Resumo do vídeo
O coração inquieto: por que só descansamos em Deus
Neste vídeo, Gustavo Munhon retoma uma das frases mais célebres da tradição cristã, escrita por Santo Agostinho logo no primeiro parágrafo das Confissões: "fizeste-nos para Ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti". A partir dessa intuição, ele conduz uma formação inteira sobre a inquietude do coração humano — essa sensação de vazio, cansaço e agitação que nenhuma coisa criada consegue saciar. A tese central é simples e exigente ao mesmo tempo: fomos feitos por Deus e para Deus, e por isso nenhum prazer, conquista ou fuga deste mundo pode nos dar a paz que só a comunhão com Ele oferece.
O tema nasce de uma experiência concreta. Gustavo conta que passou meses trabalhando em dois empregos, um deles num bar, e que observava ali tantos jovens tentando preencher um vazio interior com bebida, festas e ilusões. Daquela observação ele extrai a chave da reflexão: não adianta tentar descansar apenas trocando de ocupação, porque a raiz da inquietude não é só o corpo cansado — é a alma sedenta de Deus. A formação abre com a leitura do próprio texto de Agostinho (que ele lê primeiro em inglês e depois traduz) e, a partir dele, costura a frase das Confissões com três passagens de São Paulo e uma palavra de Jesus, mostrando, passo a passo, como o pecado nos prende e como a graça nos liberta.
A inquietude e o vazio que só Deus preenche
Gustavo dirige-se diretamente a quem anda cansado com a família, o trabalho, as dívidas, o estresse e as preocupações — a quem, muitas vezes, nem dorme bem à noite pensando em como resolver os problemas. Ele lembra que a própria palavra "preocupação" já denuncia sua inutilidade: é "ocupar-se antes", agitar-se por aquilo que a agitação não resolve. O ser humano é corpo, alma e espírito; quando tentamos resolver apenas as questões da carne e deste mundo, a alma continua inquieta, o espírito continua clamando por Deus. Gustavo observa que a própria palavra "preocupação" já denuncia sua inutilidade — é "ocupar-se antes", agitar-se por aquilo que a agitação não resolve, e por isso tantas pessoas perdem o sono remoendo o que precisam decidir. Citando novamente Agostinho, ele afirma que Deus tem sede de que nós tenhamos sede d'Ele, porque colocou em cada um de nós um vazio que só Ele pode preencher.
"O bem que quero não faço": São Paulo e a concupiscência
Para falar das lutas da carne, Gustavo lê Romanos 7,18, onde Paulo confessa: "não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero". Ele recorda que o grande apóstolo foi primeiro Saulo, perseguidor dos cristãos, transformado por um encontro extraordinário com Jesus — assim como tantos ouvintes também tiveram suas vidas mudadas, suas rotinas e seus fins de semana reorganizados em torno da missa, do terço e da oração. Mas a conversão não elimina a batalha diária. Mesmo perdoados no sacramento da confissão — pois o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado (1 Jo 1,7) —, permanece em nós a concupiscência, a marca que o pecado deixa e que nos enfraquece. Gustavo lembra ainda que o próprio Paulo recebeu "um espinho na carne" para não se ensoberbecer diante das revelações que tivera: também ele queria fazer o bem e esbarrava no pecado que nele habitava.
Os que não herdarão o Reino: pecados que nos prendem
O centro da formação é 1 Coríntios 6,9-10, onde Paulo enumera os que não herdarão o Reino de Deus: injustos, impuros, idólatras, adúlteros, efeminados, ladrões, avarentos, bêbados, difamadores e assaltantes. Gustavo percorre essa lista mostrando que, por trás de cada pecado, há um coração inquieto que não repousa em Deus. Fala da injustiça de quem não paga um salário justo; da impureza, sobretudo a sexual; da idolatria, que é tirar Deus do centro e colocar no lugar o dinheiro, a fama ou qualquer criatura — distinguindo a idolatria da veneração católica às imagens e aos santos, muitas vezes mal compreendida. Comenta o adultério, a devassidão da embriaguez (lembrando que beber não é pecado, mas perder o controle de si, sim), o roubo, a avareza como apego às coisas materiais, a difamação — e, apoiado em Romanos 1,20-27, a questão da homossexualidade. Ele insiste num ponto importante: um pecado se liga ao outro, tende a se reproduzir e a crescer — por isso a Igreja fala dos sete pecados capitais, dos quais os demais se originam, e o Catecismo o recorda ao tratar da concupiscência.
