amor, eu quero me render de todo coração
e proclamar:
Tu és Deus da minha salvação,
em Ti quero viver.
Lançado aos Teus pés, me entregar,
com a face por terra, gritar:
eu quero Te amar de todo coração,
eu quero Te adorar
e reconhecer que Tu és
o princípio e o fim
para mim, ó Jesus.
Eu quero Te amar de todo coração,
eu quero Te adorar
e reconhecer que Tu és
o princípio e o fim
para mim, ó Jesus.

Que Deus te abençoe, e obrigado por assistir até aqui.