Essa é a primeira das formações semanais que pretendemos fazer antes da grande festa de Nossa Senhora das graças em 27/11/2019.
Que o exemplo da pecadora pública nos ajude a tirar nossas máscaras.

Resumo do vídeo

A pecadora perdoada: quando a humildade abre o coração à graça

Neste vídeo, Gustavo retoma suas formações depois de um tempo de pausa e o faz a partir de um contexto muito pessoal: ele iniciou a preparação para renovar a consagração total a Jesus por Maria, segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort. Como parte desses primeiros dias de desapego do espírito do mundo, propôs-se a ler dois capítulos do Evangelho de Lucas por dia, e é justamente de uma dessas leituras que nasce a reflexão. O trecho escolhido é o da mulher pecadora que unge os pés de Jesus na casa do fariseu (Lc 7,36-50), passagem que, segundo ele, sempre o tocou profundamente desde a primeira vez que a ouviu pregada.

A tese central da meditação é simples e exigente: o que muitas vezes nos separa de um milagre, de uma cura ou da ação de Deus não é a distância de Deus, mas o nosso orgulho. Enquanto tratamos Jesus como um igual, alguém que convidamos por conveniência ou status, permanecemos na superficialidade e nada acontece. A mulher pecadora, ao contrário, se humilha, chora e ama, e por isso é a única, entre todos os presentes, que verdadeiramente se encontra com o Senhor.

Uma reflexão que nasce da consagração a Maria

Antes de abrir a Escritura, Gustavo situa o vídeo dentro de sua caminhada de renovação da escravidão de amor a Nossa Senhora, consagração que fez em 2014, antes de deixar o Brasil, e que costuma renovar na virada de outubro para novembro, culminando em 27 de novembro, dia de Nossa Senhora das Graças. Ele recorda a visão de Santa Catarina Labouré, na qual Nossa Senhora aparece com muitos anéis, alguns brilhando e outros não: os que não brilham representam as graças que ela tem para dar, mas que ninguém pede. A partir daí, faz um convite insistente ao espectador: seja ousado e peça, porque Nossa Senhora, medianeira de todas as graças, alcança conversão, libertação e restauração para quem recorre a ela, seja qual for a necessidade, física, psíquica ou espiritual.

Colocar-se dentro da cena

Inspirado num método de leitura orante atribuído a Santo Inácio de Loyola, Gustavo propõe um exercício: colocar-se dentro da história para que a Palavra se torne concreta. Ele pergunta com quem cada um se identificaria naquela cena. Alguns seriam o fariseu que convida Jesus; outros, os convidados que estão à mesa; talvez um sacerdote se veja no lugar de Jesus. Ele confessa que se reconhece na mulher. Lembrando o Padre Léo, que dizia que "um texto fora do contexto é um pretexto para o erro", situa a passagem no momento em que a fama de Jesus se espalhava de cidade em cidade, curando, libertando e realizando prodígios.

O orgulho do fariseu e a superficialidade

Gustavo detém-se na figura do fariseu, Simão, e naqueles que, por orgulho, se acham bons demais. São os que convidam Jesus para um jantar, exibem posses e dignidade, mas buscam apenas manter uma posição social, sem reconhecer a necessidade real de Deus. É a tragédia de estar fisicamente perto de Jesus e, ao mesmo tempo, permanecer distante: todos os que estavam à mesa "estavam lá, mas nenhum estava com Jesus". Ninguém aproveitou aquela presença. Diante de Deus encarnado, cujo poder curava e restaurava por onde passava, contentaram-se com a formalidade.

A humilhação que abre para o milagre

O coração da mensagem está na coragem da mulher. Já tocada pela graça e pelo arrependimento suscitado pelo Espírito Santo, ela não perde a oportunidade: entra na casa, chora aos pés de Jesus, lava-os com as lágrimas e enxuga-os com os cabelos, sem se importar com a sujeira, com os olhares ou com o próprio discurso preparado, tudo é dito através das lágrimas. Gustavo insiste que é exatamente a humildade que faltava a Simão e sobrava nela. Enquanto insistirmos em nos apresentar de igual para igual com Jesus, escondendo o coração como quem mostra a casa mas não a alma, nunca seremos curados nem transformados.