Errar o alvo e a promessa de Jesus
Por que caímos em tudo isso? Porque tentamos saciar nas coisas deste mundo a sede que Deus colocou para Ele mesmo — e assim nunca ficamos satisfeitos. Gustavo explica que pecar é "errar o alvo": queremos amar a Deus e acabamos amando a carne; queremos buscá-Lo e buscamos o dinheiro. Somos como Pedro caminhando sobre as águas: enquanto fixa os olhos em Jesus, permanece de pé; quando os desvia, afunda. Recordando João 14,1-2 — "não se perturbe o vosso coração... na casa de meu Pai há muitas moradas... vou preparar-vos um lugar" —, ele afirma que Jesus foi à nossa frente e que a salvação nos é oferecida; mas, se não nos libertarmos dessas prisões da carne, corremos o risco de não ocupar o lugar que nos foi preparado desde a fundação do mundo.
"Fostes lavados": o segredo do descanso
A formação culmina no versículo seguinte, 1 Coríntios 6,11: "mas fostes lavados, fostes santificados, fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus". Esse, diz Gustavo, é o segredo. Ele convida quem se reconheceu em qualquer daqueles pecados a deixar a palavra tocá-lo agora e conduz uma longa oração pedindo a graça de ser lavado — a mente, a mentalidade, a visão, o corpo, a sexualidade, os ouvidos e a boca —, como o soldado que trespassou o lado de Cristo e teve a vista restaurada pelo sangue e pela água que jorraram. Mais do que lavados, pede que sejamos santificados e justificados, renovados e restaurados para servir. O convite final é entregar tudo, mergulhar no Coração de Jesus e repousar n'Ele, não só por um dia, mas por todos os dias da vida.
Deus nos fez para Ele mesmo, e os nossos corações estão inquietos e não encontram paz até que descansem em Ti, Senhor.
Para levar para a vida
- Reconheça que o cansaço e a agitação da alma não se resolvem trocando de distração; a inquietude é sede de Deus.
- Leve à confissão os pecados e os apegos que o prendem — o perdão de Deus é real e restaura o coração.
- Entenda que a conversão é uma batalha diária: como Paulo, decida amar e recomeçar "dia após dia".
- Examine onde você tirou Deus do centro (dinheiro, fama, prazer) e devolva a Ele o primeiro lugar.
- Mantenha os olhos fixos em Jesus, como Pedro sobre as águas, para não afundar quando os pesos da vida apertarem.
- Faça sua a certeza de 1 Coríntios 6,11: você foi lavado, santificado e justificado — descanse nessa graça.
Passagens citadas: Rm 7,18; 1Jo 1,7; 1Cor 6,9-11; Jo 14,1-2; Rm 1,20-27
Transcrição completa do vídeo⌄
Transcrição integral do áudio do vídeo, organizada em parágrafos para facilitar a leitura.
Olá, meus amigos! Olá, meus irmãos! Bem-vindos novamente à nossa formação. Faz mais ou menos três meses desde a última formação que nós tivemos aqui. Eu estava trabalhando em dois empregos e estava faltando um pouco de tempo. Mas agora, graças a Deus, estou trabalhando em um só. E, com a graça de Deus, nós queremos iniciar essa formação de hoje.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Pedimos, Senhor, que o Teu Espírito seja derramado sobre nós. Que a Tua graça nos envolva, que o Teu amor nos contagie, que a Tua presença toque a todos aqueles que vão assistir a essa formação. Para que aqueles que estão afastados possam voltar; aqueles que estão sem direção possam ser encontrados como aquele filho pródigo e cair em si; e aqueles que estão no Teu caminho, Senhor, possam progredir na Tua graça e crescer em sabedoria, estatura e graça. Que, pela intercessão da Virgem Maria, o Senhor derrame bênção sobre bênção e graça sobre graça sobre nós durante essa formação de hoje.
Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco; bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém. Louvado seja o nosso Senhor Jesus Cristo, reverenciado, glorificado, amado, honrado, agora e para sempre. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre. Amém. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Então, meus irmãos, hoje eu quero começar de uma forma um pouquinho diferente. Eu tive a inspiração para fazer essa formação — na verdade, tive a inspiração para fazer em inglês. E eu quero começar hoje aqui com um livrinho, um dos clássicos da literatura católica. Quem conhece aí Santo Agostinho e o livro das Confissões? Então eu vou ler aqui só o primeiro parágrafo, que já está justamente na página 21, no primeiro parágrafo do livro das Confissões de Santo Agostinho, onde ele declara essa maravilhosa frase, que é conhecida praticamente no mundo inteiro. Para quem não entende muito inglês, eu peço desculpa, mas eu vou traduzir a frase principal aqui.
"Can any praise be worthy of the Lord's majesty, how magnificent his strength, how inscrutable his wisdom. Man is one of your creatures, Lord, and his instinct is to praise you. He bears about him the mark of death, the sign of his own sin, to remind him that you thwart the proud. But still, since he is a part of your creation, he wishes to praise you. The thought of you stirs him so deeply that he cannot be content unless he praises you, because you made us for yourself and our hearts find no peace until they rest in you."
Olha só que coisa maravilhosa. "You made us for yourself" — ou seja, você nos fez para você mesmo; "and our hearts find no peace" — e os nossos corações não encontram paz; "until they rest in you" — até que eles descansem em Ti. Nós temos aquela famosa tradução em português: o Senhor nos fez, e os nossos corações estão inquietos enquanto não descansam em Ti. Então esse é o tema da nossa formação de hoje: a inquietude.
Eu estava trabalhando num bar — na verdade é uma espécie de boate, para dizer em português. Muitos jovens, de 18, 19, 20 anos, iam, bebiam, dançavam e tentavam se divertir. E, durante esses três meses em que eu estava trabalhando, o meu pensamento era esse: como esses jovens estão tentando preencher o vazio que está dentro deles com o vazio que está nas bebidas, com a ilusão que está nas festas, com a ideia de que eles vão conseguir ser felizes. De que eles vão conseguir descansar o cansaço do dia trocando a mente do trabalho, trocando as responsabilidades, trocando as preocupações por bebida, para esquecer.
Enfim, eu cheguei a essa conclusão: de que não adianta tentar descansar fazendo outras coisas. Você, que está assistindo aí, você que às vezes anda muito cansado, com as suas habilidades, com a sua família, com os pesos da vida, com o estresse, com os compromissos, com o trabalho, com as despesas, com os gastos. Você que, às vezes, como eu, durante esses últimos três meses, às vezes não dorme muito bem — e não é nem porque você está trabalhando em dois empregos; às vezes é por insônia, às vezes é porque você está passando por um problema, uma situação, e fica pensando de noite como você vai conseguir resolver. Essa inquietude não vai resolver.
Na verdade, a própria palavra "preocupação" já diz o que significa: é uma ocupação antes, uma ocupação anterior à coisa em si. Se a preocupação não resolve, por que a gente fica com isso na cabeça? Quantas pessoas não dormem, quantas pessoas pensando no que elas têm que resolver, no que elas têm que fazer? Elas ficam inquietas. E Santo Agostinho, que conhecia bem a natureza humana, dizia que o nosso coração vai permanecer inquieto não só por causa das coisas naturais, mas também por causa da nossa humanidade, por causa da nossa alma, porque a gente tem corpo, alma e espírito. Muitas vezes a gente tenta só resolver os problemas da carne, resolver os problemas deste mundo, e a nossa alma fica inquieta. O nosso espírito fica inquieto, clamando por Deus, sedento por Deus.
