Lembrar você hoje me traz muita raiva - um sentimento estranho

No âmago do meu ser surge uma inquietude

Uma coisa irascível assim que não sei explicar

Como que se pudesse voltar atrás optaria viver sem você

Esses últimos e importantes momentos finais - da minha vida antiga

Quantos momentos perdi - quanto deixei a desejar

Não sendo eu mesmo em plenitude

Não tendo coisas boas e melhores a expressar

Preso na ilusão de um romance facilmente criado

Num tempo recorde constituído e idealizado

Ah, como fui tolo a acreditar que não seria mais tentado

A jogar fora as pérolas mais preciosas

Que a dureza e a amargura de uma vida de sofrimentos

Lapidou e formou dentro de mim

E como irracionalmente por impulso desordenado das paixões

Me transformei em uma figura falsa que odeio

Paixão desgraçada dessa carne de pecados

Que ainda me faz pagar dívidas fiado

De gestos e atitudes que cometi - ou me esquivei

De palavras e conversas que não evitei

Hoje a conta é mais cara do que pensei

E sei que não vai ser fácil a anistia dessas cobranças

Onde a consciência conturbada vive a me relembrar

Seja por ideias ou lembranças que me assombram

E me fazem como um morto vivo vagar perdido

Buscando nos lixos da sociedade me encaixar

Me enquadrar numa turma de efeitos pesados - e sem sentido

Sem valores, moral ou religião

Que vive a liberdade falsa que a "era das luzes" nos deu de herança

Escolhendo sempre o que apetece os apetites sensíveis

O duro é que essa briga é antiga dentro de mim

E se até agora não desisti - não é agora que o vou

Para aceitar essa morte pintada de alegria

Esses sentimentos degradados revestidos de prazer

Quero mais é lutar contra tudo isso - como sempre fiz

E continuar de pé - pois essa guerra não é carnal apenas

Mas minha maior angustia surge novamente

Pois quando parei para refletir no motivo da minha infelicidade

Descobri que não provém de você - mas de mim mesmo

Do que há em mim que ainda não mudei

Das pequenas e velhas coisas que seguram e mantém

O mal dentro de mim - espelho ingrato do tempo

A verossimilhança entre o que passou e o que ficou

Pena que não mudei como gostaria - e deveria

Triste de mim que não tive coragem de agarrar a oportunidade

Que Deus me deu para que eu fosse simplesmente eu

Mas diante da covardia e do medo deixei escapar

E confesso que fugi da responsabilidade de me assumir

Talvez imitando os passos dos meus ancestrais

Ou por medo de não conhecer direito - e ter que conviver

Com esse estranho que sou eu afinal

Tantas vezes questionei os outros e fui tão confiante

Demonstrando o paralelo dos egos imperceptíveis

Que a antiga filosofia me levou a conhecer

Mas tão pouco ainda sei de mim mesmo - e não estou certo

De ter as respostas certas - diante de perguntas difíceis

Não quero mais desempenhar um papel secular e sagrado

De alguém que fui ou que venha a ser - desconhecido

Pois quando as cortinas dessa vida se fecharem

Quero estar realizado e consciente

De que vivi intensamente cada segundo de realidade...