Descer do pedestal e ser verdadeiro

Aplicando tudo à vida concreta, Gustavo reconhece que muitas vezes se viu como aquela pecadora, sem palavras, ciente da própria fraqueza e da tendência ao pecado, ecoando São Paulo: "faço o mal que não quero e não consigo fazer o bem que quero" (Rm 7,19). Deus conhece nossa natureza de barro e não se impressiona com máscaras. Ele adverte contra a confissão feita como um fariseu, que mostra tudo menos o coração. A coisa mais maravilhosa que pode nos acontecer é que o Espírito Santo toque o mais profundo da alma, traga para fora toda impureza e nos dê o desejo de mudar, confessar e nos converter.

Muitas vezes o que separa a gente de um milagre, o que separa a gente de uma cura, o que separa a gente de deixar Deus agir na nossa vida, é a humilhação.

"A tua fé te salvou; vai em paz"

Na conclusão, Gustavo destaca a sentença final de Jesus à mulher e lembra que a fé é uma das virtudes teologais, ao lado da esperança e da caridade: é o próprio Deus quem nos concede o dom de crer e, por meio dele, nos salva. Ele encerra com uma longa oração, convidando quem assiste a se humilhar diante do Senhor neste tempo oportuno, renunciando ao pecado e às máscaras, pedindo que a água viva do Espírito purifique o coração e desperte a coragem de demonstrar amor a Jesus, presente na Igreja, no sacerdote, nos irmãos e nos familiares, para que essa mesma fé nos salve.

Para levar para a vida

  • Peça com ousadia: há graças que Deus quer dar e que ficam retidas apenas porque não são pedidas.
  • Na oração e na confissão, mostre o coração, não a fachada; a humildade, não a aparência, é o que abre espaço para a graça.
  • Reconheça a própria fraqueza sem desespero: Deus conhece nossa natureza de barro e ama quem se apresenta verdadeiro.
  • Deixe o Espírito Santo suscitar o arrependimento e transforme as lágrimas e o coração contrito em oração.
  • Traduza o amor arrependido em atos concretos de caridade para com Jesus presente nos irmãos.

Passagens citadas: Lc 7,36-50; Rm 7,19

Transcrição completa do vídeo

Transcrição integral do áudio do vídeo, organizada em parágrafos para facilitar a leitura.

Olá, meus irmãos e minhas irmãs, bem-vindos. É com muita alegria que mais uma vez eu quero iniciar essa formação, depois de tanto tempo sem formação, né? Mas enfim, eu estou começando. Na verdade, eu comecei na segunda-feira a minha preparação para a renovação, a consagração, a escravidão de Jesus Cristo pelas mãos de Maria, pelo método de São Luís Maria Grignion de Montfort. E eu me propus, nesses doze primeiros dias de desapego do espírito do mundo, ler dois capítulos do Evangelho de Lucas a cada dia, para que eu me desapegue das palavras, do conteúdo, das coisas do mundo, e eu esteja mais unido, intimamente, à Palavra de Deus, ao Espírito de Deus, à vontade de Deus e àquilo que vem do céu.

Quero convidar você, nessa formação, a refletirmos sobre um dos trechos que eu estava lendo hoje, que me tocou profundamente. Eu tenho certeza que também vai tocar o seu coração. Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Com teus escravos, mãe, queremos nos colocar na tua presença, eu aqui com a minha família e as pessoas que estão assistindo também, para pedir que a senhora nos envolva com teu manto sagrado, nos dê a graça de te servir melhor, nos dê a graça de, se não somos, nos tornarmos seus escravos, nos dê a graça de sermos envolvidos no teu coração imaculado. Nos dê a graça de que, como a senhora saudou Isabel e apenas com a tua saudação a criança, o João Batista, estremeceu no ventre dela e ela ficou cheia do Espírito Santo, mãe, a senhora que é esposa do Espírito Santo, apenas com uma saudação, a senhora também pode nos encher. Vem visitar a minha casa, vem visitar a minha família, mãe, e também vem nos saudar, para que nós também fiquemos cheios do Espírito Santo. Enche a nossa família com o Espírito de Deus. Dá-nos a graça de nos desapegar de todo o espírito mundano, de toda contaminação espiritual, de toda impureza, de toda idolatria, de toda vontade humana que desagrada a Deus, de toda fraqueza, de todo pecado, e possamos nos encher dos dons do céu, da graça de Deus. Que a presença do Senhor envolva a minha casa, envolva a minha família, envolva esses meus irmãos e essas minhas irmãs que estão assistindo agora; envolva a casa e a família deles também. E que a senhora entre, mãe, e traga a tua glória, as tuas glórias, a glória do Senhor, para habitar nessas casas, agora e para sempre.

Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco; bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém. São José, rogai por nós. Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Então, meus irmãos, como eu estava dizendo, é maravilhoso ser escravo da Virgem Maria. Eu fiz a minha consagração no ano de 2014, antes de sair do Brasil. E desde então, nesse começo de novembro, final de outubro para começo de novembro, eu tenho feito, eu tenho tentado fazer a minha renovação. Vocês sabem, são uns trinta dias de preparação: doze dias de desapego do espírito do mundo, depois seis dias, seis dias e seis dias, três semanas, e aí nós temos a fórmula de consagração novamente. A minha data de consagração é dia 27 de novembro, que é o dia de Nossa Senhora das Graças.

E um fato interessante, que muitas pessoas não sabem, ou que não se fala muito sobre isso: Nossa Senhora, na visão de Santa Catarina Labouré, aparece com muitos anéis, e alguns anéis estão brilhando, outros não estão brilhando. E a Catarina pergunta por que alguns anéis não brilham. E ela diz que são as graças que ela tem para dar, mas as pessoas não pedem. Se você também é devoto de Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora tem graça para derramar na sua vida, na sua família, mas você não pede. Então, que através desse vídeo você seja ousado e peça a Nossa Senhora, porque eu posso te garantir, através da minha própria vida, que ela dá as graças de Deus: ela alcança a conversão, ela alcança a libertação, ela alcança a restauração, ela derrama graça porque ela tem. Ela derrama graças infinitas porque ela tem. Deus conferiu a ela: tudo que há no domínio de Deus pela natureza foi concedido a Nossa Senhora pela graça. Então, ela é a medianeira de todas as graças, e ela pode alcançar qualquer graça de que você esteja precisando.

Por isso, começando esse vídeo, esses vídeos que eu vou fazer durante essa minha preparação também, eu te convido a ser ousado e a acreditar. Aquele ditado é a coisa mais verdadeira: pede à mãe que o Filho atende. Nossa Senhora vai alcançar a graça de que você precisa, a graça de que você estiver precisando, mais urgente, seja ela física, psíquica ou espiritual, ela vai alcançar.

Então, eu queria convidar você a refletir na Palavra de Deus, no Evangelho de Lucas, no capítulo 7, no versículo 36. A minha tradição, como vocês sabem, é a tradução da Bíblia Ave-Maria. E eu vou ler; ela é dessa forma:

"Um fariseu convidou Jesus a ir comer com ele. Jesus entrou na casa dele e pôs-se à mesa. Uma mulher pecadora da cidade, quando soube que estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro cheio de perfumes. Estando a seus pés, por detrás dele, começou a chorar. Pouco depois, suas lágrimas banhavam os pés do Senhor, e ela os enxugava com os cabelos, beijava-os e ungia-os com o perfume. Ao presenciar isso, o fariseu que o tinha convidado dizia consigo mesmo: se este homem fosse profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que o toca, pois é pecadora. Então Jesus lhe disse: Simão, tenho uma coisa a te dizer. Fala, mestre, disse ele. Um credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários e o outro, cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos a dívida. Qual deles o amará mais? Simão respondeu: a meu ver, aquele a quem ele mais perdoou. Jesus replicou-lhe: julgaste bem. E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para lavar os pés; mas esta, com suas lágrimas, regou os meus pés e enxugou-os com seus cabelos. Não me deste o ósculo; mas esta, desde que entrou, não cessou de beijar meus pés. Não me ungiste a cabeça com óleo; mas esta, com perfume, ungiu-me os pés. Por isso te digo: seus inúmeros pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor. Mas ao que pouco se perdoa, pouco ama. E disse a ela: perdoados te são os pecados. Os que estavam com ele à mesa começaram a dizer: quem é este homem, que até perdoa pecados? Mas Jesus, dirigindo-se à mulher, disse-lhe: a tua fé te salvou; vai em paz." Palavra da salvação. Glória a vós, Senhor.

Meus irmãos, que palavra maravilhosa, que palavra magnífica! Desde a primeira vez que eu li, desde a primeira vez que eu escutei uma pregação sobre essa palavra, desde a primeira vez que eu entendi profundamente o que significa essa palavra, sempre me tocou profundamente.

Um dos métodos de leitura propostos por Santo Inácio de Loyola — não sei se vocês já tiveram a experiência de fazer alguns dos exercícios espirituais inacianos, que são muito bons — é que, enquanto você faz essa leitura da Bíblia, de qualquer episódio da Sagrada Escritura, você se coloca na história, para poder viver, para aquela palavra se tornar mais concreta na sua vida. Se você hoje fosse se colocar em algum dos papéis aqui, quem você seria? Algumas pessoas seriam o fariseu, que convida Jesus para a casa. Outras pessoas seriam os convidados do fariseu, que estariam com Jesus. Outras pessoas, podemos dizer, talvez um sacerdote, pode ser que se vejam como Jesus. E outras, como eu, se veem como a mulher.