E eu lembro de outra frase de Santo Agostinho, que cai muito bem como uma luva nessa passagem, de que o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Deus. É outra frase que ele dizia: que Deus tem sede de que nós tenhamos sede d'Ele. Ele colocou isso em nós. No espírito existe um vazio que só Deus pode preencher.
Então, falando das coisas humanas, das coisas da carne, eu queria começar também com a passagem de São Paulo, que está em Romanos, capítulo 7, no versículo 18. Esse aqui é São Paulo, e somos cada um de nós: "Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não a capacidade de efetuá-lo. Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita." Palavra do Senhor. Graças a Deus.
Olha só: São Paulo, sendo aquele que era Saulo, que se converteu para Paulo. Muitas pessoas só falam do São Paulo santo, mas se esquecem do Saulo, porque ele foi, a vida inteira — aquilo que ele se tornou no ápice da sua vida —, perseguidor dos cristãos. E tudo aquilo que na cabeça dele era considerado normal, por causa de Jesus ele foi transformado, ele foi renovado, ele foi mudado. Como muitos de nós. Às vezes você, que está assistindo, você teve essa experiência; você também foi tocado, você foi transformado, você foi mudado. Você mudou a sua mentalidade, mudou as pessoas, mudou os lugares onde você vai, mudou as suas rotinas, mudou o seu final de semana — de tal modo que, pelo menos, você incluiu o tempo para participar da missa, pelo menos você separa às vezes um tempo para Deus, você separa um tempo para rezar o terço, você separa um tempo, às vezes, para participar de um grupo de oração.
Paulo, como muitos de nós, teve uma experiência com Jesus e teve a sua vida transformada. Mas a sua transformação, embora o seu encontro com Jesus — é claro que São Paulo também é um caso de prodígio extraordinário: ele estava cego por três dias, e Jesus apareceu para ele, revelou tudo o que ele tinha que fazer, tudo o que ele tinha que sofrer, e ele aceitou. E foi só por causa disso que Ananias foi lá, impôs as mãos e ele recobrou a vista; ele aceitou a missão. Mas aí ele teve que entrar na batalha, e nessa batalha ele descobriu que o pecado da carne dele fazia com que ele fizesse o que não queria.
Isso é o que acontece também conosco: os apegos, o que o pecado deixa em nós. Porque nós, como católicos, sabemos — o sangue de Jesus, como está escrito em 1 João 1,7, nos purifica de todo o pecado. Na Igreja Católica, através do sacramento da confissão, quando a gente confessa os nossos pecados, quando o padre diz "eu te absolvo em nome de Cristo e da Igreja dos seus pecados, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo", os nossos pecados são apagados, não existem mais. Mas o que o pecado produz — o nosso corpo fica marcado, e isso significa a concupiscência. É a mancha do pecado; não só a mancha do pecado original, mas é a mancha do nosso pecado. Ele faz com que esses apegos, essas coisas, permaneçam em nós, e nós ficamos fracos.
E aí, quando a gente quer fazer o bem, a gente tem uma determinação — como São Paulo, que encontrou Jesus: "eu quero amar todo mundo", e ele falava "eu vou amar, eu vou amar". Mas na hora que chegava a hora, ele ficava com raiva e brigava. Como ele discutia com os apóstolos, com Pedro! Paulo é um dos apóstolos que não se dava muito bem com os outros apóstolos — a longo prazo; a curto prazo, sim, mas a longo prazo, não. Por isso que nós vemos aqui que eles discutiam sobre a questão de ser judeu, discutiam sobre as questões antigas, na verdade, do judaísmo, o que valia. E aí ele preparava o discurso, e depois, na hora que chegava a hora de agir, ele ficava como se estivesse preso, e aquilo o segurava.
Ele mesmo declara: para que eu fosse liberto do pecado do orgulho — porque ele teve revelações extraordinárias, do céu à terra — foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para me esbofetear, para me livrar do orgulho. Então São Paulo tinha isso, e ele reconhecia isso; e ele sabia que queria fazer o bem, mas não conseguia por causa do pecado. Olha só: "não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita."