Entrando no contexto dessa passagem, nós temos que fazer, como o Padre Léo dizia, porque um texto fora do contexto é um pretexto para o erro. Então, o que acontece aqui? Jesus tinha iniciado a sua missão, ele ia de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, percorrendo, curando, restaurando as pessoas, expulsava os demônios, libertava, limpava da lepra, das doenças, das enfermidades. E a fama dele ia se espalhando. Esse episódio aqui, um pouco mais para trás — ele tinha ressuscitado... mentira, ele vai ressuscitar no capítulo 8. Voltando aqui, ele tinha curado o servo do centurião, aquele que disse: não sou digno de que entres na minha casa, mas dize uma só palavra e eu serei curado. E Jesus fica admirado com a fé desse homem, e cura o servo do centurião. Ele escolhe os doze apóstolos; aqui, seguindo no Evangelho de Lucas, ele vai realizando milagres, tem a situação da pesca milagrosa, e a fama de Jesus vai se espalhando.

É claro que essa mulher pecadora, pela ação da graça de Deus, já tinha se arrependido. Quando ela ouviu dizer que Jesus iria estar na casa do fariseu, do Simão, naquele dia, naquela hora, ela não podia perder a oportunidade. É isso que o Espírito Santo faz com a gente: o Espírito Santo traz o arrependimento, e esse arrependimento move a gente a ser ousado na fé, move a gente a ter coragem de confessar os nossos pecados, de chorar, de se arrepender. Isso é uma graça maravilhosa, meus irmãos, e nós precisamos ver e experimentar isso muito mais, muito mais.

Quantas pessoas, por causa do orgulho, ficam se achando muito boas, como o fariseu, o conhecedor da lei: vou convidar Jesus para vir à minha casa, vou convidar um padre, vou convidar o bispo, vou fazer isso, vou fazer aquilo, vou dar um jantar, dignidade, pessoas que têm dinheiro, têm condição, e ficam naquela superficialidade. A pessoa não tem um encontro mesmo. Olha só que coisa mais incrível: Jesus, Deus encarnado, por onde passava realizava milagre, realizava cura, realizava prodígios, realizava sinais. O poder de Deus era manifestado através da pessoa de Jesus; onde ele pisava, as pessoas tocavam nele, e era a força, o poder dele que restaurava, que curava a vida das pessoas. E se nós continuarmos lendo aqui um pouco mais para a frente, vai ter aquela mulher que estava havia doze anos com o fluxo de sangue: ela toca em Jesus, e uma força sai dele, e o fluxo de sangue, por doze anos, estanca.

Então, imagina: você convida Jesus para ir à sua casa e, independente da situação, você tem alguma coisa para melhorar. Mas há pessoas, como o fariseu, que já se acham perfeitas, que convidam Jesus como uma situação de amizade, que não precisam de Jesus como Deus, precisam de Jesus só para manter uma posição social. Coisa mais ridícula! Porque a fama de Jesus era que ele era um profeta, que ele era ungido, que ele fazia milagres, e a pessoa fica naquela superficialidade no contato com Jesus, como se ela estivesse de igual para igual.

Essa mulher, movida pelo Espírito Santo, ensina como a gente tem que fazer. Olha só, o Espírito Santo já preparou o coração dela. Eu imagino que, quando ela ouviu dizer que Jesus ia estar lá na casa do Simão e que ela poderia entrar lá, o coração dela já se comoveu, e ela já começou a se arrepender, e já começou a pensar nos pecados que confessaria a Jesus, se tivesse oportunidade. Mas muitas vezes isso não é necessário, porque o Espírito Santo inspira a gente o que é necessário, e o que foi necessário para ela foi a humilhação.