E falando sobre o pecado que me habita, muitos de nós podemos lembrar a nossa vida de pecado, e de que muito do que nós vivemos hoje — daquilo que não vencemos, do que não nos purificamos, do que não conseguimos progredir na graça de Deus — é por causa de pequenas coisas que podem nos prender, que podem nos fazer ficar inquietos. E, enquanto nós estamos inquietos, o nosso coração não descansa em Deus. E nós só vamos deixar de ser inquietos quando entregarmos tudo a Deus: passar a nossa vida — as coisas da carne, as coisas da alma, as coisas do espírito — mergulhar no Coração de Jesus, entregar tudo.
E olha só, eu queria pegar outra palavra de Paulo também, para a gente continuar aqui, na Primeira aos Coríntios, no capítulo 6, no versículo 9. É claro que aqui Paulo está falando sobre o Reino dos Céus, sobre a eternidade, sobre a salvação. Mas é muito interessante, porque os assuntos que ele toca são os assuntos que a gente também vive, e que fazem com que a gente permaneça inquieto neste mundo. Olha só: não é por causa de que a gente faz o mal que a gente não quer? A gente faz o mal que a gente não queria fazer, mas o bem que a gente queria fazer — o amor que a gente queria dar aos outros, a bondade que a gente queria transparecer, a caridade que a gente queria passar adiante — muitas vezes a gente não faz, por causa desses detalhes aqui, que fazem com que a gente fique inquieto, que fazem com que a gente fique preso.
E aqui, ao final dessa parte do capítulo 6, ele também vai comentar o que a gente precisa para poder descansar em Deus, o que a gente precisa deixar acontecer na nossa vida a cada dia. Não é uma coisa estática. É como Paulo teve essa experiência, fez a resolução por Jesus, teve um encontro que transformou a sua vida de uma vez por todas, mas a sua batalha continuou dia após dia, dia após dia. É assim também conosco: nós também temos que fazer isso, porque senão essa inquietude, esses anseios, essas vontades, esses desejos, os desequilíbrios, as paixões desordenadas, a concupiscência, fazem com que a gente viva uma vida de ilusão.
Vamos lá, então: capítulo 6 da Primeira aos Coríntios, versículo 9. Olha só o que ele diz — aqui é Paulo falando ainda: "Acaso não sabeis que os injustos não hão de possuir o reino de Deus?" — os injustos, os enganadores, nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o reino de Deus. Meus irmãos, palavra do Senhor. Graças a Deus.
Isso aqui é tão sério, que diz respeito à nossa salvação, diz respeito ao lugar aonde a gente vai, diz respeito ao Reino de Deus. Porque em João — eu vou pegar aqui também, só porque estou falando disso —, em João, no capítulo 14, olha só o que Jesus falou: "Não se perturbe o vosso coração, não se inquiete o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse, eu vos teria dito, pois vou preparar-vos um lugar." Jesus foi à nossa frente; Ele foi para preparar um lugar — o céu, a eternidade. A salvação está garantida para a gente. Mas, se a gente não se libertar dessas coisas da carne, dessas coisas que nos fazem ficar inquietos, dessas imperfeições, desses pecados, pode ser que a gente não alcance o Reino do céu, pode ser que a gente não ocupe o lugar que está predestinado para a gente desde a fundação do mundo, o lugar que Jesus está preparando — a morada de Deus, do Pai, no céu, a eternidade para nós.
Olha só, então ele começa falando: os injustos não hão de possuir o reino de Deus. Injustiça. Quando eu falo disso, a primeira coisa que vem na minha cabeça é aquela palavra do catecismo, que fala dos patrões que não pagam os seus funcionários, o salário injusto. Isso é injustiça. A gente sabe que, no Brasil, o salário mínimo é uma miséria. Fazendo o estudo da realidade, o salário mínimo do Brasil teria que ser de pelo menos três a quatro mil reais; o salário mínimo teria que ser isso. Para começar, aí já está errado, aí já é injustiça. Mas é claro, existem muitas outras questões de injustiça — eu não vou me delongar nisso, mas cada um de nós pode pensar nessa questão da injustiça.