Muitas vezes o que separa a gente de um milagre, o que separa a gente de uma cura, o que separa a gente de deixar Deus agir na nossa vida é a humilhação. Porque, enquanto a gente fica achando que está de igual para igual com Jesus, a gente nunca vai ser curado, a gente nunca vai ser restaurado, a gente nunca vai ver milagres, a gente nunca vai ver o poder que essa mulher viu. Imagina só: ela é uma pecadora conhecida da cidade, ela é uma prostituta. Quando Jesus estava lá à mesa, ela começou a chorar. E essas lágrimas são maravilhas do Espírito Santo, de arrependimento, de conversão, de mudança de vida; a dor pelo pecado, a dor pela ofensa a Deus foi expressa através das lágrimas. E, às vezes, todo aquele discurso que ela tinha preparado para dizer, às vezes como aquele do filho pródigo, foi dito através daquelas lágrimas. E Jesus escuta o que as nossas lágrimas dizem.

Olha só: ela enxugava os pés de Jesus com o cabelo. Eu imagino que, naquela época, Jesus andava, como o judeu andava, pelas areias, e os pés ficavam sujos, e por isso era costume, quando alguém entrava numa casa, oferecer uma vasilinha com água para você lavar os pés. E o Simão não fez isso, falta de delicadeza do Simão. Mas aquela mulher... eu imagino as lágrimas dela caindo tanto, ela chorava de arrependimento a ponto de poder lavar os pés de Jesus, e ela enxugava com os cabelos. Imagino aquele cabelo dela cheio de areia, cheio de sujeira, e ela não estava se importando, porque a pessoa que é movida pelo Espírito Santo não fica preocupada com o que os outros pensam, com o que está acontecendo, mas consigo mesma diante de Deus, porque a ação da graça de Deus é tão grande na vida de quem se abre, que nada importa.

Aquela música do Toni Allysson: "nada é mais importante, nada mais preciso do que estar contigo". Aquela mulher estava com Jesus. Todos aqueles outros que estavam ali à mesa estavam tentando ser de igual para igual com Jesus, e nenhum deles se encontrou com Jesus. Todos eles estavam lá, mas nenhum estava com Jesus, nenhum aproveitou a presença de Jesus. Para se mostrar, a mulher pecadora pública, prostituta, foi a única que teve a coragem de fazer isso. E, às vezes, meus irmãos, é isso que nós precisamos fazer.

Quantas vezes na minha própria vida eu me vi como essa prostituta, como essa pecadora, que não tinha palavra, sabe? Deus conhece a nossa natureza, Deus conhece que a gente veio do pó, e do pó ao pó a gente vai voltar. A gente é barro, a gente é impuro, a gente é pecador, a gente não vale nada, a gente não consegue ter constância, a gente cai em pecado, a gente faz o que não devia fazer, a gente fala o que não devia falar. Aquilo que Paulo diz: faço o mal que não quero, e o bem que quero não consigo fazer (Romanos 7,19), a nossa fraqueza, o espinho na carne. Muitas vezes a gente fica tentando esconder, mas diante de Deus a gente não pode ficar com máscaras.

Sabe quantas vezes você já teve a oportunidade, diante do padre, de esconder, você foi como um fariseu, mostrou os seus bens, mostrou a sua casa, mostrou tudo menos o seu coração? E Jesus não estava se importando com nada: Jesus não estava se importando com o jantar, Jesus não estava se importando com a mesa, Jesus não estava se importando com a panela, mas Jesus estava se importando com o coração. É por isso que, quando o Simão começou a julgar, ele, que via o coração dela, contou essa parábola. Mas Jesus não se importou em falar: "ah, Simão, você acha que eu não sou profeta? Eu sei o que você está pensando". Não. Jesus é Deus, ele é maravilhoso. Até com essa atitude grosseira do Simão, ele teve uma delicadeza tão grande, de dar essa comparação dos dois devedores: um devia quinhentos, outro cinquenta; como os dois não têm como pagar, ele perdoa os dois. E ele pergunta a Simão: qual deles o amará mais? Não tendo com que pagar, perdoou a ambos a dívida, qual deles o amará mais? O Simão disse: aquele a quem mais perdoou. Ele falou: julgaste bem.

E aí ele traz a realidade, é uma tentativa de Jesus de quebrar as máscaras que Simão estava usando: vês essa mulher entrar em sua casa? Você não me deu água para lavar os pés, mas com as suas lágrimas ela regou os pés e enxugou com os cabelos. Você não me deu o ósculo, chamado ósculo santo, mas ela não parou de beijar meus pés. Você não ungiu minha cabeça com óleo, costume dos judeus, mas ela ungiu os meus pés com perfume. Por isso, por isso, os seus numerosos pecados estão perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor. Ah, meus irmãos, que o Espírito Santo mova o nosso coração para poder fazer essas demonstrações de amor a Jesus! Que coisa mais maravilhosa, que coisa mais magnífica é poder, através de um ato, através de humilhar-nos, demonstrar o nosso amor a Jesus!