E por que as pessoas cometem injustiça? Porque elas estão presas, presas nessa consciência. Em vez de ser justo, de pagar o salário justo, de praticar a justiça naquilo que a gente faz com os outros, a gente está preso nessa consciência: a gente queria fazer o bem, mas a gente faz o mal. Olha só: "nem os impuros". Aqui, é claro, impureza é uma linguagem que Paulo usa muitas vezes para ser qualquer impureza que você possa pensar, mas é principalmente a impureza sexual. Aqui ele está falando dos apetites sexuais: impureza de pensar, impureza de falar de forma impura, pensar em coisas impuras e fazer coisas impuras. Ele diz: não hão de possuir o reino de Deus os impuros.
Os idólatras. É engraçado que muitos protestantes gostam de usar essa palavra aqui, dizendo que os católicos são idólatras porque adoram imagens — quando, na verdade, eles não entendem a doutrina católica, de que a gente não adora imagens, a gente não adora os santos, a gente não adora os anjos, a gente não adora a Nossa Senhora, porque a gente venera, que é uma coisa completamente diferente, que também muitos deles não entendem. Mas a idolatria é muito maior do que qualquer coisa no mundo que a gente vive hoje em dia. A idolatria ao dinheiro: existe uma coisa de idolatria tão grande no meio dos protestantes, que existe até a teologia da prosperidade, que diz que, se Deus te abençoa, você vai ter bens materiais. Isso é idolatria, isso é uma desgraça.
Existe a idolatria da doença: pessoas que são apegadas às suas doenças, que não querem saber de cura, não buscam cura, não querem ser limpas, não querem ser restauradas, porque se acostumaram. A idolatria da fama — é tão interessante isso — em que as pessoas se consideram ídolos umas das outras: cantores, pop stars, famosos, gente que é milionária, como esses, nos Estados Unidos, da família Kardashian, em que qualquer coisa que eles fazem, o coração deles fica fazendo caso de coisa nenhuma, falando de dinheiro e vivendo uma vida de luxo, e eles são ídolos de muitas pessoas. Isso é idolatria: é tirar Deus do centro e colocar qualquer coisa, qualquer outra coisa que seja, no lugar. Os idólatras não vão herdar o Reino dos Céus. Os idólatras fazem isso porque estão presos, porque estão inquietos; o coração deles não repousa em Deus.
Adultério: é a pessoa que tem um compromisso com alguém, que é casada, que recebeu a bênção de Deus dentro do matrimônio, e tem casos extraconjugais. Esse adultério — manter relações sexuais com uma outra pessoa fora do casamento — isso é inquietação, inquietude, concupiscência da carne, pecado. Não vai herdar o Reino de Deus. Olha só, é tão interessante essa palavra que São Paulo usa: os efeminados. Se a gente voltar em Romanos, no capítulo 1, ele vai explicar a questão da homossexualidade. Olha aqui o que ele diz, em Romanos 1, versículo 20:
"Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu eterno poder e a sua divindade, se tornaram visíveis à inteligência por suas obras, de modo que não podem escusar-se; porque, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus" — olha a inquietude — "nem lhe renderam graças; pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. Pretendendo-se sábios, tornaram-se tolos, e mudaram a majestade de Deus incorruptível em representações e figuras de homem corruptível, de quadrúpedes e de répteis. Por isso, Deus os entregou aos desejos dos seus corações, à impureza, de modo que desonraram entre si os próprios corpos; eles, que mudaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém. Por isso Deus os entregou a paixões vergonhosas: as suas mulheres mudaram as relações naturais em relações contra a natureza; e, deixando o uso natural da mulher, arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em si mesmos a paga devida ao seu desvario."
Efeminados. Esse negócio aí de LGBTQI+, não sei o que lá de siglas: homens que querem se vestir de mulher, homens que se consideram mulheres, homens que, pela doutrina espírita, acreditam que são uma reencarnação de uma mulher, e por isso têm atração pelo mesmo sexo — mais afeminados. Aqui ele nem fala de sexualidade; o simples fato de um homem ser feminino, ser afeminado, não vai herdar o Reino dos Céus. A concupiscência, essa inquietação. Nem os devassos: devassidão. Ele diz aqui, já em seguida, ele vai falar que nem os avarentos, nem os bêbados.
Devassidão e bebedeira é a questão de perder o controle de si e entregar o controle, o equilíbrio — trocar o seu próprio equilíbrio pela devassidão, a ponto de você fazer coisas que você acha que normalmente não faria. Você perdeu o controle do seu corpo, você perdeu o equilíbrio do seu corpo. Porque, na Igreja, nós sabemos que o fato de você beber não é pecado — nós não somos ignorantes como os protestantes, que tomam isso aqui ao pé da letra e falam assim: "você não pode beber". O beber não é pecado. Mas o ficar bêbado, ao ponto de você entrar em uma situação de devassidão, causar escândalos — não herdará o Reino de Deus. Por que alguém faz isso? É porque está inquieto, é porque não conseguiu repousar, descansar o coração em Deus.
Olha só o que ele continua dizendo: nem os ladrões. Os ladrões, que ficam presos no seu roubo, os ladrões que não se libertam. Tem até aquela frase para designar: se for pobre, fala que é ladrão; se for rico, fala que é doente. Os ladrões não herdarão o Reino dos Céus. Nem os avarentos: a avareza, o apego às coisas materiais. Nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus.
Olha só, meus irmãos: por que alguém é injusto? Por que a gente é impuro? Por que a gente é idólatra? Por que a gente é adúltero? Por que a gente é efeminado? Por que a gente é devasso? Por que a gente é ladrão? Por que a gente é avarento? Por que a gente é bêbado, difamador e assaltante? Porque a gente está tentando buscar o sentido da nossa vida nas coisas deste mundo; porque a gente está tentando satisfazer esse anseio que existe dentro de nós, essa sede que Deus colocou por Ele dentro de nós, com as coisas da carne, com as coisas da terra, com as coisas deste mundo. Não vai satisfazer; a gente nunca vai ficar satisfeito.
E — você percebeu a ligação que há entre um pecado e outro, entre uma dessas inquietações e a outra? Porque, se a pessoa é injusta, ela dá um outro passo e vai ser impura; se ela é impura, vai ser idólatra, vai tirar Deus do centro; se ela é idólatra, vai ser adúltera, vai ser efeminada, vai ser devassa, vai ser ladra, vai ser avarenta, vai ser bêbada, vai ser difamadora, vai ser assaltante. Um pecado ligado ao outro. Por isso que nós conhecemos os sete pecados capitais: é que deles se originam todos os outros, e um está ligado com o outro. O Catecismo da Igreja também diz respeito a isso quando fala da concupiscência: o pecado tende a se reproduzir, a aumentar. E a gente peca porque a gente erra o alvo — isso é o pecado. E a gente faz o mal.
A gente quer amar a Deus, e a gente ama as coisas da carne. A gente quer buscar a Deus, e a gente busca o dinheiro. A gente quer ser feliz, a gente quer fazer a vontade de Deus, porque a gente sabe que a nossa felicidade está na vontade de Deus. Mas a gente erra o alvo; a gente está querendo andar na direção de Cristo, e a gente se desvia. E olha só o que Jesus diz: a gente tem que estar reto. A gente é como Pedro andando sobre as águas: tem fé em Jesus — "vem para fora da barca, anda ao meu encontro, sou eu" — a gente pisa no mar; e, quando a gente tira os nossos olhos de Deus, a gente afunda. Isso é errar o alvo: a gente se perde, a gente esquece de onde a gente veio. A gente veio de Deus, e é para lá que a gente vai voltar. A gente pertence ao céu; a gente não pertence às coisas da carne, a gente pertence a Deus.
Olha só que bonito: o pensamento do Senhor mexe com a gente tão profundamente, que a gente não consegue ser feliz a não ser que a gente ame a Deus. Porque Deus nos fez para Ele mesmo, e os nossos corações estão inquietos, e os nossos corações não encontram paz até que eles descansem em Ti, Senhor.