E, ao final, Jesus disse: a tua fé te salvou, vai em paz. Imagino que ela tinha muitas coisas para dizer a Jesus: Senhor, eu pequei; Senhor, eu fiz o que não devia; Senhor, eu falei o que não devia; Senhor, eu vivi uma vida impura; Senhor, eu sei que tenho vivido uma vida que não te agrada; eu sei que tenho feito o que não te agrada; eu sei que não consigo sair dessa vida, mas está tudo aqui, através dessas lágrimas eu te entrego a minha vida. E essas lágrimas, meus irmãos, precisavam ser a nossa oração. Essa precisa ser a nossa oração. A gente precisa descer do pedestal de querer achar que a gente é um bom católico, que a gente faz a vontade de Deus, que a gente consegue viver uma vida reta, que a gente tem virtude, que a gente faz as coisas certas. E a coisa mais maravilhosa que pode acontecer conosco é que o Espírito Santo toque o mais profundo da nossa alma e traga toda a impureza, toda a sujeira que está dentro de nós para fora, para que a gente possa confessar, para que a gente possa pedir perdão, para que a gente possa se converter, para que a gente possa mudar, para que a gente possa se emendar, para que a gente possa ser transformado pelo poder de Deus.

Olha só o que Jesus disse: a tua fé te salvou, vai em paz. Meus irmãos, nós sabemos que a fé é uma das virtudes teologais, junto com a caridade e com a esperança. Ou seja, Jesus nos dá o dom de crer, e através desse dom ele nos salva. E é isso que ele quer fazer com você.

Nós queremos nos colocar na tua presença, Senhor, como aquela mulher pecadora. Nós, que vivemos como a pecadora mas queremos nos apresentar como o fariseu, queremos nos humilhar diante da tua presença, Senhor, nesse tempo oportuno, renunciando a todo pecado, toda impureza, toda maldade, a toda máscara, a todo fingimento que nós temos vivido. E queremos pedir que a tua graça venha nos purificar, Senhor, seja através dessas lágrimas que meus irmãos estão derramando, seja através do coração contrito, Senhor, desse encontro consigo mesmo, de reconhecer a nossa miséria, a nossa fraqueza, a nossa pequenez, os nossos pecados, e poder ter o desejo de mudar. A tua graça, Senhor, através do teu Espírito Santo, derrama arrependimento nos nossos corações, Senhor. Derrama a água viva do teu Espírito, para que nós possamos enxergar tudo de impuro que nós estamos carregando dentro de nós, Senhor: todo pensamento, toda palavra, toda atitude impura, Senhor, traz para fora, traz para fora, e vem com a tua graça lavar.

Nós queremos, Senhor, pedir perdão pelos nossos pecados. Nós queremos nos humilhar na tua presença. Nós queremos, como essa mulher pecadora, Senhor, não nos preocupar com nada nem com ninguém que está ao nosso redor, mas ter a coragem de também demonstrarmos o nosso amor, de fazermos atos de amor, de fazermos atos de caridade, seja ao Senhor na pessoa da Igreja, seja ao Senhor na pessoa do padre, seja ao Senhor na pessoa dos nossos irmãos, seja ao Senhor nos nossos familiares. Dá-nos a graça de fazer esses atos de amor como essa mulher fez. Queremos nos entregar inteiramente e te pedir que o Senhor tenha compaixão de nós, que o Senhor nos dê a graça de que nós precisamos nesse momento da nossa vida. O Senhor sabe aquilo de que nós mais precisamos, o Senhor sabe aquilo que o nosso coração deseja. Dá-nos a graça de nos encontrar contigo, Jesus, e, nos teus olhos, ver a nossa verdade, ver a nossa vida, e deixar que o Senhor nos ame, deixar que o Senhor faça o que quiser em nós.

Muito obrigado, Senhor. Obrigado pela tua Palavra que nos inspira, obrigado pelo teu amor que nos toca, obrigado pela tua presença que nos envolve, obrigado pela tua mãe que o Senhor deu para ser nossa mãe. Obrigado pela tua presença, obrigado pelo teu toque, pelo teu amor. Obrigado, Senhor, por nos ensinar que o Senhor olha o nosso coração. Obrigado por nos mostrar que o mais importante é ser aquilo que nós somos mesmo, e, diante da tua presença, não medir esforços para te amar e para deixar que o teu amor nos dê fé, e essa fé nos salve. Para que o Senhor Jesus Cristo para sempre seja louvado.