E olha só, para a gente terminar, o que Paulo continua dizendo, no versículo 11 do capítulo 6 de Coríntios, continuando aqui: "Ao menos alguns de vós" — ou muitos de nós — "mas fostes lavados". Esse é o segredo: fostes lavados. Você que está nessa situação, você que se acha injusto, você que se acha impuro, você que acha, pelo que eu falei hoje, que se encontrou e viu a idolatria que você está fazendo, você que está vivendo em adultério, você que é efeminado, você que se encontra nesse estado de ser bêbado sempre, você que se considera um ladrão, um avarento, um difamador, você que é assaltante: deixa que essa palavra te toque agora. "Vós fostes lavados, fostes santificados, fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus." Em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus.
Quero ler de novo, e que, enquanto eu leio, você possa receber a graça de Deus, você possa receber a paz, você possa receber a ação do Espírito Santo sobre a sua vida, sobre essa situação que você está passando, sobre essa inquietação que você está vivendo, que você possa repousar em Deus. "Fostes lavados, fostes santificados, fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus."
Nós queremos, Senhor, pedir essa graça. Lavados — como tantos de nós, cegos, como aquele soldado romano, que era considerado vesgo, não enxergava direito, e enfiou a lança no Teu Coração, e o sangue e a água que jorraram curaram a sua visão, Senhor. Nós queremos pedir a mesma graça: que nós sejamos lavados. Lavados, Senhor, a nossa mente, a nossa mentalidade, o jeito que nós pensamos, Senhor. Lava a nossa visão, lava os nossos olhos físicos e espirituais, Senhor; nós queremos Te ver, nós queremos ser puros, nós queremos ter os nossos olhos purificados, lavados, Senhor. Lava o nosso corpo, Jesus, lava a nossa sexualidade; lava os nossos ouvidos, Senhor, lava as palavras que as pessoas disseram e que podem ter ferido, Senhor. Lava a nossa boca, toda vez que nós propagamos difamações da vida alheia. Lava, Senhor: nós queremos fazer o bem, mas acabamos fazendo o mal; por isso nós precisamos ser lavados, como aquele soldado, Jesus. Lava o nosso corpo, lava a nossa alma, lava o nosso espírito.
Mas não só queremos ser lavados; queremos também ser santificados e justificados, pelo Teu nome, Jesus, pela Tua cruz, pelo poder do Teu sangue, pelo poder do Teu Espírito. Concede-nos a graça de ser lavados, concede-nos a graça de sermos purificados, concede-nos a graça, Senhor, de que todas as nossas inquietações agora, todo esse pecado, toda essa impureza, todo esse fruto do nosso pecado que é a concupiscência, seja lavado, e que nós sejamos santificados e justificados em Ti, na Tua cruz, no Teu sangue, no Teu Espírito. Dá-nos a Tua paz, Senhor. Dá-nos a graça de repousar em Ti, dá-nos a graça de mergulhar no Teu Coração. Dá-nos a graça, Senhor, de que nós sejamos renovados na Tua presença, restaurados para Te servir. Aviva em nós o ardor, Senhor, da Tua graça, da Tua presença, o desejo de Te servir.
Derrama a torrente de graça, de conversão, de santificação, de libertação, de purificação, para que nós possamos permanecer na Tua presença, não só por hoje, mas por todos os dias da nossa vida. Bendito seja o Teu nome, Jesus; louvado seja o Senhor para sempre; exaltado seja, engrandecido seja o Senhor. Nós Te exaltamos, nós Te bendizemos. Senhor, no meio dos louvores, começa a canção: nós queremos Te engrandecer. Os louvores que preenchem os espaços e nos purificam, Senhor, e nos revelam que Tu és o Rei, e Aquele que mantém os nossos corações, Senhor. Nós não temos descanso até que nós descansemos em Ti; nós somos inquietos, apegados, mas nós Te louvamos, porque através deste louvor o Senhor nos liberta. Bendito seja o Senhor, bendito seja o Senhor. Dá-nos a graça de repousar em Ti. Louvado seja o nosso Senhor Jesus Cristo para sempre; seja louvado.


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